Humanoides: chegam a Portugal. Mercado vale 10 mil milhões
Um robô humanoide pode estar na fábrica a executar tarefas de precisão, num hotel a receber hóspedes ou, simplesmente, em casa, a ajudar uma pessoa idosa nas tarefas do dia a dia. O que até há pouco parecia pertencer ao território da ficção científica começa a transformar-se numa possibilidade concreta: eles estão a deixar os laboratórios e a aproximar-se dos espaços onde as pessoas vivem e trabalham. Para a Agibot, a empresa fundada em Xangai, e que se tem afirmado como uma das líderes globais em inteligência incorporada, esta é apenas a primeira fase de uma transformação que poderá atravessar praticamente todos os setores da economia e da sociedade. “Portugal tem um grande potencial e o país é também muito forte em indústrias como a automóvel, a hotelaria e o turismo. A robótica humanoide vai ter um papel muito importante”, diz William Shi, presidente da área europeia da empresa, ao Jornal Económico.
A grande novidade não está apenas na forma humana das máquinas. Está naquilo que conseguem aprender. Ao contrário dos robôs tradicionais, desenhados para repetir uma sequência específica de movimentos, os novos humanoides recorrem à inteligência artificial para aprender tarefas e adaptar-se a diferentes situações. A lógica é semelhante à aprendizagem humana. Um robô pode começar por aprender a transportar uma caixa, depois a arrumá-la, a servir um café ou a executar uma tarefa numa linha de produção. À medida que recebe treino vai acumulando novas competências. “É como treinar uma criança. Nós treinamos os robôs para aprenderem uma habilidade de cada vez. Pouco a pouco, eles podem aprender cada vez mais”, acrescenta o responsável da Agibot.
Essa capacidade poderá ser relevante em setores onde faltam trabalhadores ou existem tarefas repetitivas, pesadas ou difíceis de executar durante longos períodos. Nas fábricas, por exemplo, os humanoides poderão assumir operações que hoje dependem de trabalho manual. Nos cuidados de saúde, poderão apoiar determinadas tarefas logísticas e rotineiras, libertando médicos, enfermeiros e outros profissionais para funções que exigem contacto humano e empatia. Mas a visão da Agibot não termina no local de trabalho. A empresa imagina uma expansão progressiva para o espaço doméstico, onde um robô poderá tornar-se um assistente personalizado. “Todas as pessoas poderão ter no futuro um assistente robótico personalizado”, antecipa William Shi.
O caminho até esse cenário ainda será longo. A robótica humanoide está numa fase embrionária e ensinar uma máquina a lidar com situações complexas exige modelos de inteligência artificial, grandes quantidades de dados e, sobretudo, tempo. “Se lhe dermos tarefas muito complicadas, poderá precisar de seis meses para ser treinado”, revela. É também por isso que os dados serão um dos ativos mais importantes desta nova indústria. Na Europa, o enquadramento do GDPR poderá ter um papel decisivo na forma como essa informação é recolhida, armazenada e utilizada.
William Shi acredita que esta combinação entre inteligência artificial, dados e robótica poderá criar um mercado de enorme dimensão. A sua estimativa é ambiciosa: mais de 10 mil milhões de euros em Portugal durante os próximos 20 anos. A expansão não acontecerá de uma só vez. Primeiro virão as provas de conceito, depois os primeiros casos de utilização e, gradualmente, a integração dos humanoides em ambientes reais.
“Estamos numa etapa muito inicial. Primeiro criamos uma prova de conceito. Depois temos de adaptar a tecnologia às expectativas e exigências de diferentes áreas. Precisamos de algum tempo para colocar a robótica em casos de utilização reais.” O preço será também determinado pelo nível de inteligência e pelas competências atribuídas a cada máquina. Um robô industrial poderá custar cerca de 140 mil euros, mas o valor poderá aumentar até aos 300 mil euros quando forem acrescentadas novas aplicações. “A robótica nunca substituirá os humanos. A robótica vai libertar os humanos”, conta William Shi.
