Álvaro Santos Pereira apela à qualidade, infraestruturas e inteligência artificial para o futuro do turismo em Portugal
Na sua intervenção na VIII Cimeira do Turismo Português, o Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, apresentou um diagnóstico detalhado sobre a evolução das últimas décadas do setor no país, alertando para os novos desafios geopolíticos, climáticos e tecnológicos que marcarão o futuro da atividade económica.
Álvaro Santos Pereira começou por sublinhar o papel central do turismo no crescimento e na estabilização económica de Portugal. Lembrando a evolução histórica desde 1955, o Governador destacou que “as exportações de turismo têm vindo a aumentar de forma gradual ao longo de décadas”, tornando-se o setor mais resiliente e dinâmico da economia nacional. Este desempenho permitiu transformar o défice externo do país em excedentes sustentados na balança corrente e de capital.
Apesar do impacto extraordinário da pandemia, os indicadores recuperaram rapidamente, atingindo em 2025 um novo máximo histórico de 718 dormidas por 100 habitantes. O Governador destacou ainda melhorias na sazonalidade — com o peso dos meses de verão a cair dos mais de 60% históricos para cerca de 44% — e a consolidação de novos mercados emissores de fora da Europa, como os Estados Unidos e o Canadá. Registou-se também uma maior dispersão territorial, com o reforço da quota de dormidas nas regiões do Norte, Açores e Centro.
No entanto, Álvaro Santos Pereira fez notar que a fase de forte expansão de quotas de mercado registada entre 2015 e 2017 começou a abrandar nos anos recentes devido à concorrência internacional crescente.
Em termos de inflação e custos, o Governador alertou para o facto de o aumento dos preços no alojamento e restauração na Europa do Sul ter sido mais acelerado em Portugal do que nos seus concorrentes diretos (Espanha, França, Itália e Grécia). Esta evolução tem reduzido a margem de competitividade na relação qualidade-preço.
Infraestruturas “deficientes” e o alerta da habitação
Uma das críticas mais vincadas da intervenção incidiu sobre o estado das infraestruturas nacionais, que o responsável do banco central considerou ser um grande constrangimento para o desenvolvimento sustentável do setor.
Referindo-se à ferrovia e à ligação ao Algarve, Álvaro Santos Pereira disse que “continuamos a ter infraestruturas, quer a nível de via, quer a nível de comboio, que quanto a mim são verdadeiramente deficientes”. Criticou a falta de velocidade e de conforto nas ligações à principal região turística do país.
De igual modo, abordou os atrasos na construção do novo aeroporto de Lisboa, defendendo que “não é minimamente aceitável que estejamos décadas à espera de um aeroporto essencial” e disse que que os prazos de execução têm de ser encurtados sem desculpas burocráticas.
O Governador colocou também no centro do debate a crise de habitação nas grandes áreas urbanas e no Algarve. Alertou que não é possível manter a competitividade nem reter talentos com os atuais custos imobiliários insustentáveis para os trabalhadores, defendendo um investimento forte em habitação social e pública nessas regiões.
Santos Pereira aconselhou o setor a apostar “na qualidade, na diversidade e na exigência”, mas recordou que para alcançar esses objetivos é preciso “aumentar a produtividade” e gerar “maior valor acrescentado”.
Para que o setor consiga atrair e reter os melhores profissionais, sejam portugueses ou imigrantes, o governador recomendou o investimento na construção de habitação social e pública, pois “os custos de habitação são absolutamente insustentáveis para muitas das pessoas que trabalham no setor”.
“Só vamos atrair mais mão-de-obra se aliada a uma política de turismo tivermos uma política que aumenta a oferta habitacional e aumenta a oferta da habitação pública”, disse ainda.
A revolução da Inteligência Artificial e a economia da longevidade
Olhando para o futuro, o Governador apontou a Inteligência Artificial (IA) não como uma ameaça, mas como uma enorme oportunidade para alavancar a produtividade e a gestão do setor. Sublinhando que o ritmo de adoção da IA é muito superior ao do computador ou da internet, exortou as empresas portuguesas a prepararem-se para responder às novas formas como os turistas pesquisam e planeiam as viagens.
Destacou ainda dois vetores estratégicos de oportunidade. Por um lado, o Turismo da Longevidade. Ou seja, aproveitar a transição demográfica e a maior esperança de vida global para atrair seniores e reformados durante todo o ano, reduzindo ainda mais a sazonalidade.
Por outro, a diversificação da Oferta e Regiões de Nicho, que consiste em apostar no turismo de natureza, de património e de saúde/bem-estar, canalizando investimento para infraestruturas e alojamento em regiões com elevado potencial por explorar, como o interior norte (ex.: Trás-os-Montes/Bragança) e as ilhas (ex.: Ilha das Flores, nos Açores).
O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, considerou hoje que Portugal dificilmente aumentará o número de turistas em regiões como Lisboa ou Algarve, mas que “há muita margem” para se apostar noutras regiões “e noutro tipo de turismo”.
Para concluir, Álvaro Santos Pereira reforçou que o futuro do turismo português não passará pelo aumento desmedido do volume de visitantes em Lisboa ou no Algarve, mas sim pelo crescimento sustentável assente no aumento do valor acrescentado.
“Não é a quantidade que vai interessar no futuro, é aumentarmos o valor acrescentado. É exatamente apostarmos na qualidade, na diversidade e no reconhecimento internacional”, rematou, desafiando o setor a investir na formação contínua, na qualificação da oferta e na inovação tecnológica.
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