Insolvências estabilizam em Portugal, mas 51% das empresas insolventes tinham mais de 10 anos
As insolvências empresariais em Portugal praticamente estabilizaram nos primeiros oito meses de 2026. Entre janeiro e agosto foram registados 1.451 processos, menos três do que os 1.454 contabilizados no mesmo período de 2025, o que corresponde a uma descida de 0,2%, segundo os dados da Allianz Trade.
A estabilidade do número global esconde, contudo, diferenças significativas consoante o mês, o setor de atividade, a região ou a dimensão das empresas.
A evolução mensal foi marcada por oscilações. Em janeiro foram registadas 212 insolvências, mais 2,9% do que um ano antes. Em fevereiro, o número caiu 16,3%, para 159 processos, enquanto março e abril registaram aumentos de 22,2% e 21%, respetivamente, para 198 e 196 processos.
Em maio foram contabilizadas 190 insolvências, menos 9,5%, enquanto junho registou 179 processos, mais 17,8%. Em julho foram registadas 194 insolvências, menos 4%, e agosto foi marcado pela maior redução mensal: 123 processos, contra 170 em agosto de 2025, uma descida de 27,6%.
Microempresas representam 67,3% dos processos
As microempresas continuam a representar a maioria das insolvências. Até agosto foram registados 976 processos, mais 2,5% do que no período homólogo e correspondentes a 67,3% do total.
As pequenas empresas registaram 261 insolvências, menos 8,4%, enquanto as médias empresas passaram para 67 processos, mais 8,1%.
Nas grandes empresas foi registado um processo a menos, enquanto em 147 casos não foi identificada a dimensão da empresa.
51,2% das empresas insolventes tinham mais de dez anos
A antiguidade das empresas mostra que as insolvências não estão concentradas apenas em negócios recentes.
As empresas com mais de dez anos de atividade registaram 743 processos, correspondentes a 51,2% do total, apesar de uma redução de 2,1% face ao período homólogo.
As empresas com cinco a dez anos registaram 399 insolvências, menos 3,9%.
Em sentido contrário, as empresas com dois a cinco anos de atividade passaram de 235 para 263 processos, um aumento de 11,9%. O peso deste grupo no total passou de cerca de 16,2% para 18,1%.
As empresas com até dois anos passaram de 45 para 46 insolvências, um aumento de 2,2%.
Os dados mostram, assim, que mais de metade dos processos envolve empresas com mais de uma década de atividade, mas as insolvências entre empresas com dois a cinco anos cresceram a um ritmo superior ao total.
Cinco empresas somam 137,8 milhões de euros em vendas
Entre as empresas insolventes identificadas pela Allianz Trade encontram-se cinco casos com um volume de negócios conjunto de 137,8 milhões de euros. A lista inclui a Sicasal – Indústria e Comércio de Carnes, com vendas de 42,4 milhões de euros, a Porto World, com 39,7 milhões, o Laboratório de Prótese Dentária Júlio Fernandes Cartuxo, com 20 milhões, a Celeste Actual, com 19,2 milhões, e a Ronzino, Von Oswald, com 16,5 milhões de euros. Os cinco casos correspondem a empresas classificadas como médias empresas.
Serviços e construção concentram 45,3% das insolvências
A evolução por setor revela diferenças significativas. Os serviços registaram 374 insolvências até agosto, mais 10,3% do que no período homólogo, representando 25,8% do total.
A construção contabilizou 283 processos, mais 10,5%, correspondendo a 19,5% do total.
Em conjunto, os dois setores concentraram 657 insolvências, ou 45,3% de todos os processos registados até agosto.
No sentido contrário, o retalho registou uma descida de 12,6%, para 166 insolvências, enquanto o agroalimentar recuou 9,8%, para 101 processos. Os têxteis diminuíram 7,6%, para 157 insolvências, e os transportes registaram uma redução de 5,4%.
Insolvências por setor
Setor
2025
2026
Variação
Serviços
339
374
+10,3%
Construção
256
283
+10,5%
Retalho
190
166
-12,6%
Têxteis
170
157
-7,6%
Agroalimentar
112
101
-9,8%
Transportes
93
88
-5,4%
Equipamentos para o lar
48
47
-2,1%
Automóvel
38
45
+18,4%
Não identificado
45
43
-4,4%
Maquinaria e equipamentos
34
28
-17,6%
Metais
33
25
-24,2%
Serviços de TI
19
22
+15,8%
Commodities
18
21
+16,7%
Químicos
14
14
0%
Papel
21
10
-52,4%
Farmacêutico
2
10
+400%
Eletrónica
7
6
-14,3%
Componentes e telecomunicações
7
4
-42,9%
Energia
3
3
0%
Equipamentos de transporte
3
3
0%
Fornecedores automóveis
2
1
-50%
Total
1.454
1.451
-0,2%
Fonte: Allianz
Porto recua, Lisboa sobe 16,2%
Porto e Lisboa continuam a concentrar a maior parte das insolvências, mas apresentam evoluções distintas.
