É inteligente abrandar a IA?
Alguns líderes da indústria de Inteligência Artificial têm alertado sobre os riscos da tecnologia e estão a sugerir pausas no seu desenvolvimento. O que pode, afinal, estar a justificar este pedido para abrandar?
É muito plausível que existam receios genuínos de segurança. O perigo não reside em cenários de ficção científica com guerras de cyborgs (para já), mas na possibilidade real de a IA sair das suas sandboxes e aceder a infraestruturas críticas. A nossa dependência das infraestruturas de rede é absoluta. Basta recordar o apagão do ano passado que paralisou a economia ibérica, ou o ciberataque desta semana assumido pela MEO, que perturbou severamente os níveis de serviço. A infiltração da IA em redes energéticas, financeiras, de telecomunicações, ou mesmo em infraestruturas militares e de saúde, tem potencial para causar danos incalculáveis.
Contudo, também há elementos financeiros a ter em conta. O altruísmo corporativo raramente ignora a análise das contas. A exigência financeira para treinar modelos, desenvolver código e garantir componentes como chips atingiu proporções colossais. O setor está a financiar-se através de enormes injeções de capital e, cada vez mais, de dívida. Simultaneamente, as empresas deparam-se com a dificuldade de criar produtos vendáveis e rentáveis. A evolução é tão rápida que o mercado não está a conseguir digeri-la. É difícil rentabilizar a tecnologia se o utilizador se sente perdido perante inovações que ficam obsoletas antes mesmo de as aprender a usar, até porque a curva de aprendizagem não é simples. Uma pausa seria, portanto, um balão de oxigénio comercial para os atuais incumbentes.
A grande questão é a eficácia prática de um abrandamento, que me parece nula. Um pacto para desacelerar o desenvolvimento da IA esbarra na concorrência. Se os atuais líderes abrandarem por escrúpulos éticos ou asfixia financeira, estarão apenas a oferecer tempo e recursos para os que não o fizerem. Certamente, outras entidades aproveitarão a benesse para recuperar o tempo perdido, passar a liderar a corrida e tornarem-se elas próprias os novos incumbentes.
Donald Trump tem um ponto válido quando sublinha que se trata de uma corrida. Se o Ocidente decidir fazer uma pausa, os rivais usarão esse tempo para o ultrapassar. A gestão desta revolução tecnológica levanta enormes desafios, mas a História ensina-nos uma lição importante: tentar adiar a tecnologia nunca foi uma boa ideia.
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