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Portugal quer transformar estatuto de “porto seguro” em vantagem estrutural para o turismo. Governo diz que “Portugal não tem turismo a mais”

Portugal quer transformar estatuto de “porto seguro” em vantagem estrutural para o turismo. Governo diz que “Portugal não tem turismo a mais”

Portugal está a beneficiar da nova conjuntura internacional para reforçar a sua posição no mapa global do turismo, mas o desafio dos próximos anos será converter essa vantagem conjuntural em crescimento sustentável e gerador de maior valor. A ideia foi partilhada num debate que decorreu na VII Cimeira do Turismo Português, intitulado “O Turismo em Portugal no Âmbito da Nova Conjuntura Internacional” – em que participaram Pedro Machado, Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços; António Brochado Correia, presidente da PwC Portugal e Miguel Maya, CEO do Millennium BCP.
Na sua intervenção, e sobre a capacidade de crescimento do turismo, Pedro Machado foi perentório: “Portugal não tem turismo a mais”. O secretário de Estado reconheceu a existência de alguns microfocos de concentração, mas insistiu que o país tem espaço para crescer, sobretudo em regiões com taxas de ocupação média anual em torno dos 50%, como o Norte, o Centro, o Alentejo e os Açores.
Num contexto marcado pela instabilidade geopolítica, pelas alterações climáticas e pela transformação tecnológica, Pedro Machado destacou a evolução de Portugal nos principais indicadores internacionais de competitividade turística. Usando uma metáfora alusiva ao futebol, o governante disse que “saímos do banco e entrámos no 11 inicial. Estamos a disputar os 11 melhores destinos do mundo”, afirmou, referindo-se à subida do país para o 11.º lugar de um dos mais relevantes índices internacionais do setor.

