China podia aliviar a crise do gasóleo, mas está a fechar a torneira
A China está a suspender as exportações de produtos petrolíferos durante outubro para destinos fora de Hong Kong e Macau, segundo fontes citadas pela Reuters. A decisão surge num momento particularmente delicado para o mercado mundial de gasóleo, já pressionado pelas perturbações no abastecimento de petróleo e pelos receios de que os Estados Unidos possam limitar as suas próprias exportações.
É precisamente o contraste que o Wall Street Journal destacou esta semana: a China tem capacidade para produzir mais gasóleo, mas não necessariamente vontade para o colocar no mercado internacional.
As refinarias chinesas estão a utilizar cerca de 75% da sua capacidade, segundo dados da Vortexa citados pelo WSJ, enquanto as refinarias norte-americanas operam perto dos 97%. Isso deixa à China uma margem considerável para aumentar a produção.
E Pequim já tinha começado a abrir essa porta. As exportações chinesas de gasóleo chegaram a cerca de 500 mil barris por dia em setembro, contra uma média de 166 mil barris por dia entre abril e julho. A margem obtida pelas refinarias chinesas com as exportações também disparou, para 100,58 dólares por barril em setembro, contra 21,40 dólares em janeiro, de acordo com dados citados pelo WSJ.
O problema é que a China não está em 2022. Há quatro anos, depois da invasão russa da Ucrânia e da escalada dos preços dos combustíveis, Pequim atribuiu novas quotas de exportação às refinarias. Em novembro de 2022, as exportações chinesas de gasóleo chegaram a cerca de 680 mil barris por dia, contribuindo para aliviar a pressão sobre o mercado internacional. Agora, a prioridade é diferente: garantir o abastecimento interno num mercado de petróleo mais instável e caro.
O mercado mundial tem cada vez menos margem para absorver novos cortes. As exportações globais de gasóleo caíram para 4,6 milhões de barris por dia em agosto, contra 5,1 milhões no mesmo mês do ano passado, segundo dados da Agência Internacional de Energia citados pelo WSJ.
A Europa está particularmente exposta. Os Estados Unidos tornaram-se uma fonte essencial de gasóleo para o mercado europeu depois da perda das importações russas. Segundo a Kpler, citada pela Euronews, cerca de 32% das importações de gasóleo da União Europeia provenientes de fora do bloco este ano tiveram origem nos EUA, contra 17% em 2025.
É por isso que uma eventual decisão de Washington para limitar as exportações teria consequências muito para além dos Estados Unidos. A Goldman Sachs estima que uma proibição poderia baixar inicialmente os preços do gasóleo norte-americano, mas aumentar os preços grossistas europeus em cerca de 2%.
E Washington já está a pressionar os aliados europeus. Segundo a Reuters, a administração norte-americana pediu à França e à Alemanha que libertem parte das suas reservas de emergência de gasóleo, sob pena de os EUA avançarem com restrições às exportações.
Neste cenário, a China poderia funcionar como uma válvula de segurança. Mas, em vez de aumentar a oferta mundial, Pequim está a fazer o contrário.
A decisão chinesa não significa que o mundo fique sem gasóleo de um dia para o outro. Significa que desaparece uma das poucas possibilidades de aumentar rapidamente a oferta num mercado já muito apertado. E, quando a margem desaparece, cada barril passa a valer mais.
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