Rali do Algarve na última década: das decisões em asfalto ao grande rali de terra
O Rallye Casinos do Algarve tornou-se, na última década, muito mais do que o encerramento da temporada do Campeonato de Portugal de Ralis (CPR): foi com frequência, o palco onde o título absoluto se decidiu. Nos primeiros anos desta análise, predominantemente em asfalto, com a serra de Monchique como palco central e o calor do Algarve a testar mecânicas e pilotos até ao último quilómetro. Mas o rali mudou de contexto – de 2022 para 2023 – com a passagem para pisos de terra, com muitos troços que se tornaram preferidos dos pilotos do WRC.
Ao longo destes anos, apesar das diferentes estruturas, existiram factos fortemente marcantes na prova algarvia, tal como a luta pelo título até ao último metro de 2017, ao quinto título absoluto de Armindo Araújo no ano do regresso, depois de cinco anos ausente, do primeiro título de Ricardo Teodósio, e logo em ‘casa’ com uma espantosa festa em Portimão, que quase “veio abaixo” e depois o regresso aos fantásticos pisos de terra da zona, muito deles usados na prova Mundial que por ali andou entre 2007 e 2014.
2016: Fontes fecha a temporada sem hipótese aos rivaisJosé Pedro Fontes e Inês Ponte (Citroën DS3 R5) dominaram o rali sem qualquer contestação, chegando a construir 29.3 segundos de avanço já ao fim de dois troços. A verdadeira luta ficou reservada para o segundo lugar, entre João Barros e Pedro Meireles, resolvida apenas quando um rolamento gripou numa roda do Skoda Fabia R5 de Meireles, forçando o abandono. A prova ficou também marcada pelo aparatoso acidente de Elias Barros na PE2, com feridos, e pelo regresso da corrida a piso de asfalto, gerido com competência pelo Clube Automóvel do Algarve.
2017: Vieira decide o título por ‘meio ponto’Carlos Vieira e Jorge Carvalho (Citroën DS3 R5) protagonizaram o desfecho mais equilibrado da história do CNR, garantindo o título por apenas 0.3 pontos sobre Pedro Meireles. Chegando ao Algarve com 8.34 pontos de desvantagem, Vieira teve de vencer classificativas suficientes para anular a margem — e fê-lo quase sem erros, exceto um pião que custou 20 segundos e a liderança momentânea para Carlos Martins, que acabaria por abandonar. Meireles, sem o ritmo necessário no asfalto algarvio, admitiu mais tarde que perdera o campeonato ainda em Mortágua, na terra.
2018: Armindo Araújo trava Ricardo Teodósio no fio da navalhaArmindo Araújo e Luís Ramalho (Hyundai i20 R5) chegaram ao Algarve a disputar o título a três, com Teodósio a construir 31.8 segundos de avanço antes de o motor do seu Skoda Fabia R5 se partir. Armindo, que começara mal com um pião a custar 24.1 segundos, recuperou terreno no segundo dia e assumiu a liderança quando José Pedro Fontes furou e perdeu 1m09.9s. O triunfo valeu-lhe o quinto título absoluto da carreira, o primeiro desde o seu regresso aos ralis.
2019: Teodósio conquista o título entre pingos de chuvaCom quatro candidatos ao título — Teodósio, Bruno Magalhães, Armindo Araújo e Fontes — a chuva irregular entre Monchique e Marmelete tornou a escolha de pneus decisiva. O momento-chave surgiu quando Fontes fez “uma péssima especial” e saiu de estrada pouco depois, deixando Teodósio apenas com a missão de gerir o carro até ao fim. Bruno Magalhães venceu a prova na estrada, mas foi Ricardo Teodósio quem festejou o primeiro título absoluto da carreira. A festa em Portimão, foi ‘qualquer’ coisa. Uma dupla da ‘casa’ a chancelar o seu primeiro título na sua terra, foi mesmo de arrepiar.
2023: acidentes graves e polémica dos tempos nominaisA edição de 2023 ficou marcada tanto pelo resultado desportivo como pela polémica na organização, depois de dois acidentes graves na PE2 — envolvendo Craig Breen/James Fulton e Bernardo Sousa/Inês Veiga — obrigarem à entrada de ambulâncias e à atribuição de tempos nominais. Miguel Correia, que liderava com 5.5 segundos de avanço sobre Teodósio, viu essa vantagem transformar-se numa desvantagem de 11.4 segundos, uma decisão que contestou publicamente por falta de “verdade desportiva”. Ricardo Teodósio e José Teixeira acabaram por vencer, batendo Correia por 16.4 segundos, com Pedro Meireles a completar o pódio.
