Banca acumula mais de 100 mil milhões em dívida soberana mas maioria está protegida
Num momento em que as yields das obrigações soberanas disparam a nível global, a exposição combinada dos bancos portugueses à dívida pública superava os 100 mil milhões de euros no final de março de 2026, segundo dados do Banco de Portugal.
Quando os juros da dívida pública sobem, o valor de mercado das obrigações desce, uma vez que o preço de uma obrigação evolui em sentido contrário ao das taxas de juro. No entanto, o impacto nos resultados e no capital dos bancos depende sobretudo da forma como os títulos são contabilizados nos seus balanços. A larga maioria (75%) está registada ao “custo amortizado”. Portanto, apenas uma parcela residual está registada ao justo valor (mark-to-market), com impacto direto nos resultados ou no capital.
Nos títulos contabilizados ao custo amortizado, as perdas, se for caso disso, só se materializam caso o banco venda os ativos ou seja reconhecida uma imparidade. Esta modalidade, associada à intenção de deter os títulos até à maturidade, isola os resultados e o capital próprio das flutuações diárias dos preços. Assim, as desvalorizações não afetam resultados nem capital, salvo em caso de imparidade.
Segundo dados do Banco de Portugal, a exposição do sistema bancário português a títulos de dívida pública atingiu 20,2% do ativo total em março de 2026. Com um ativo total de 503,9 mil milhões de euros, isso corresponde a cerca de 102 mil milhões de euros em títulos de dívida pública, em valor bruto. A componente classificada ao custo amortizado representa 15,0% do ativo total, cerca de 75,6 mil milhões, confirmando que a maioria da exposição não está sujeita a reavaliações diárias de mercado. O banco central acrescenta que a parcela correspondente à dívida pública portuguesa representava 4,6% do ativo.
Agências sem preocupações
Estes números têm de ser lidos num contexto de fortes subidas das yields soberanas a nível global. A yield da Treasury norte-americana a 10 anos ultrapassou os 5%, está em máximos desde 2007, num movimento alimentado por pressões inflacionistas, riscos orçamentais e expectativas de uma política monetária mais restritiva. O sell-off obrigacionista alastrou às maturidades longas da zona euro, pressionando o valor de mercado das carteiras detidas pelas instituições financeiras.
“Esperamos uma exposição direta muito baixa aos títulos do Tesouro dos EUA, aos títulos do governo japonês (JGBs) e aos títulos do governo britânico (Gilts)”, refere a Fitch ao Jornal Económico (JE). “Naturalmente, há uma maior exposição a títulos de França, Portugal, Itália e Espanha (e provavelmente menor em relação aos da Alemanha)”, mas “o impacto no capital próprio dos bancos é limitado pelo método contabilístico utilizado (custo amortizado, o que significa que os ativos não são avaliados ao justo valor no balanço), pelo que as variações das taxas de juro não afetam o balanço”, acrescenta.
Quanto à parcela avaliada ao justo valor, a agência de notação financeira diz esperar “que a sensibilidade dos rácios de capital aos spreads soberanos seja baixa e controlável”. “Poderia ocorrer a realização de perdas caso os bancos fossem forçados a vender os ativos por motivos de liquidez, mas este cenário parece remoto, dada a ampla base de depósitos e a liquidez abundante”, acrescenta.
Maria Vinuela, da Moody’s, diz que “o principal risco surgiria caso os bancos necessitassem de vender ativos para gerar liquidez ou se os fundamentos de crédito soberano se deteriorassem”, mas considera estes cenários como “improváveis”.
Maria Vinuela destaca que os bancos portugueses “mantêm sólidas reservas de capital e de liquidez, e muitas das posições em títulos soberanos destinam-se à gestão da liquidez e do balanço, e não à negociação ativa, pelo que flutuações moderadas nos preços de mercado não se traduziriam necessariamente em stress financeiro imediato”. Além disso, acrescenta, “a inclinação da curva de juros é, em geral, positiva para os bancos, uma vez que os ativos tendem a ter os seus preços reajustados mais rapidamente do que os passivos. Este aspeto é particularmente relevante em Portugal, onde os depósitos de clientes continuam a representar a maior parte do financiamento bancário”.
Também a Morningstar DBRS aponta que o impacto imediato da subida das yields soberanas nos resultados e no capital depende sobretudo da forma como os títulos estão contabilizados, da sua maturidade e do grau de cobertura (hedging). “Os títulos medidos ao justo valor podem afetar imediatamente os resultados ou o capital, enquanto os títulos detidos ao custo amortizado não são ajustados ao valor de mercado. Neste último caso, as yields mais elevadas criam perdas não realizadas que normalmente só se concretizariam se o banco vendesse as obrigações antes da maturidade, potencialmente num cenário de stress severo de liquidez ou de funding. Mas mesmo nessa circunstância, os bancos poderiam utilizar as obrigações soberanas elegíveis como colateral em vez de as vender com prejuízo”, explica a DBRS, em declarações ao JE.
A agência de notação financeira refere que, “no caso dos bancos portugueses, as carteiras de títulos de dívida são relativamente expressivas quando comparadas com as da maioria dos seus pares europeus; no entanto, grande parte destes ativos é detida pelo custo amortizado (mais de 80% na maioria dos casos), o que reduz o impacto imediato no capital ou nos resultados”.
A DBRS sublinha que “o setor beneficia de robustas reservas de capital e de liquidez” e que “estão bem posicionados para gerir com tranquilidade os potenciais efeitos de avaliação nas suas carteiras”. Além de que, “ao longo do tempo, yields mais elevadas podem também gerar um efeito positivo, permitindo que os bancos reinvistam ativos que chegam ao vencimento a taxas melhores, o que pode favorecer a margem financeira líquida”.
Além da contabilização ao custo amortizado existe ainda a modalidade de “justo valor através de outro rendimento integral” (FVOCI), em que as perdas são reconhecidas no capital próprio, afetando os rácios de solvabilidade. Já o “justo valor através de resultados” (FVTPL) tem impacto imediato nos lucros.
BCP mais exposto
Os dados compilados a partir dos relatórios do primeiro semestre da Caixa Geral de Depósitos, BCP, Novobanco, BPI e Banco Montepio revelam uma exposição a dívida soberana superior a 70 mil milhões. No caso do BCP, a carteira consolidada de dívida pública atingiu 35,9 mil milhões de euros em junho, mais 14% do que em junho de 2025 e 4% acima de março de 2026, com grande peso da Polónia. Deste montante, 22,9 mil milhões estavam contabilizados ao custo amortizado.
Na CGD, a exposição total ascendia a 22,7 mil milhões de euros, dos quais 81%, ou 18,4 mil milhões, estavam contabilizados ao custo amortizado. O BPI detinha uma carteira de títulos de dívida soberana de Portugal, Espanha, Itália, França, Bélgica e EUA que, em junho de 2026, ascendia a 4,7 mil milhões de euros, dos quais 3,2 mil milhões estavam contabilizados ao custo amortizado. No Novobanco, a exposição a dívida pública era de 6,3 mil milhões de euros em junho. A carteira ALM, principal fonte de ativos elegíveis para o BCE, estava 61% contabilizada ao custo amortizado.
Já o Montepio tinha em 2025 cerca de 3,8 mil milhões em dívida pública, com 87% classificada ao custo amortizado.
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