O Porto registou 340 insolvências, menos 16,5% do que no período homólogo, enquanto Lisboa chegou aos 322 processos, mais 16,2%.
Em conjunto, os dois distritos concentraram 662 insolvências, cerca de 46% do total.
Braga registou 196 processos, menos 2,5%, enquanto Aveiro chegou aos 110, mais 3,8%. Setúbal registou 89 insolvências, mais 14,1%, e Faro 63, mais 14,5%.
Leiria passou para 56 processos, mais 1,8%. Santarém registou 36, menos 20%, e Coimbra 35, menos 18,6%.
A Madeira passou de 17 para 35 insolvências, mais 105,9%. Beja aumentou de sete para 13 processos, mais 85,7%, enquanto Vila Real passou de sete para 12, mais 71,4%.
Os Açores registaram 14 insolvências, mais 40%, Bragança 15, mais 15,4%, e Viseu 32, mais 10,3%.
Em sentido contrário, Castelo Branco registou 22 processos, menos 29%, Viana do Castelo 26, menos 25,7%, e Portalegre 12, menos 14,3%. Évora passou para 14 processos, menos 6,7%, enquanto a Guarda manteve os nove processos registados no ano anterior.
Insolvências por distrito
Distrito
2025
2026
Variação
Porto
407
340
-16,5%
Lisboa
277
322
+16,2%
Braga
201
196
-2,5%
Aveiro
106
110
+3,8%
Setúbal
78
89
+14,1%
Faro
55
63
+14,5%
Leiria
55
56
+1,8%
Santarém
45
36
-20,0%
Coimbra
43
35
-18,6%
Madeira
17
35
+105,9%
Viseu
29
32
+10,3%
Viana do Castelo
35
26
-25,7%
Castelo Branco
31
22
-29,0%
Bragança
13
15
+15,4%
Açores
10
14
+40,0%
Évora
15
14
-6,7%
Beja
7
13
+85,7%
Portalegre
14
12
-14,3%
Vila Real
7
12
+71,4%
Guarda
9
9
0%
Total
1.454
1.451
-0,2%
Fonte: Allianz
Estabilidade no total esconde diferenças significativas
Os 1.451 processos de insolvência registados até agosto representam uma redução de apenas 0,2% face ao mesmo período de 2025. O número global está, por isso, praticamente estabilizado, mas a distribuição dos processos revela comportamentos bastante diferentes.
Serviços e construção registam aumentos superiores a 10% e, em conjunto, representam 45,3% das insolvências. Lisboa cresce 16,2%, enquanto o Porto recua 16,5%. As microempresas concentram 67,3% dos processos e as empresas com mais de dez anos representam 51,2% do total.
Ao mesmo tempo, setores como o retalho, os têxteis, o agroalimentar e os transportes apresentam menos insolvências do que há um ano.
A fotografia das insolvências empresariais em Portugal permanece, assim, praticamente estável no agregado, mas com diferenças relevantes entre setores, regiões, dimensões e antiguidade das empresas.
Estabilidade não significa ausência de pressão
Os dados até agosto desenham, por isso, um quadro menos linear do que a descida de 0,2% poderia sugerir. O número global de insolvências mantém-se praticamente inalterado, mas os movimentos dentro desse total são significativos.
Serviços e construção registam aumentos de dois dígitos e, em conjunto, representam quase metade dos processos. Lisboa cresce enquanto o Porto recua. As microempresas reforçam o seu peso no total e as empresas com dois a cinco anos de atividade registam um aumento de quase 12%.
Ao mesmo tempo, setores como retalho, têxteis, agroalimentar e transportes apresentam menos insolvências do que há um ano.
A evolução dos próximos meses será, por isso, determinante para perceber se a estabilidade observada até agosto se mantém ou se o comportamento de alguns dos principais setores e regiões começa a alterar de forma mais significativa o retrato global do tecido empresarial português.
Os dados da Allianz Trade mostram, para já, que a fotografia nacional permanece praticamente inalterada, mas que, quando se aproxima a lente, o cenário é bastante mais desigual.
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