Trump anuncia “acordo massivo” de potássio com a Bielorrússia. Só há um problema: não há potássio
“O preço seria substancialmente inferior ao que estamos actualmente a pagar ao Canadá”, escreveu Trump na segunda-feira 21 de setembro na rede Truth Social, apresentando o eventual negócio como uma boa notícia para os agricultores e criadores de gado norte-americanos. A Reuters interpreta a iniciativa como mais um sinal da pressão de Washington sobre o Canadá, que fornece a esmagadora maioria do potássio importado pelos Estados Unidos, e da aproximação entre a Administração Trump e Minsk.
“Em 2025, o Canadá forneceu cerca de 85% das importações norte-americanas de potássio, num valor aproximado de 2,9 mil milhões de dólares (cerca de 2,5 mil milhões de euros”, segundo a LUSA.
A mesma fonte refere que desde agosto, os Estados Unidos aplicam tarifas de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros) de importações de determinados produtos canadianos, após o fracasso das negociações comerciais entre os dois países. Durante as negociações, o Canadá acusou Washington de tentar comprometer a sua soberania.
Otava respondeu com tarifas alfandegárias recíprocas sobre produtos norte-americanos e acelerou a aproximação à Europa, procurando tornar-se o primeiro membro associado da União Europeia (UE), uma iniciativa que provocou a oposição de Trump.
Quanto ao novo suposto acordo, o problema é que Lukashenko parece ter recebido a notícia de Trump sem ter sido avisado de que já não tinha potássio para vender. Segundo a Meduza, o líder bielorrusso afirmou, horas antes do anúncio norte-americano, que mesmo que a Bielorrússia recuperasse plenamente o acesso aos mercados ocidentais não teria grandes volumes disponíveis, uma vez que a produção está já comprometida com contratos existentes.
A questão é relevante porque os Estados Unidos dependem fortemente das importações de potássio. Cerca de 80% das importações norte-americanas têm origem no Canadá, enquanto a Rússia representa cerca de 12%, de acordo com os dados citados pela Meduza. A Bielorrússia é também um dos grandes produtores mundiais, mas as sanções têm limitado o acesso do país aos mercados ocidentais.
Trump está, assim, a tentar abrir uma porta para um fornecedor que Washington tinha começado a voltar a integrar no comércio internacional. Em setembro, Lukashenko já tinha anunciado a retoma das vendas de potássio aos Estados Unidos depois do levantamento de sanções norte-americanas e pediu ainda a Washington que desbloqueasse mais de 40 milhões de dólares (cerca de 34 milhões de euros) que continuam retidos no sistema bancário norte-americano, segundo a Reuters.
Mas o negócio não depende apenas de haver potássio — ou de Trump querer comprá-lo. A logística é outro problema. A Bielorrússia não tem acesso ao mar e as sanções europeias continuam a dificultar a utilização das rotas tradicionais através do Báltico. O Washington Post refere que um aumento das exportações bielorrussas para os Estados Unidos teria actualmente de passar por portos russos.
A própria Lituânia está contra uma flexibilização das sanções europeias. O ministro dos Negócios Estrangeiros lituano, Kęstutis Budrys, afirmou esta segunda-feira 21 de setembro que não é altura para a União Europeia aliviar a pressão sobre Minsk, defendendo que continuam a existir razões relacionadas com a repressão política, os direitos humanos e o apoio da Bielorrússia à Rússia na guerra contra a Ucrânia.
Há ainda uma dúvida mais prosaica: saber se os agricultores norte-americanos precisam realmente de mais potássio. Josh Linville, analista da StoneX citado pela Reuters, considera que o impacto de uma eventual entrada de potássio bielorrusso no mercado norte-americano poderá ser limitado, uma vez que os EUA não têm actualmente dificuldades em encontrar este fertilizante. Segundo o analista, as maiores necessidades estão antes nos fertilizantes à base de azoto e fosfato.
Mesmo que a Lituânia reabrisse o porto de Klaipėda ao potássio bielorrusso, acrescenta Linville, os custos de transporte pelo Báltico e depois pelo Atlântico poderiam tornar a operação pouco atractiva face ao actual valor do produto.
O eventual acordo tem, por isso, uma dimensão que vai muito além do preço do fertilizante. Para Trump, permitiria reduzir a dependência do Canadá num momento de nova guerra comercial entre os dois países. Para Minsk, representaria uma oportunidade de recuperar espaço num mercado ocidental e acelerar a aproximação a Washington. A União Europeia, pelo contrário, mantém as sanções sobre o potássio bielorrusso.
A aproximação entre Trump e Lukashenko tem vindo a avançar através de um processo de libertação de presos políticos e de alívio de sanções. Em Setembro, a Bielorrússia libertou 250 presos num acordo com Washington, o maior grupo libertado de uma só vez, segundo a Associated Press.
Por enquanto, portanto, há um anúncio de um “acordo massivo”, uma promessa de potássio mais barato e um presidente bielorrusso a dizer que não tem produto disponível para o Ocidente. O negócio pode estar a aquecer, mas o potássio parece ter ficado preso no porto — pelo menos por enquanto.
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