2024: Kris Meeke impõe um ritmo intocávelKris Meeke e James Fulton (Hyundai i20 N Rally2) lideraram todas as nove classificativas, vencendo-as na totalidade e terminando com 55.6 segundos de avanço sobre Armindo Araújo. A verdadeira batalha decorreu atrás do irlandês, entre Armindo e Teodósio, que trocaram a margem entre si até ao penúltimo troço — Armindo, que optara por pneus “errados” no primeiro dia à espera de vantagem no segundo, fechou o rali com apenas 2.4 segundos de vantagem sobre o algarvio. Ricardo Teodósio sofreu ainda um arranque falhado e um problema no diferencial que lhe custaram a hipótese de dar a volta ao resultado.
2025: Meeke repete, mas Henriques ‘rouba’ pódio a ArmindoKris Meeke voltou a vencer, agora ao volante do Toyota GR Yaris Rally2, gerindo com cautela uma vantagem que chegou aos 40 segundos, enquanto Dani Sordo vencia todas as classificativas de sábado, incluindo a Power Stage, reduzindo a diferença final para 13.3 segundos. O verdadeiro destaque português foi Gonçalo Henriques, que na estreia oficial pela Team Hyundai Portugal subiu ao pódio, superando Armindo Araújo por apenas 0.9 segundos. Ricardo Teodósio, a jogar em casa, fechou o top 5 depois de “uma manhã repleta de peripécias”, enquanto José Pedro Fontes voltou a ser traído pela sorte, perdendo 19 segundos já na segunda especial.
O que uma década revela sobre o CPREstes últimos 10 anos de Rali do Algarve mostram um campeonato historicamente decidido nos últimos metros, com pelo menos quatro títulos resolvidos apenas nesta última prova da temporada. A fase 2020 (prova cancelada devido ao covid 19, e depois a ‘queda’ do calendário do CPR, em 2021 e 2022 marca uma quebra estrutural no formato do CPR, mas o regresso deu-se em 2023, com os pisos de terra, o que se mantém, quatro anos depois.Kris Meeke venceu nos últimos dois anos, mas em 2026 a prova prepara-se para, ou decidir, ou definir bastante mais o destino do CPR. O se reequilibra, ou resolve-se de vez.
História muito ricaPoucas provas do calendário nacional carregam um historial tão rico quanto o Rali do Algarve. Desde a modesta Volta ao Algarve de 1970, organizada por um grupo de entusiastas do Racal Clube de Silves, até à estreia mundial do Audi Quattro em 1980 ou ao batismo do Lancia Delta S4 em 1985, a prova algarvia esteve sempre onde a história dos ralis se estava a escrever, mesmo à escala internacional. Passou pelo Europeu de Ralis, recebeu ex-pilotos de Fórmula 1 como Stéphane Sarrazin, decidiu títulos continentais e nacionais em anos memoráveis, e resistiu a crises petrolíferas, sabotagens, mudanças de piso e reformulações de calendário que a fizeram sair e regressar ao Campeonato de Portugal de Ralis mais do que uma vez.
É essa resiliência que torna o presente tão significativo. Depois da pausa forçada pela pandemia em 2020 e dos anos de travessia do deserto em 2021 e 2022, relegada a competições regionais e à Taça de Portugal de Ralis, o regresso pleno ao CPR em 2023, com o regresso aos pisos de terra que a tornaram célebre, simboliza mais um capítulo de uma prova que nunca soube ficar de fora por muito tempo. Os últimos anos, com Kris Meeke, Dani Sordo e a força crescente de Armindo Araújo e Ricardo Teodósio, mostram uma prova a recuperar gradualmente o estatuto que teve quando recebia o Audi Quattro ou decidia campeonatos europeus em pleno Algarve.
Fica, sobretudo, a certeza de que o Rali do Algarve nunca foi apenas mais uma etapa do calendário. Foi, e continua a procurar ser, o palco onde se escrevem as páginas mais dramáticas do automobilismo português — e é essa herança de 50 anos que qualquer nova edição carrega consigo, mesmo quando o desafio é reconquistar o “elan” de outros tempos.
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