O BCE subiu os juros para 2,5% e desta vez a fatura que o obrigou a agir foi a da energia
O Banco Central Europeu decidiu aumentar as três taxas diretoras em 25 pontos base, colocando a taxa de depósitos em 2,5%, a das operações principais de refinanciamento em 2,65% e a de cedência de liquidez em 2,9%, com efeito a partir de 16 de setembro. É o segundo aumento do ano e o comunicado deixa a porta aberta a um terceiro.
O que distingue esta subida das anteriores não é a dimensão, que é a habitual, mas a origem. A inflação da zona euro fixou-se em 3,3% em agosto, mas a componente subjacente, que exclui energia e alimentos não transformados, ficou estável nos 2,1%, praticamente em linha com o objetivo. O que se moveu foi a energia, que passou de uma variação homóloga de 10,3% em julho para 14,3% em agosto. Dito de outra forma, o problema que o BCE está a combater com juros não está a ser gerado pelo consumo europeu: está a ser importado através do preço da eletricidade e dos combustíveis.
Essa distinção tem consequências práticas que merecem ser ditas com clareza. Uma subida de taxas é um instrumento desenhado para arrefecer procura interna. Funciona bem quando a inflação vem de famílias e empresas a gastar acima da capacidade produtiva da economia. Funciona muito pior quando a inflação vem de um choque de oferta externo, porque nesse caso a subida dos juros não altera o preço da energia, apenas reduz o rendimento disponível de quem tem crédito. O efeito é real, mas o canal é indireto e o custo distribui-se de forma desigual.
Portugal está no grupo de países onde essa desigualdade é mais visível, por uma razão estrutural conhecida: a esmagadora maioria do crédito à habitação português está indexado à EURIBOR. Nas operações intermediadas pelo ComparaJá em agosto, a taxa fixa ficou-se por 4,6% dos contratos assinados. Tudo o resto, mais de 95%, tem a prestação ligada à EURIBOR, seja de imediato, no caso da taxa variável pura, seja a partir do fim do período inicial, no caso da taxa mista, que sozinha vale 83,3% das contratações.
O movimento já está em curso no mercado interbancário, antes mesmo da decisão desta semana. A média de agosto da EURIBOR a 12 meses, que é a que se aplica às revisões de setembro, fixou-se em 2,954%, mais 0,099 pontos percentuais do que em julho. A de seis meses subiu para 2,713% e a de três meses para 2,513%. As três subiram no mesmo mês e as três estão em máximos do ciclo atual.
Traduzido em prestação, o impacto individual de cada revisão continua contido. Num empréstimo de 150 mil euros a 30 anos com um spread de 1%, a prestação indexada à EURIBOR a 12 meses passa a rondar os 711 euros, mais sete do que no mês anterior. Com o indexante a seis meses fica nos 691 euros e com o de três meses nos 674. São valores que nenhum orçamento familiar sente isoladamente.
O problema é que não chegam isoladamente. Esta é a terceira revisão consecutiva no mesmo sentido, e cada uma delas acrescenta alguns euros a um valor que já vinha de subidas anteriores. O efeito acumulado é o que conta, e é precisamente o que não aparece em nenhuma comunicação ao cliente, porque cada carta ou extrato apresenta apenas a alteração do momento.
Para quem acompanha o setor fica um dado a vigiar nos próximos dois trimestres. Se a inflação subjacente continuar ancorada nos 2,1% e a inflação total descer à medida que o efeito de base da energia se dissipar, o ciclo de subidas termina rapidamente e a EURIBOR estabiliza. Se a pressão energética se prolongar, o BCE fica na posição desconfortável de continuar a subir juros contra um preço que não controla, com a fatura a recair sobre uma base de devedores que, em Portugal, é quase inteiramente de taxa variável.
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