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Teatro Nacional D. Maria II: Voltar ao Rossio com um país dentro

Teatro Nacional D. Maria II: Voltar ao Rossio com um país dentro

A história deste teatro tem mil e uma estórias dentro. Mas escolhemos invocar a noite fatídica de 2 de dezembro de 1964, quando um incêndio tremendo o deixou em ruínas. Não foi o fim. Foi um recomeço. Reerguido, qual titã munido de uma vontade indómita, volta agora a abrir as suas portas ao público após três anos de trabalhos transformadores. Não é um recomeço, é uma metamorfose. Sem perder a sua essência. Falamos do Teatro Nacional D. Maria II e do regresso de toda a sua equipa ao Rossio, a casa. E da nova temporada que se inicia a 18 de setembro. A peça inaugural, “Macbeth”, não é fruto do acaso nem de um qualquer capricho. Ésimbólica. O fogo histórico destruidor e a ambição que consome a dupla de protagonistas é, também, uma reflexão sobre a memória e o renascimento, e ecoa a inquietante pergunta: estará o teatro verdadeiramente livre do seu destino? A interrogação, aqui, serve de statement. Pois nessa fatídica data de 1964, estava em cena esta mesma peça de Shakespeare. Ironia? Provocação?
“Quando fechámos o edifício do Rossio, em janeiro de 2023, sabíamos que tínhamos pela frente um enorme desafio: como manter vivo um Teatro Nacional sem o seu teatro? A resposta acabou por transformar profundamente a própria instituição. Em vez de encararmos estes três anos como um período de suspensão, decidimos fazer exatamente o contrário: aproveitar a ausência do edifício para repensar a nossa presença no país”, frisa Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII).
O grande marco deste período foi a Odisseia Nacional, explica ao JE Pedro Penim. “Chegámos a mais de 100 concelhos, estabelecemos relações com centenas de estruturas, artistas, municípios, associações e comunidades e encontrámos públicos que, em muitos casos, tinham tido pouco ou nenhum contacto com o D. Maria II.” Mas o mais importante não foram os números, prossegue. “Foi perceber que um Teatro Nacional pode existir de muitas maneiras e que a sua dimensão nacional não decorre apenas do nome ou do lugar que ocupa no Rossio. Tem de ser construída através de relações continuadas e recíprocas.”
Quisemos saber qual foi a principal aprendizagem deste périplo pelo país. A resposta chegou prontamente. “Saímos de Lisboa e regressamos tendo aprendido muito mais do que aquilo que fomos ensinar. Conhecemos melhor o país, as suas assimetrias, mas também a enorme vitalidade artística e cultural que muitas vezes permanece invisível a partir dos grandes centros. Por isso, não sinto propriamente que estejamos a regressar ao ponto de onde partimos.” E explica porquê. “O edifício é o mesmo, embora profundamente renovado, mas o Teatro que entra agora nele é outro. Gosto de dizer que voltamos ao Rossio com um país dentro. E essa talvez seja a transformação mais importante destes três anos.”
Ambicionar o país
A Odisseia não é apanágio apenas de Homero (nem de Christopher Nolan e do filme que deu que falar este verão). O TNDMII sabia, desde o primeiro instante, que a sua Odisseia Nacional não podia terminar no momento em que reabrisse as portas no Rossio. Pedro Penim confirma e explica que, se assim fosse, “correríamos o risco de transformar três anos de relações num acontecimento excecional, quando aquilo que nos interessa é precisamente que essa dimensão territorial passe a fazer parte da identidade permanente do D. Maria II.” Isso significa continuar a fazer circular espetáculos, mas não só.
“A experiência destes anos ensinou-nos que uma relação com o território não se pode resumir a levar uma produção de Lisboa a outra cidade durante dois ou três dias. Queremos continuar a desenvolver coproduções, programas de formação e mediação, projetos participativos e relações de longa duração com estruturas de diferentes regiões.” Pedro Penim invoca os programas ATOS, PANOS, Boca Aberta ou Cenários como exemplos dessa continuidade. “Interessa-nos cada vez menos pensar numa lógica de centro e periferia, em que existe um lugar onde a cultura é produzida e outros onde ela é recebida.” Os desafios agora são outros. Primeiro, importa voltar a habitar esta casa “profundamente renovada.” Sem que isso ponha em causa as relações construídas ao longo destes três anos. “Pelo contrário, queremos que elas permaneçam como uma dimensão estrutural do D. Maria II”, garante o diretor artístico. Ou seja, voltarão a ganhar expressão, progressivamente.
