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Apoio do Governo insuficiente para agricultores transmontanos aguentarem preço do gasóleo

Apoio do Governo insuficiente para agricultores transmontanos aguentarem preço do gasóleo

O desconto de 10 cêntimos no gasóleo agrícola, anunciado pelo Governo para fazer face ao aumento dos combustíveis, não está a ser suficiente para colmatar as dificuldades dos agricultores transmontanos e há produções que podem ficar comprometidas.
Vários empresários agrícolas do distrito de Bragança afirmaram que “todos os cêntimos” ou “ajudas” são “bem-vindos”, mas este apoio do Governo é “muito pouco face à despesa” que têm no dia a dia.
“A agricultura com o gasóleo a este preço é completamente insustentável. Avizinha-se já a campanha da azeitona, os preços da azeitona ou do azeite estão baixíssimos e, neste momento, quase fazemos a comparação do litro de gasóleo ao litro do azeite”, disse à Lusa Pedro Morgado.
O agricultor de Vilarelhos, no concelho de Alfândega da Fé, dedica-se à produção de azeitona, de amêndoa, mas também de fruta. Por mês, gasta entre os “1.500 e os 2.000 litros” de gasóleo colorido ou vulgarmente conhecido como gasóleo verde.
Segundo Pedro Morgado, a fatura do gasóleo “pesa muito” para quem vive da agricultura e nem sempre a produção ou o preço de venda do produto é suficiente para fazer face ao aumento dos combustíveis.
“Na campanha da amêndoa, a trabalhar com dois tratores, que gastavam 200 litros de gasóleo por dia, eram 370 euros por dia. Se o dia corre menos bem, a amêndoa que colho não dá para pagar o gasóleo, muito menos o resto do investimento de tudo quanto vai acontecendo”, apontou.
O empresário tem também um posto de combustível no Vale da Vilariça que abastece os pequenos agricultores daquela zona do distrito de Bragança.
Não se lembra de ter visto o gasóleo agrícola a um preço tão elevado, ultrapassando o 1,7 euros por litro, quando no início do ano pouco passava de um euro por litro.
Desta forma, assegura, é “impossível” aguentar, uma vez que a agricultura nos dias de hoje “é mecanizada”.
“Esses pequeninos agricultores neste momento estão completamente a desistir”, alertou, sublinhando que se não houver uma “alteração muito drástica”, nos próximos tempos, vai assistir-se “ao abandono da micro agricultura”.
Segundo Pedro Morgado, nos dias que correm, os agricultores estão a comprar apenas o combustível “indispensável” para manter os terrenos e os subsídios.
“A diferença daquilo que estamos a pagar a mais nos combustíveis, no meu caso, chegar ao fim do ano, sete ou oito mil euros a mais, é aquilo que, se calhar, eu preciso de investir em adubação, em químicos. E, durante o próximo ano, começo a pensar que se isto não se alterar é impossível. Aliás, já o fiz este ano, a fazer a encomenda do adubo. Em vez de comprar um camião, comprei metade de um camião, comprei 12 toneladas”, contou.
Esta redução pode trazer consequências para a produção nos próximos anos, porque este ano não está “a fazer o investimento que devia fazer em adubação, em fertilizantes”.
Na opinião de Pedro Morgado, o Governo podia “mitigar o problema de forma diferente”, porque “toda a gente sabe que 60% do preço final do combustível são impostos”.
Para outro agricultor, Cristophe Monteiro, a situação também está difícil, visto que a ajuda do Governo “não é suficiente para colmatar as dificuldades” que tem tido com os preços dos combustíveis, apontando o dedo ao Ministério da Agricultura, que “abandona completamente os agricultores nesta altura”, porque as linhas de apoio são apenas para “quem tem posses” e não para os pequenos agricultores.
“Com certeza que se isto continuar assim a gente tem que pensar, desistir não digo mas vamos se calhar repensar o negócio, tentar transformar-nos de outra forma”, afirmou.
As primeiras mudanças já estão a ser feitas nos tratamentos, podendo comprometer a produção.
“Até agora a gente tem tentado alternar os tratamentos por forma também a ter menos custos. Claro que sabemos que isso vai influenciar na produtividade, é como tudo, mas temos que nos agilizar e adaptar às circunstâncias que temos, porque de facto não é fácil”, referiu.
O empresário do concelho de Vila Flor, além de produzir, também transforma e faz distribuição de amêndoa, o que faz disparar os gastos com o gasóleo rodoviário.
“A distribuição também acarreta outro gasto com o custo muito mais elevado do combustível”, sustentou.
Face a redução das margens de lucro, ser agricultor nos dias de hoje é “um desafio”, segundo a agricultora Cátia Afonso, produtora de azeite e de pistáchio no Vale da Vilariça.
“Nós normalmente temos um consumo entre os 12 e os 15 mil litros, sendo que, uma vez que temos um depósito, compramos grandes quantidades. Conseguimos poupar em alguns aumentos, porque ainda tínhamos ‘stock’, mas temos aqui notado um aumento de cerca de 58% do preço desde o início do ano até agora”, adiantou.
Segundo a agricultora, ter culturas em Trás-os-Montes faz também aumentar os custos de produção.
“Estamos ainda por cima aqui no Interior, em que grande parte das matérias-primas que necessitamos vem toda de fora, não temos indústria local, sentimos grandes desafios ao longo do ano”, disse.
Este mês, o Governo aprovou, em Conselho de Ministros, o prolongamento, até ao final do ano, do apoio agrícola em 10 cêntimos.-

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