Segundo o Secretário de Estado, Portugal apresenta hoje um conjunto de vantagens competitivas que explicam este desempenho, desde a mobilidade e conectividade aérea ao ecossistema empresarial, passando pelos recursos naturais, património cultural e oferta gastronómica. “Tudo isto faz parte de um cartão de visita substantivo que nos permite competir com destinos como França, Itália, Canadá ou Estados Unidos”, sublinhou.
Para Pedro Machado, a atual instabilidade global acabou por reforçar a imagem de Portugal como um destino seguro para viajar e investir. “Somos cada vez mais vistos como um porto seguro”, afirmou, defendendo que o país deve aproveitar este momento para consolidar uma vantagem duradoura. Entre as prioridades identificadas estão a diversificação da oferta turística, atualmente assente em 22 produtos distintos, a valorização de destinos menos maduros, como Norte, Centro, Alentejo e Açores, e a aposta em áreas como a sustentabilidade, a inteligência artificial e a simplificação administrativa.
A necessidade de melhorar a organização do setor foi também destacada por António Brochado Correia. Para o presidente da PwC Portugal, o principal desafio já não reside na capacidade de atrair visitantes. “A questão não está tanto na procura, mas provavelmente na fragmentação da oferta”, afirmou.
Na sua perspetiva, o turismo português precisa de maior coordenação entre os diferentes agentes para aumentar a criação de valor. “O importante é que o turismo não cresça só, mas cresça melhor”, defendeu, acrescentando que a preparação para a incerteza será determinante. Sustentabilidade, cibersegurança e retenção de talento surgem como áreas críticas para o futuro do setor, numa altura em que se verifica uma diminuição do número de estudantes a procurar formação ligada ao turismo.
O responsável da PwC destacou ainda o forte interesse internacional em Portugal como destino de investimento, num contexto em que a geopolítica assume um peso crescente nas decisões económicas. “As intenções de investimento para 2026 são significativas. Nós estamos a seguir ao Reino Unido em termos de iniciativas de investimento e intenções de investimento para 2026, com cerca de 20%. França e Espanha estão nos 15% ou 16%”, afirmou.
António Brochado Correia sublinhou que a atratividade do país não se limita ao turismo. “Para o país que somos, não é só agora, já é assim há vários anos. Há imenso interesse a investir em Portugal, não é só no turismo, mas numa série de outras áreas que hoje chamamos de data centers e por aí adiante”, disse. Na sua opinião, Portugal está particularmente bem colocado para beneficiar do atual contexto internacional. “Portugal é um país que pode aproveitar bem esta boa geopolítica que temos”, disse.
Por outro lado, o responsável pela auditora alertou que Portugal está bem posicionado nos rankings internacionais, mas no pilar da sustentabilidade estamos em 11º a contar do fim. É o nosso ponto mais fraco.
“O Senhor Secretário de Estado falou do ranking onde nós estamos bem posicionados, e o 11º lugar, dos piores níveis dos pilares que nós temos, é a sustentabilidade. Portanto, a sustentabilidade vista no país é algo que precisa de melhorar. Ou seja, o turista quando chega não gosta de ver lixo na rua, não gosta de ver o mau aproveitamento das águas, daquilo que são os campos de golfe, e isto, quando nós olhamos para os rankings internacionais é extremamente importante. Ou seja, hoje há riscos na economia e nas empresas, que as empresas que estão no setor [do turismo] e noutros, têm muita dificuldade em resolver sozinhas”.
“A questão da sustentabilidade é muito difícil de resolver se não tiver um contributo de várias partes interessadas: do Governo, das associações, dos empresários e, seguramente, até do consumidor e da forma como cada pessoa atua. E isto é também uma questão de educação e de cidadania cultural que o país vai ter de melhorar”, disse acrescentando que “a questão da tecnologia, da inteligência artificial, é determinante. Nos últimos inquéritos que fizemos aos principais CEOs do mundo, a maior ameaça é a cibersegurança. Ora, a segurança é uma ameaça real que nos entra porta dentro, sem bater à porta”, afirmou.
O presidente da PwC Portugal alertou ainda para a crescente influência dos fatores geopolíticos na economia global. “Há muito tempo que não via a geopolítica a fazer tanto parte daquilo que é a economia e a vida dos cidadãos”, afirmou. “Há uma tendência da geopolítica com impacto direto naquilo que é a economia, naquilo que é a sociedade e naquilo que são as intenções de investimento.”
Já Miguel Maya destacou o peso estrutural do turismo na economia nacional, tanto pela sua contribuição para o emprego como pelo impacto na balança comercial. O responsável recordou que o setor emprega cerca de 480 mil pessoas e tem vindo a reforçar a sua relevância económica.
“Ao longo de mais de uma década o turismo tem feito, de forma consistente, um trabalho que nos permitiu hoje olhar para Portugal como um país moderno, um país inovador. É óbvio que o turismo nacional tem um peso muito grande. Há cada vez mais portugueses que, na hora de escolher, percebem que vale a pena investir em Portugal e fazer férias em Portugal e conhecer Portugal, mas as coisas têm que estar muito equilibradas. Um dos grandes méritos do turismo tem exatamente a ver com o equilíbrio da balança comercial”, disse.
“O grande desafio é passar de número para criação de valor”, afirmou o CEO do BCP. Para Miguel Maya, os sinais são positivos, uma vez que as receitas estão a crescer a um ritmo superior ao das dormidas, refletindo uma procura mais qualificada e disposta a pagar por experiências diferenciadas.
O banqueiro defendeu também uma maior aposta no turismo interno e na dispersão geográfica dos visitantes, de forma a distribuir os benefícios da atividade por todo o território. Ao mesmo tempo, alertou para a importância de preservar a competitividade dos preços num mercado em que os consumidores dispõem de cada vez mais informação e opções de escolha.
Sobre o contexto internacional, Miguel Maya considerou que Portugal está a beneficiar da perceção de estabilidade e segurança num cenário global cada vez mais incerto. “Estamos a beneficiar deste carimbo de porto seguro”, afirmou, acrescentando que o país continua a captar atenções de investidores e visitantes internacionais.
Sobre a ameaça que paira da geopolítica sobre futuras crises, Miguel Maya disse que “ninguém pode desvalorizar sinais de crise e eu tenho a certeza de que haverá sempre crises. Portanto, o que nós temos que fazer é estar melhor preparados para quando nos confrontarmos com as crises. As pessoas que pensam que o futuro, a partir de agora, é sempre um futuro de investimento, não aprenderam com a história”.
Apesar dos desafios, os três intervenientes convergiram numa mesma conclusão: o sucesso do turismo português na próxima década não será avaliado apenas pelo número de visitantes. A capacidade de gerar maior valor económico, garantir sustentabilidade, atrair e reter talento e coordenar um ecossistema cada vez mais complexo será determinante para manter a competitividade do país.

Portugal teve 24 mil milhões de euros de receitas turísticas e projeta-se que a estratégia do Turismo atinja quase todo o globo em 2035.

Com receitas turísticas já acima dos 24 mil milhões de euros e perspetivas de crescimento para os próximos anos, o setor entra numa nova fase, em que o objetivo passa menos por atrair mais turistas e mais por assegurar que o crescimento seja inteligente, equilibrado e resiliente.
Um objetivo que, segundo os oradores, dependerá tanto da capacidade de inovação e coordenação do setor como da forma como Portugal souber capitalizar a vantagem competitiva que a atual conjuntura internacional lhe oferece.

 

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