A carregar agora

“Vamos acabar por matar os ralis”: o grito de alerta de Ricardo Domingos sobre a crise nos regionais

“Vamos acabar por matar os ralis”: o grito de alerta de Ricardo Domingos sobre a crise nos regionais

Em fevereiro deste ano, numa conversa com Ricardo Domingos, da Domingos Sport, alertou-nos para várias situações nos ‘regionais’, que este recente adiamento/cancelamento do Rali Terras d’Idanha por parte da Escuderia Castelo Branco coloca a nú.
Há muito se assiste a alterações constantes de calendários, ralis anulados e provas incertas por falta de apoio municipal, inúmeras sobreposições de provas, alternância desordenada entre pisos e calendários, e isso tem levado à perda de motivação dos pilotos em disputar campeonatos. Muitos concorrentes preferem fazer provas isoladas em vez de campeonatos completos devido à falta de incentivo e estrutura.
Seis ou sete ralis por regionalA grande generalidade dos pilotos dos regionais há muito que defendem um limite máximo de entre seis a sete ralis por campeonato regional, bem como uma proteção diferente das bases da modalidade: A recente entrada de carros de topo nos regionais corta a oportunidade de progressão a muitos pilotos que começam com viaturas muito mais modestas, pois não têm a mínima hipótese de sobressair. Por fim, segundo Ricardo Domingos, existe uma ausência de visão piramidal, alegando que a federação carece de uma visão global e estruturada que ligue a base ao topo.
Mais cancelamentosO recente cancelamento do Rally Terras d’Idanha, acaba por ser consequência de um problema que já vem de há muito tempo: “Eu espero, sinceramente, que alguém da Federação faça alguma coisa a partir do próximo ano, porque isto não faz sentido… Há muito que falo sobre isto. Há ralis a mais, há provas a mais.Os campeonatos são mal distribuídos. Só para dar de exemplo este próximo fim de semana, há o Rali de Viana do Castelo, o Legends Bussaco,e o Rally Terras d’Idanha. A 10 e 11 de outubro, há uma prova do Rally Series em Castelo Branco no mesmo fim de semana do Rali de Cantanhede e do Rali de Famalicão, e já este ano houve Rally Series Ponte de Lima, Rali de Portimão e Rali de Carregal do Sal!! Há aqui alguma coisa que não está bem, não acredito que alguém ache isto normal!!Tinha que haver coerência de dizer: “Meus amigos, os campeonatos regionais só vão poder ter sete provas no máximo cada um e as provas não se podem atropelar umas às outras. No Sul, ainda vá, pois há uma distância muito substancial ao Centro e Norte do País. Mas as provas dos regionais do centro-norte cabem todas num raio de 100, 150 km. Isto não faz o mínimo sentido!
Ouvir e sentir a comunidadeO país é pequeno demais para tantos ralis, para tanta coisa. E depois, com o aparecimento do Rally Series que não se critica porque é uma boa competição, mas são mais provas.Também continuo a achar que os ralis devem ser ao sábado e domingo. Recentemente foi feita uma sondagem no Ralis em Portugal, 90% ou 80 e tal por cento responderam que os ralis deviam ser ao sábado e ao domingo.São poucos os que podem tirar oito semanas de férias ou oito semanas para andar a fazer ralis! Isto é surreal, é uma loucura. Eu não consigo entender isto a nível do CPR, e muito menos nos regionais, é a FPAK a quem cabe esta responsabilidade.Garanto-vos que as pessoas estão a ficar fartas, estão cansadas. Acreditem quando eu digo, porque vou falando com muita gente interessada, e modéstia à parte somos nós que andamos há mais tempo nos regionais e provavelmente quem mais entende os regionais em Portugal.Metam na cabeça que muitos pilotos que fazem ralis nos regionais estão a marimbar-se para os campeonatos, querem é fazer um rali ou outro para se divertir e vão onde quiserem para se divertir, claro que existem exceções, mas cada vez menos.Querem fazer ralis que realmente sintam prazer de fazer, que gostem e que se sintam bem recebidos.A federação não está a fazer nada por isto. Os regionais são um bocado, tipo, para encher, mas está mal.Está mal porque muitos dos pilotos que militam hoje no CPR vêm dos regionais e começam pelos regionais.Os regionais deviam ser a iniciação.

