Respostas Rápidas: O que são obrigações e para que servem?
Os investidores estão a exigir yields (juro recebido para deter algo) cada vez mais elevadas para deter obrigações. Consoante o prazo de maturidade, desde agosto, têm sido batidos de forma sucessiva máximos que remontam à crise financeira de 2007/2008 e até a anos anteriores.
A título de exemplo, em setembro, as yields das obrigações portuguesas, francesas, alemãs, japonesas, e norte-americanas a 10 anos bateram máximos de abril de 2017, julho de 2008, junho de 2009, agosto de 1996, e julho de 2007, respetivamente. Em outubro as obrigações norte-americanas e francesas a 10 anos atingiram máximos de 2002. Ainda nas obrigações francesas estas semana atingiram um diferencial de 140 pontos bases, face às alemãs, o valor mais elevado desde 2012.
Em outubro, no prazo a 30 anos, as obrigações do Reino Unido passaram os 6% a primeira vez que aconteceu 1998. Em setembro as norte-americanas atingiram máximos de 2002 e as da Alemanha desde 2011.
Com as obrigações a assumirem um papel mais central no panorama financeiro sabe para que estas servem e que efeito possuem no seu dia-a-dia?
O que são obrigações?
As obrigações em termos simples são títulos de dívida emitido por uma entidade. Podem ser Estados ou empresas. Por deter esses títulos recebe um yield (juro ou retorno por ter comprado essa obrigação).
Mas todas as obrigações são iguais?
Não. Existem obrigações com diferentes maturidades. Elas podem ser divididas, em termos gerais, em três grupos. As de curto prazo (até 1 ano), as de médio prazo (entre 2 anos e 10 anos) e as de longo prazo (a partir de 10 anos).
O que é uma maturidade?
A maturidade é o tempo que demora a “expirar” a obrigação. No final desse período recebe o capital inicial investido a que acresce os juros que foi recebendo ao longo do tempo.
Tenho de deter a obrigação durante todo o tempo da maturidade?
Não necessariamente. Pode vendê-la antes do prazo.
Para que servem as obrigações de curto prazo?
No caso das obrigações a curto prazo o economista do Banco Carregosa, Paulo Monteiro Rosa, explica que nos prazos até um ano, em regra, o financiamento do Estado é “feito sobretudo” através de bilhetes do tesouro, usados para gerir necessidades de curto prazo e de tesouraria, cobrindo diferenças temporárias entre receitas e despesas ou refinanciando dívida que chega à maturidade. “Também existem os Certificados de Aforro, que são dívida de longo prazo, mas podem ser resgatados ao fim de três meses, funcionando para as famílias como uma aplicação com elevada liquidez”, adianta.
Estas taxas “estão muito ligadas” à política monetária dos bancos centrais. “Quando o Banco Central Europeu (BCE) ou a Reserva Federal norte-americana (Fed) sobem ou descem as suas taxas diretoras, as yields de curto prazo acompanham normalmente esse movimento de muito perto”, assinala. Isso faz com que sejam também um “bom indicador” das expectativas do mercado para aquilo que os bancos centrais poderão fazer nos meses seguintes.
Relativamente às pessoas o impacto é “sobretudo indireto, mas bastante concreto”. Taxas de curto prazo mais elevadas “tendem a aumentar” a remuneração dos depósitos e de outros produtos muito conservadores, mas também “encarecem” o crédito, sobretudo quando está indexado a taxas como a Euribor. “Quando descem, acontece o contrário. Taxas de juro mais altas favorecem as famílias que têm poupança, mas penalizam as que têm crédito”, acrescenta.
Quanto aos Estados, há ainda um “efeito” sobre as contas públicas que merece ser referido. “Se o Estado tiver muita dívida de curto prazo, fica mais exposto a alterações rápidas das taxas de juro, porque tem de se refinanciar com mais frequência. Se as taxas subirem, o custo da dívida aumenta mais depressa e isso pode reduzir a margem orçamental disponível para financiar outras despesas públicas ou para aliviar impostos”, descreve.
Para que servem as obrigações de médio prazo?
Relativamente às obrigações de médio prazo o analista da ActivTrades, Henrique Valente, destaca algumas das características que acabam por acontecer nas de maturidade de mais curto prazo. Posto isto, o analista da ActivTrades, destaca que as obrigações soberanas acabam por ser “uma das principais formas” de financiamento dos governos. “O Estado emite dívida, paga juros e compromete-se a devolver o capital numa determinada data”, assinala.
Combinando diferentes maturidade (curto, médio e longo prazo) “procura equilibrar” o custo do financiamento com o risco de refinanciamento e “evitar uma concentração excessiva” de dívida a vencer no mesmo período.
“As obrigações dos Estados considerados mais seguros funcionam também como referência para as taxas de juro da economia, através da chamada taxa sem risco”, explica. “Ao avaliar um investimento, os participantes do mercado comparam o seu potencial retorno com aquilo que podem obter através de dívida soberana com um risco considerado muito reduzido”, adianta.
“Por isso, quando as yields sobem, os investidores exigem geralmente retornos mais elevados noutros ativos e o financiamento tende a ficar mais caro para empresas e famílias”, diz. E isso pode refletir-se no “custo do crédito, no investimento, na remuneração da poupança e até no valor dos fundos de pensões e de outros produtos financeiros”.
Para que servem as obrigações de longo prazo?
Henrique Valente salienta que as obrigações de longo prazo permitem ao Estado financiar-se por períodos alargados. “São úteis para financiar investimentos duradouros (exemplo: infraestruturas) e distribuir os vencimentos da dívida ao longo do tempo, evitando uma concentração excessiva de montantes a reembolsar num único período. Também conferem previsibilidade aos encargos do Estado com o pagamento de juros”, explica.
Para a generalidade das pessoas, o impacto é sobretudo “indireto”, adianta. “Se o Estado tiver de pagar mais juros para emitir ou refinanciar dívida, resta menos margem orçamental para outras despesas ou reduções de impostos. Uma subida das taxas de juro de longo prazo pode também encarecer os novos créditos à habitação indexados a taxa fixa e dificultar o financiamento das empresas, levando-as a adiar investimentos e contratações”, acrescenta.
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