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O que falta ao Norte? Mais escala, qualificações e exportações de maior valor

O que falta ao Norte? Mais escala, qualificações e exportações de maior valor

“Parece que temos vergonha das empresas crescerem”, atirou Ana Teresa Lehmann, professora da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), administradora de empresas e antiga secretária de Estado da Indústria.
O problema do crescimento atravessou o painel “Como o Norte pode ajudar a mudar Portugal?”, na conferência dos 10 anos do Jornal Económico, realizada no Porto, e o diagnóstico foi partilhado pelos diferentes oradores: Portugal precisa de empresas de maior dimensão, mas continua a colocar obstáculos a quem cresce.
“Nós temos, claramente, de ter esta ambição de criar empresas com mais dimensão, com mais ganhos de escala, para que o país seja competitivo”, afirmou Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP).
O problema, acrescentou, é pedir às empresas que cresçam e, ao mesmo tempo, penalizá-las com mais impostos e burocracia. “Isso é dizer: estejam quietos, não queiram crescer mais, porque, senão, vão ter mais problemas do que os que têm.”
João Velez de Lima, sócio da VdA, fez um diagnóstico semelhante: “Somos ótimos a fazer nascer empresas e a criar empresários, mas também somos ótimos a penalizar o crescimento desses mesmos empresários.”
Para o advogado, uma das mudanças necessárias está na fiscalidade. Velez de Lima defendeu a simplificação do sistema, o fim das sobretaxas e das “contribuições extraordinárias, que nada de extraordinário têm”, e apontou particularmente às tributações autónomas.
Exportar mais valor
Ganhar escala, porém, não chega. “Não é só exportar mais, é sobretudo exportar melhor e exportar com mais valor”, afirmou Ana Teresa Lehmann.
Luís Miguel Ribeiro deixou o mesmo alerta, num momento em que “a dinâmica de crescimento das exportações tem vindo a arrefecer”. Para o presidente da AEP, o desafio passa por aumentar o investimento e as vendas para o exterior, mas sobretudo por “criar valor”.
Para Ana Teresa Lehmann, é também necessário perceber que os próprios mercados estão a mudar. As cadeias de valor são cada vez mais “mercados desterritorializados”, nos quais as empresas têm de encontrar o seu espaço. É uma transformação que, defende, pode abrir novas oportunidades para o Norte.
Outro dos desafios passa pelas qualificações, defende Luís Miguel Ribeiro. “Quando nós necessitamos de incorporar tecnologia, quando hoje o desafio da inteligência artificial é uma realidade do presente e do futuro, é claro que precisamos de qualificar, precisamos de requalificar pessoas”, afirmou o presidente da AEP.
Pedro Nuno Teixeira, reitor da Universidade do Porto, considera que essa mudança exige rever a própria ideia de formação. “Nós continuamos a entender que a formação é algo que fazemos no início da nossa vida profissional ou antes da nossa vida profissional e depois acabou”. A universidade terá, por isso, de assumir um papel mais forte na formação ao longo da vida e na ligação às empresas e à administração pública.
E também não basta formar talento se depois não houver condições para o fixar ou trazer de volta. “Eles, muitas vezes, não regressam, não é apenas por causa dos salários, é por causa dos ambientes organizacionais e profissionais que nós temos”, afirmou Pedro Nuno Teixeira.
“Cultura de minifúndio”
O reitor da Universidade do Porto considera ainda que é necessária maior colaboração entre instituições, defendendo capacidade para pensar “a uma escala acima dos nossos interesses institucionais”. E reconhece que “mesmo na Universidade” existe “muita cultura de minifúndio”.
Ana Teresa Lehmann fez a mesma crítica a uma escala mais ampla. “Há demasiada fragmentação e temos que nos organizar”, afirmou, defendendo uma cooperação mais estreita entre municípios, universidades, associações, clusters e empresas.
Para a professora da FEP, a resposta também não pode ficar bloqueada por rivalidades territoriais. É necessária “uma nova ambição para o Norte, uma nova ambição para Portugal”, mas “sem andarmos aqui em intrigas entre regiões e entre pequenos poderes”.

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