Alexandre Quintanilha: “O conhecimento é a chave para a economia, para a inovação e para a democracia”
Alexandre Quintanilha, o cientista que fundou e presidiu ao Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto, onde ensinou, começou a sua intervenção na conferência “JE – 10.º aniversário” com uma proclamação: “Não sou nem economista, nem empresário, mas sei que o conhecimento é a chave para a economia, para a inovação e, talvez ainda mais importante, para a construção da democracia e para a resolução dos desafios que nós enfrentamos”.
Numa preleção de cerca de 20 minutos, subordinada ao tema “Portugal 2036: desafios da próxima década”, proferida esta quarta-feira, 7, na Alfândega do Porto, o também antigo deputado na Assembleia da República, onde presidiu à Comissão de Educação e Ciência, percorreu esses desafios: alterações climáticas, demografia, envelhecimento/longevidade e fragilidade da democracia.
Caraterizou o aumento drástico da temperatura global, a multiplicação de eventos extremos (secas e inundações), a quebra na produção alimentar e o surgimento de novas pandemias e refugiados climáticos, exemplificando uns e outros e apontando dados. A temperatura do planeta, por exemplo, lembrou, já ultrapassou a meta crítica de 1,5 graus definida no Acordo de Paris e 2026 caminha para ser o ano mais quente de sempre desde que há registos — “a probabilidade, nesta altura, disso acontecer é de 94%”.
Enquanto isto, disse, o gelo continua a derreter, como recentemente vimos no Nepal. “Cada 10% de gelo que derrete no mundo inteiro, o nível do mar vai subir sete metros, o que não é pouco e vai alterar de forma muito significativa as nossas costas”.
Em contraponto, Alexandre Quintanilha lembra que muitos problemas ambientais já foram resolvidos. “Há uns anos, as chuvas ácidas eram um tema de discussão na Europa e nos Estados Unidos, e hoje quase ninguém fala delas”. O mesmo se aplica ao buraco do ozono — “já sabemos como resolver”. E ao chumbo nos combustíveis, nas tintas e nos brinquedos? “É um assunto que já não nos preocupa — se bem que muitos dos brinquedos que vêm da China têm chumbo e nós não sabemos, portanto, esse problema ainda não desapareceu do mundo, mas, pelo menos, na Europa já não existe”.
Prossegue: “Há várias formas em que o conhecimento está a intervir: a transição para as energias renováveis — a questão da mobilidade elétrica; a economia circular, é um chavão… mas está a acontecer”. Menciona a agricultura celular — “já comi bifes produzidos em laboratório, o sabor não é exatamente igual ao da galinha ou do peru, mas… até não era desagradável”. Dá dois exemplos mais: estão-se a construir bactérias que digerem o plástico e a eficiência nos eletrodomésticos não para de aumentar.
“A partilha do conhecimento e da tecnologia não se faz tanto como a gente desejava, mas esquecemos sempre que a adaptação vai ser uma das principais formas de nos adaptarmos, e isso tem custos energéticos muito altos”, referiu, deixando claro que o processo de transição vai exigir ainda o consumo de muita energia fóssil.
A alteração da demografia mundial é o segundo desafio trazido à reflexão. Salienta as alterações produzidas nas últimas décadas através da educação e do conhecimento, principalmente das mulheres e revela que a taxa de fertilidade mundial é de 2,2, mas existe um abismo entre a realidade dos países em desenvolvimento (na Somália é de 5,9) e a dos países desenvolvidos e territórios hiperurbanizados (em Portugal é de 1,4 e em Macau, de 0,79). “Para termos uma população estável, a taxa de fertilidade tem de ser à volta de 2,1 e as previsões mais recentes são de que a população mundial vai chegar a 10 mil milhões antes de 2100, com uma taxa de fertilidade entre 1,7 e 1,9”.
Conta que vários países desenvolvidos têm vindo a tentar o equilíbrio demográfico com estímulos financeiros, como a redução de impostos ou, pelo contrário, impostos adicionais a quem não tem filhos, e estímulos biológicos agressivos à natalidade. Mas também salienta a existência de campanhas culturais regressivas, que remetem a mulher para um tempo em que apenas tomava conta das crianças, cozinhava e ia à igreja.
A nossa alimentação, a exposição a produtos químicos e poluentes, o stress, as noites mal dormidas, o contexto em que vivemos, a solidão e o que acontece ao nosso cérebro são tudo fatores que afetam o nosso envelhecimento celular. “E sabemos ligar muitos deles”, afirma o cientista.
“Será possível reverter?”, questiona.
Continua: “Será possível nós reprogramarmos células do nosso corpo para elas poderem dar origem a tecidos novos e jovens, e substituir aqueles que nós estamos a perder? Está a acontecer neste momento: restaurar tecidos envelhecidos a partir de tais células que nós temos no nosso próprio corpo (…). Corrigir erros do ADN que se vão acumulando à medida que vamos envelhecendo é uma técnica que já está disponível, e também a possibilidade de substituirmos órgãos inteiros a partir da bioengenharia”.
O mundo que Alexandre Quintanilha revela é paradoxal. Como tanto conhecimento, como pode a democracia estar a enfraquecer? O cientista identifica a emergência da “tecnosfera” como um dos principais fatores dessa instabilidade. Explica-o assim: “A complexidade dos desafios modernos é de tal maneira grande, de tal maneira complexa, que a maioria das pessoas desiste de perceber e de resolver, e delega as decisões nos especialistas”.
Esse sentimento generalizado de exclusão e irrelevância, aliado à crescente insegurança económica, política e profissional, torna, por outro lado, acrescenta, sedutoras “as promessas políticas de discriminação do diferente e do desconhecido, e da afirmação do me first” e de valores tradicionais do passado, que se julga que se conhecem e que se julga que funcionaram”.
Para o cientista é óbvio que a inteligência artificial tem um efeito sobre todos os fatores analisados no decurso da sua exposição. E deixa um aviso ao auditório da Alfândega do Porto.
“É da inteligência humana que emergem as nossas virtudes e os nossos defeitos, os nossos vícios e, portanto, é natural que a inteligência artificial, que é muito melhor, vá fazer as coisas de uma forma muito mais rápida e muito mais requintada. E não são só as virtudes: os defeitos também vão aldrabar da mesma maneira que nós o fazemos, de uma forma muitíssimo mais sofisticada do que nós, porque ela tem essa capacidade”.
“É preciso ter cuidado!”
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