ZERO quer avaliar se Portugal pode abandonar gás fóssil na produção de energia elétrica até 2035
A ZERO quer que Portugal avalie se é tecnicamente e economicamente possível antecipar para 2035 o fim da utilização de gás natural de origem fóssil na produção de eletricidade. A proposta surge no âmbito da consulta pública da futura Estratégia Nacional de Armazenamento de Energia, que termina esta quarta-feira, 30 de setembro.
A associação considera que o documento apresenta uma análise técnica detalhada das necessidades futuras do sistema elétrico, mas critica o facto de os cenários manterem cerca de 2.880 MW de centrais a gás disponíveis em 2040, sem testar com o mesmo nível de detalhe se essa capacidade poderia ser substituída por armazenamento, novas fontes renováveis, gestão da procura e interligações.
Em algumas das simulações analisadas, o gás continua a representar cerca de 5% da eletricidade consumida em 2040.
Para a ZERO, o armazenamento não deve ser encarado apenas como um complemento às energias renováveis, mas também como uma ferramenta para acelerar a saída dos combustíveis fósseis da produção elétrica. A associação propõe, por isso, que a Estratégia compare dois cenários: a manutenção das atuais centrais a gás até 2040 e um cenário de abandono do gás fóssil na produção de eletricidade até 2035.
A comparação deverá, segundo a ZERO, avaliar a capacidade adicional de armazenamento necessária, os custos de investimento e de operação, o impacto na fatura dos consumidores e a capacidade de garantir o abastecimento durante todas as horas do ano.
8,2 GW de bombagem e baterias em 2040
O Plano de Ação associado à Estratégia prevê que Portugal tenha, em 2030, cerca de 3,9 GW de bombagem hidroelétrica e 3 GW de baterias. Para 2040, os valores sobem para 5,26 GW de bombagem e 4,5 GW de baterias.
A ZERO considera, contudo, que estes números não são suficientes para perceber a verdadeira capacidade do armazenamento para substituir as centrais a gás. Isto porque as metas são apresentadas em termos de potência, ou seja, em gigawatts (GW), mas não indicam quanta energia pode efetivamente ser armazenada nem durante quanto tempo pode ser disponibilizada ao sistema.
A associação defende, por isso, que a Estratégia estabeleça também metas em gigawatts-hora (GWh) e avalie diferentes combinações de armazenamento de curta, média e longa duração.
As baterias poderão responder rapidamente às oscilações da produção solar e eólica ao longo do dia, enquanto a bombagem hidroelétrica permite armazenar maiores quantidades de energia durante períodos mais prolongados. Para períodos de vários dias ou mesmo situações sazonais de menor produção renovável, a ZERO considera necessário estudar outras tecnologias de armazenamento de longa duração.
O objetivo, defende a associação, deve ser determinar qual a combinação de soluções que permite reduzir progressivamente a necessidade de manter centrais a gás como reserva do sistema, garantindo simultaneamente a segurança do abastecimento.
Sair do gás cinco anos antes
A Lei de Bases do Clima estabelece a proibição da utilização de gás natural de origem fóssil na produção de eletricidade a partir de 2040, condicionada à segurança do abastecimento.
A ZERO entende que Portugal deve começar desde já a avaliar se esse objetivo pode ser antecipado em cinco anos, para 2035. Para isso, considera necessário testar um sistema elétrico sem gás fóssil em situações particularmente exigentes: anos secos, vários dias com pouca produção solar e eólica, períodos de elevada procura de eletricidade e situações em que Portugal e Espanha enfrentem simultaneamente uma produção renovável reduzida.
A associação alerta ainda para a dependência do gás importado, que deixa o país exposto à evolução dos preços internacionais, a conflitos geopolíticos e a eventuais interrupções do abastecimento. Mesmo que as centrais funcionem durante poucas horas, acrescenta, podem continuar a influenciar o preço da eletricidade nos períodos em que são chamadas a satisfazer a procura.
Barragens dependem da água disponível
A bombagem hidroelétrica terá, segundo a ZERO, um papel importante no armazenamento de grandes quantidades de eletricidade, mas a capacidade instalada não pode ser analisada isoladamente.
Os 5,26 GW de bombagem previstos para 2040 dependem, na prática, das condições das albufeiras, dos restantes usos da água e da evolução das situações de seca.
A associação defende que as barragens com potencial para bombagem sejam avaliadas individualmente, considerando a capacidade de armazenamento, os custos, os impactos ambientais e eventuais restrições legais. Dá como exemplo a Barragem do Alto Lindoso, no Gerês.
Os estudos deverão ainda, segundo a ZERO, considerar os piores cenários climáticos, incluindo períodos de seca plurianual, a necessidade de assegurar caudais ecológicos e a prioridade do abastecimento público.
Hidrogénio pode armazenar energia por mais tempo
Para períodos prolongados em que a produção renovável seja reduzida, a ZERO quer também que sejam estudadas alternativas às centrais a gás.
Uma das possibilidades é o hidrogénio renovável, produzido quando existe elevada disponibilidade de eletricidade renovável, armazenado e posteriormente utilizado para voltar a produzir eletricidade.
A associação defende que esta hipótese seja comparada com outras tecnologias de armazenamento de longa duração, avaliando se os custos justificam a sua utilização.
Entre os locais que propõe analisar estão Sines, Tapada do Outeiro, Carregado, Pego e Lares, sem assumir antecipadamente qual deverá ser a tecnologia escolhida para converter a energia armazenada novamente em eletricidade.
Nem toda a energia excedentária precisa de ser armazenada
A ZERO chama ainda a atenção para outra possibilidade: em vez de armazenar toda a eletricidade renovável excedentária, parte dela pode ser consumida no momento em que é produzida.
Nos cenários analisados, a eletricidade renovável que poderá não ser aproveitada em 2030 varia entre 2,7 e 4,3 TWh, sobretudo durante períodos de elevada produção solar.
Uma parte desses excedentes poderá ser utilizada através de uma gestão mais flexível do consumo, por exemplo, carregando veículos elétricos durante as horas de maior produção solar, utilizando bombas de calor, produzindo frio antecipadamente ou fazendo funcionar eletrolisadores quando existe maior disponibilidade de eletricidade renovável.
A ZERO defende, por isso, que as tarifas de acesso às redes criem incentivos para deslocar consumos para os períodos de maior disponibilidade de eletricidade renovável, desde que isso não provoque congestionamentos na rede.
Mais eletrificação pode aumentar necessidades de armazenamento
A quantidade de armazenamento necessária dependerá também da velocidade a que Portugal eletrificar a indústria, os transportes e os edifícios, bem como da localização de novos grandes consumidores de eletricidade.
A ZERO aponta, entre outros exemplos, para unidades de produção de aço verde, instalações de refinação de metais, centros de dados e unidades de produção de hidrogénio.
A Estratégia deverá, por isso, ser revista até 2030 e articulada com a Estratégia Industrial Verde. A associação defende ainda que seja analisado o armazenamento distribuído junto dos grandes consumidores, incluindo baterias, armazenamento térmico e soluções comunitárias.
Para a ZERO, a questão central é determinar quanto armazenamento Portugal precisa de instalar para ter um sistema elétrico seguro, baseado em fontes renováveis e sem dependência do gás natural fóssil. A consulta pública da Estratégia Nacional de Armazenamento de Energia termina hoje, 30 de setembro.
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