O perfeito exemploDou o exemplo do João Rodrigues. Andou com o 106, deu nas vistas, e bastante. Toda a gente sabia quem era o ‘Leãozinho’. Pega no Clio, ganha o troféu Clio facilmente, com todo o respeito pelos outros. Vai para o CPR 2RM e neste momento lidera o campeonato com 4 vitórias consecutivas. Não começou nos Rally4, mas despontou nos regionais com um carro mais modesto. E é isto de que se trata.Muitos não têm a possibilidade de começar com Rally5, Rally4, começam com carros que consigam ter, mas têm que ter um caminho para poder dar nas vistas e eventualmente despontar, é difícil começar com um carro de 50 ou 70 mil €
Regionais numa espiral muito negativaOlhamos para outros países, principalmente os países de leste da Europa ou os nórdicos e vemos vários bons exemplos, um dia destes estava a ver o EWRC e num rali na Suécia estavam 32 Volvo!!!… Aqui era impensável andarem tantos carros “velhos”. Aqui até já olham para um Mitsubishi de lado, quando ainda há não muitos anos era o melhor carro de ralis a correr em Portugal!!!… Acho isto surreal!!Não tem que ser tudo de R5 e Rally2, há que ter noção dos custos, e não digam que sai barato porque a secção de comédia não é aqui!!Eu sou um crítico, muito crítico, os regionais estão a ir por uma espiral muito negativa.Eu acho que alguma coisa tem que ser feita, tem de se ouvir os principais protagonistas dos campeonatos regionais.Volto a dizer que nós somos um país demasiado pequeno. Deixar entrar o R5 nos regionais não veio ajudar em nada, é o mesmo que permitir um WRC no CPR!!.. Poucos iam achar graça.O Regional Norte era o melhor regional do país, com 4 ou 5 carros a lutar pelo campeonato. O Regional Centro era um regional que até era mais ou menos bem disputado. No sul andavam em 2024 15 Mitsubishi, e agora??!!O País não tem dimensão estrutural nem económica para esta realidade. Em Portugal tem que se olhar com coerência para os regulamentos e, deve olhar-se com respeito para os campeonatos regionais, porque senão isto vai acabar mal, mais cedo ou mais tarde vamos acabar por matar os ralis. Não tenham a mínima dúvida. Os ralis não se fazem só com os R5/Rally2”, é preciso partir de uma base, e a base também não são carros de 50 ou 70 mil €”, disse Ricardo Domingos.

Número de inscritos a cairQuando lhe perguntámos se tem consciência que os números de inscritos estão a decrescer – confessando que não fizemos essas contas: “acompanho os ralis todos em Portugal, até mesmo a Madeira e nos Açores. Dou-me sempre ao trabalho de ir ver as listas de inscritos e as classificações…No ano passado e este ano não estamos no Regional Norte, estamos no Centro e no Sul, mas estive no Regional Norte desde 2019 até 2024, e antes disso em alguns anos no passado, e no Centro e no Sul de forma ininterrupta desde 2019 até agora. Lutamos por todos os campeonatos, houve anos de ganhar em vários campeonatos, por isso eu sei bem o que é que se passa, sei qual é a competitividade, sei qual é a realidade do país, sei qual é a realidade da grande maioria dos pilotos, porque conheço a maioria dos pilotos que fazem os campeonatos regionais. E há expressivamente menos inscritos do que antes. Vejam o Regional Norte em 2024, vão ver o Regional Norte do ano passado e deste ano, e comparem tanto a competitividade como o numero de inscritos, exceção em duas ou três provas, mas mesmo aí se nota.Façam a mesma coisa no Centro: vão ver o Centro, por exemplo, em 2023 e 2024, depois o ano passado e este ano. E este ano, então, é para esquecer, é um decréscimo brutal. Tirando as provas da Promolafões, do Zé Correia, devido ao seu trabalho…
Respeitem mais os regionais, muitos andam lá de 106 ou de Saxo ou mesmo outro carro mais modesto e se calhar dali podem vir alguns futuros clientes do CPR, porque aquela malta dificilmente pode começar de Rally4. Mas se calhar podem começar com um carro mais modesto, de 15.000 ou 20.000 euros, e sobressair de uma maneira muito mais fácil e dar o salto daí para a frente. Voltando ao exemplo, como fez o João Rodrigues.”
Diz quem sabe e senteRicardo Domingos lidera a estrutura – a Domingos Sport – que mais tem estado presente nos campeonatos regionais nos últimos anos e vê com muita preocupação o futuro dos campeonatos regionais em Portugal. Há muita gente a opinar, mas há algo que não mente, que são os números. Como em tudo na vida, há lugar para todos, e se olharmos para trás, quantos dos melhores pilotos na história dos ralis em Portugal começaram ‘por baixo’. Armindo Araújo com um Renault Clio 1.8 16V, Rui Madeira, um SEAT Marbella GL, Bruno Magalhães, Volkswagen Golf III GTi 16V, Ricardo Moura, um Seat Ibiza GTi 16V, Rúben Rodrigues, um Citroen Saxo Cup, e por aí fora…
Sabemos qual o propósito dos campeonatos regionais, acabar com os ralis piratas e dar oportunidade a quem participava nesses ralis de fazer ralis de uma forma mais económica, desde à três décadas que muitos bons pilotos deram à tona à custa disso, como exemplo se não fossem os regionais hoje não tínhamos o Gonçalo Henriques.Eu gostava que as pessoas e a própria federação não se esquecessem disso, é óbvio, cada coisa no seu patamar, nunca poderemos ter o destaque num regional, que temos num campeonato nacional, o CPR tem e deve ser sempre o expoente máximo, mas isso não impede que os regionais possam ter o devido destaque, prova disso são as provas organizadas pela Promolafões”, disse Ricardo Domingos.
The post “Vamos acabar por matar os ralis”: o grito de alerta de Ricardo Domingos sobre a crise nos regionais first appeared on AutoSport.

Share this content:

Publicar comentário