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Veja escolhe Lisboa para abrir a sua maior loja

Veja escolhe Lisboa para abrir a sua maior loja

Tudo começou com uma pergunta: “Que materiais se usam num par de ténis?”. Em 2005, cansados de trabalhar no setor da banca de investimento, Sébastien Kopp e François-Ghislain Morillion decidiram pegar no que apelidam de símbolo de uma geração, os ténis, e recriá-los com materiais provenientes de fontes sustentáveis e ecológicas.
“Mais do que começar uma empresa, o início da Veja foi uma viagem, um teste feito com poucos recursos. Cada investiu cinco mil euros” conta ao Jornal Económico (JE), num português do Brasil, quase perfeito, um dos fundadores, o francês Sebastien Kopp.
A viagem levou-os à Amazónia brasileira onde descobriram produtos naturais para avançarem com o projeto. Entretanto passaram 20 anos e muito mudou na Veja, apesar de Kopp dizer que tudo continua igual. “Fazemos as coisas devagar e não temos investidores”, diz.
A Veja é hoje uma marca global com 13 lojas, de Paris a Nova Iorque e São Paulo, entre outros locais, numa média de uma abertura por ano. Agora é a vez de Lisboa ter direito à maior loja da marca, 1.200 metros quadrados, numa antiga garagem na rua da Boavista. “Gostamos de ter lojas em cidades de que gostamos”, diz. “Não é uma questão de dinheiro, porque se pesássemos apenas financeiramente há outras cidades no mundo em que vale a pena abrir uma loja”, reforça
Revela que tem uma relação especial com a capital portuguesa. Nos anos 2000 visitava frequentemente Lisboa. “Vinha muito, andei pelo país de mota e autocarro”, conta. Ainda sobre o novo espaço, Sebastien Kopp diz que escolheram o local certo, no bairro certo. “Não gostamos das zonas mais comerciais. É isto que procuramos quando abrimos as lojas”, diz. Sem revelar valores, diz que o investimento na nova loja foi “elevado” e revela, como curiosidade, que o senhorio do espaço é a Igreja Católica. “Foi uma negociação ao ritmo deles, muito interessante”, conta.
A presença da Veja em Portugal começou pouco depois da pandemia da covid-19. Na altura, os ténis começaram a aparecer em algumas lojas do país. Contudo, como o mercado de moda em Portugal é, sobretudo, monomarca, decidiram abrir um espaço próprio.
Portugal também é o local escolhido, desde 2022, para a única fábrica fora do Brasil, onde têm três. “Com a experiência de 20 anos nas fábricas no Brasil e o conhecimento que Portugal tem na área de calçado de qualidade, e como todos falamos português, foi super fácil ter uma fábrica cá”, explica Sebástien Kopp. Sem levantar muito o véu do que aí vem, diz que estão a preparar um grande projeto para a fábrica no Norte de Portugal que será lançado em breve.
EUA e as tarifas de Trump
Cerca de 50% das receitas da Veja vêm dos dois mercados mais importantes para a marca Estados Unidos e Brasil. Os sucessivos anúncios da taxação da administração Donald Trump aos produtos exportados do Brasil para os EUA (em julho foi anunciado uma taxa de 37,5%) tem prejudicado o negócio, admite o fundador. “Os avanços e recuos dos anúncios das tarifas têm-nos dado muito, muito trabalho… mas não somos as únicas vítimas de Trump”, desdramatiza.
O mercado francês é o terceiro maior, seguido do Reino Unido, Espanha, Japão e Coreia do Sul.
A Veja faturou 280 milhões de euros em 2024, “e um valor semelhante em 2025” revela Kopp. “Temos crescido muito rápido, o que nem sempre é bom, porque gostamos de fazer as coisas devagar”, diz.
Existe uma premissa no negócio da Veja, a marca não investe em publicidade. “Não fazemos comunicação, não damos muitas entrevistas, não temos estrelas ou jogadores de futebol a quem pagamos milhões, por isso podemos fabricar ténis que são mais caros de produzir e que chegam ao consumidor a um preço normal”, explica.
“Acredito que há uma inteligência coletiva para entender que a nossa sociedade faz comunicação a mais, mas não faz o suficiente pelas pessoas e pelo meio ambiente”, reforça.
“Todos estes mercados derivativos em que se aposta na queda da vida de um país…. são regras que têm de mudar”, critica. “Foi também com esse pensamento que criamos a Veja. Nos anos 2000, os nossos colegas da escola de negócios criavam start-ups sem gostar do que faziam, só para fazer dinheiro, e está tudo bem, nós escolhemos o caminho oposto”, aponta.
A era do greenwashing
Questionado como é que a Veja explica a sua sustentabilidade, tendo em conta colagem que muitas empresas fazem à ecologia e sustentabilidade, designado de greenwashing, Kopp, que se sente em casa no assunto, responde com uma pergunta: “O que está dentro de um ténis das grandes marcas, aliás, foi essa pergunta que nós fizemos no início?”. “É plástico e um pouco de borracha sintética que é plástico também”, responde. “Descobrimos que nos anos 50, 60, as primeiras marcas de ténis usavam borracha natural, e por isso fomos para a Amazónia comprar diretamente aos produtores de borracha (seringueiros) que vivem dentro da floresta”, conta.
Os primeiros Veja tinham cerca de 25% de borracha natural, hoje a percentagem é de 50%. “Fazemos o mesmo com o algodão orgânico, que vem do Nordeste brasileiro, e o couro que usamos é de vacas que não comem produtos transgénicos. E visitamos esses locais muitas vezes para percebemos como funcionam”, garante.
Apesar da mensagem ecológica, o fundador da Veja diz que não quer impor nada. “Os ativistas ecológicos são um pouco chatos, na verdade, não andam de avião, só comem comida orgânica e gritam sobre o que se deve fazer. A Veja não é isso. Fazemos e informamos o que fazemos e cabe ao consumidor escolher”, remata.

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