Os números impressionam: 3.200 mil pessoas estiveram envolvidas em cerca de 300 projetos. Que sementes ficaram? O trabalho em rede será mais intenso? “Esses números impressionam-nos e dão uma ideia da escala do que aconteceu, mas há uma dimensão muito mais difícil de contabilizar: as relações que ficaram. Ao longo destes anos construíram-se cumplicidades, conhecimento e confiança entre pessoas e instituições que antes não trabalhavam necessariamente juntas. E isso não desaparece quando termina um projeto”, realça Pedro Penim. Mais. A ideia de interdependência será uma das sementes mais importantes da Odisseia Nacional. “Nenhuma instituição cultural, por maior ou mais antiga que seja, existe sozinha. Um Teatro Nacional tem uma responsabilidade acrescida de contribuir para um ecossistema e não apenas para a sua própria programação”, salienta.
O trabalho em rede será aprofundado, diz, mas terá de ir além da circulação de obras. Terá de ter por base a partilha de recursos, conhecimento e capacidade de decisão. A que se soma outra vertente: a entrada no TNDMII de pessoas e estruturas de outros pontos do país. “A relação tem de funcionar nos dois sentidos”, afirma Pedro Penim, antes de realçar um aspeto menos visível destes três anos fora de portas. “O próprio D. Maria II mudou. As equipas aprenderam outras formas de trabalhar, conhecem hoje realidades culturais muito diferentes e perceberam que a missão nacional da instituição não é uma abstração administrativa. É uma prática quotidiana. Talvez essa seja a semente mais importante, porque significa que a Odisseia não termina com a reabertura. Passa a fazer parte daquilo que somos.”
A escolha de Macbeth, “para desafiar o destino e combinar assombração e futuro”, dá o tom à futura programação agora que se inaugura uma nova era do TNDMII? “Macbeth é inevitavelmente um statement. Foi a última peça representada no D. Maria II antes do incêndio de 1964 e regressar a ela no momento da reabertura estabelece um diálogo muito direto com a memória do edifício. Há qualquer coisa de deliciosamente imprudente em reabrir um teatro com a peça mais supersticiosa da história do teatro, num edifício que ardeu precisamente quando ela estava em cena. Interessa-me essa assombração, essa possibilidade de convocar os fantasmas da casa sem fazer deles um exercício de nostalgia.”
Textos que perturbam
Mas não é apenas por isso que Pedro Penim quis regressar a Macbeth. Trata-se de uma peça que “nos coloca perante uma questão que me parece profundamente contemporânea: o fascínio do mal”, explica o diretor artístico. “Shakespeare não nos apresenta simplesmente um monstro que podemos observar à distância e condenar tranquilamente. Obriga-nos a acompanhá-lo. Vemos nascer o desejo, assistimos às escolhas que faz e continuamos com ele à medida que atravessa sucessivamente os limites que julgávamos intransponíveis. Há algo de perturbador na nossa disponibilidade para continuar a olhar, para querer saber até onde ele irá. Macbeth fala da ambição e do poder, evidentemente, mas fala também da nossa relação com quem os exerce de forma brutal e da atração que a violência, a transgressão e até a figura do tirano podem exercer sobre nós.”
É sabido que há textos que envelhecem bem. Os da lavra do Bardo têm esse condão. A sua argúcia para ler as fraquezas humanas permanece atual. E como frisa Pedro Penim, “num momento em que voltamos a assistir à sedução exercida por discursos autoritários e por figuras que fazem da força brutal um espetáculo, esta é uma pergunta que me interessa particularmente colocar. Ao mesmo tempo, pareceu-me importante que um Teatro Nacional reabrisse as suas portas com um clássico da dramaturgia mundial. Há nisso também uma afirmação sobre aquilo que entendemos ser a missão de um teatro desta natureza: um lugar onde o património dramatúrgico pode ser continuamente revisitado, confrontado com o presente e transmitido a novas gerações de espetadores.”
Detalhe relevante. Esta não é uma adaptação de Macbeth. “Em vez de atualizar Shakespeare através da reescrita, interessa-me perceber se podemos encontrar o presente dentro dele. Essa relação entre memória e futuro atravessa muito do que queremos fazer agora. Reabrimos uma casa histórica, profundamente transformada, mas não queremos regressar nostalgicamente ao teatro que existia antes das obras. Queremos que a memória do edifício seja matéria viva e que dialogue com aquilo que ainda não aconteceu.”
É também isso que a programação procurará fazer. Haverá repertório e criação contemporânea, artistas com uma relação longa com esta casa e novas gerações, grandes produções na Sala Garrett e projetos de outras escalas. “Queremos continuar a aprofundar a relação com o território que construímos durante estes três anos e reforçar a presença do D. Maria II nas redes internacionais”, salienta o diretor artístico. “Depois de três anos a atravessar o país, regressamos finalmente a casa. Mas regressar, para mim, não significa restaurar uma ordem anterior. Significa perceber de que maneira tudo aquilo que aconteceu enquanto estivemos fora pode transformar a casa para onde voltamos. É essa transformação que gostaria que definisse esta nova etapa do D. Maria II.”
Entre 18 e 20 de setembro, o regresso é assinalado com três dias de programação de entrada livre.

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