Economia francesa pode ter-se tornado “grande demais para salvar”, sugere Krugman
A economia francesa poderá ter-se tornado “grande demais para salvar”, argumenta o Nobel da Economia Paul Krugman, que fala numa “trajetória orçamental insustentável” para o gigante europeu.
Numa publicação no seu blog da Substack, o economista laureado lembra a subida do endividamento público da segunda maior economia europeia, bem como o descontrolo da despesa e os crónicos défices orçamentais – ainda mais penalizadores na ausência de circunstâncias especiais como uma recessão ou guerra. No entanto, todos estes aspetos são transversais à maioria das economias avançadas, ressalva.
“França destaca-se, mesmo entre as nações mais orçamentalmente atrapalhadas, por uma questão: a sua incapacidade persistente em se tornar realista quanto à reforma”, sublinha.
A economia gaulesa regista a idade efetiva média de reforma mais baixa da Europa Ocidental e uma das mais baixas do continente, com 60,4 anos, e a idade legal de aposentação no país estava em apenas 62 anos, consideravelmente acima da Dinamarca, por exemplo, onde estava em 67. Com uma esperança média de vida de 87 anos, é fácil de compreender que “a pressão orçamental criada maioritariamente pelo plano de pensões generoso francês está a obrigar a cortes noutros gastos, nomeadamente na educação”.
Em termos reais, os juros franceses permanecem relativamente contidos e, mesmo usando as taxas de mercado, as yields a dez anos continuam abaixo das registadas nos EUA, relembra Krugman. Mas a realidade é que o disparo que se faz sentir em várias economias foi particularmente intenso para França, levando a que os seus juros ultrapassem, por exemplo, os italianos, o que sugere uma preocupação de mercado focada no caso francês.
“E a dependência francesa do euro significa que é demasiado fácil esta perda de confiança transformar-se numa crise feia”, escreve.
Revisitando a crise de 2010-12 nas soberanas europeias, Krugman relembra que os problemas de mercado terminaram com a célebre frase de Mario Draghi, então presidente do Banco Central Europeu (BCE), que faria “o que fosse preciso” para salvar a moeda única. No entanto, há duas diferenças relevantes entre a Grécia e Portugal em 2012 e França atualmente.
A primeira são os cortes na despesa. Krugman defende que a austeridade imposta a Atenas e Lisboa foi “loucamente excessiva de um ponto de vista económico, mas significou que estes países podiam alegar que mereciam ser resgatados” face ao esforço que estavam a levar a cabo. França, pelo contrário, “afasta-se ainda mais da responsabilidade orçamental”, gerando mais tensão nos mercados.
Outro aspeto a relevar é a diferença de dimensões entre as economias. Portugal e Grécia eram duas pequenas economias periféricas no contexto europeu, ao passo que França tem o sétimo PIB nominal mais alto do mundo, o nono em paridade de poder de compra e é um dos dois motores da UE, compondo juntamente com Berlim o eixo franco-alemão em que assenta o projeto europeu.
Portanto, “se França precisar mesmo de ser resgatada, seria extremamente caro”. O país pode “ter ultrapassado a linha a partir da qual se torna grande demais para resgatar”, sugere, prevendo que qualquer resgate à segunda maior economia do bloco “seria extremamente divisivo dentro da Europa”.
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