De acordo com dados recentes da Federação Internacional de Robótica (IFR), publicados no relatório anual World Robotics, o parque mundial de robôs industriais em operação atingiu um máximo histórico de 5,08 milhões de unidades. No segmento dos robôs humanoides, o setor depara-se com uma fase decisiva de transição entre o ensaio tecnológico e a adoção comercial em escala. Ainda segundo os dados da IFR, foram vendidas cerca de sete mil unidades de robôs humanoides em todo o mundo no último ano para utilização industrial e profissional.
“A automação industrial está a avançar a grande velocidade”, afirmou Jane Heffner, presidente da IFR, acrescentando que “a nova fasquia de cinco milhões de robôs em funcionamento em fábricas em todo o mundo é mais do dobro do número registado há sete anos. O crescimento mais forte está a verificar-se na Ásia, seguido pelas Américas. A Europa está a avançar mais lentamente”.
A consultora Roland Berger prevê que os robôs humanoides estão prestes a passar da fase de protótipo para a implementação à escala industrial e que os fabricantes de robôs podem ter receitas de 300 mil milhões de dólares (268 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) até 2035 e num cenário mais otimista esse valor pode chegar aos 750 mil milhões de dólares (671 mil milhões de euros). A longo prazo o mercado pode chegar aos quatro triliões de dólares (3,5 biliões de euros), o mesmo valor que tem o setor automóvel.
O estudo da Roland Berger, “Humanoid Robots 2026 – The Convergence Moment for a New Market”, refere que os avanços na Inteligência Artificial (IA) e no hardware robotizado podem permitir, no futuro, que os sistemas humanoides operem com custos operacionais de cerca de dois dólares americanos (1,78 euros) por hora. “Esta é uma realidade que poderá ser uma alavanca decisiva em países com salários elevados, como muitos na Europa, para garantir a competitividade, fomentar novas indústrias e combater a escassez de mão-de-obra qualificada”, salienta o estudo. “Atualmente, estamos no ponto em que a viabilidade tecnológica está a encontrar a necessidade económica. A questão principal já não é se os robôs humanoides são realistas, mas sim a rapidez com que serão dimensionados”, disse o partner da Roland Berger, Thomas Kirschstein.
A Roland Berger salienta que a expetativa é que os robôs humanoides criem novos mercados de vendas que vão muito além dos próprios robôs: desde motores, mecânica ou sensores, até eletrónica e equipamento de produção, numa cadeia de valor complexa que, em grande parte, se baseia nas capacidades industriais existentes.
É precisamente neste contexto que se posiciona a Agibot. A empresa, fundada em Xangai, tem-se afirmado como uma das líderes globais na produção em escala e desenvolvimento de inteligência incorporada, tendo já um portfólio diversificado de mais de dez modelos e variantes distribuídos por três famílias principais: a Série A (humanoides de tamanho real para interação e acolhimento), a Série X (modelos compactos, que coordenam movimentos e voz) e a Série G (humanoides sobre rodas vocacionados para a logística e montagem industrial). Alimentados por arquiteturas cognitivas avançadas que combinam visão computacional, aprendizagem por reforço, sensores, câmaras panorâmicas de 360 graus e mãos de elevada destreza, estes robôs foram projetados para executar desde a navegação autónoma dinâmica até à manipulação de precisão em múltiplos cenários operacionais.
Em Portugal, entre 60 e 100 robôs humanoides poderão estar a trabalhar dentro de um ano, estima a SData AI, empresa de Famalicão que vai distribuir no país os equipamentos da chinesa Agibot. Segundo Paulo Silva, administrador executivo da empresa, estima que o número de vendas possa chegar às 1.500 unidades por ano dentro de dois a três anos, à medida que os projetos-piloto permitam avançar para utilizações em maior escala.
“A chegada destas soluções a Portugal permite antecipar a próxima vaga de automação global, oferecendo a empresas e investigadores locais o acesso direto a ferramentas que redefinirão a produtividade, a segurança e a inovação nos setores da indústria, logística, serviços e hotelaria”, afirma Paulo Silva, sublinhando que “num contexto em que o tecido empresarial procura caminhos para recuperar competitividade e eficiência, a introdução destas soluções assume-se como uma resposta estratégica para acelerar a modernização dos processos produtivos”.
Um relatório publicado este ano pela Arthur D. Little, a mais antiga consultora de gestão do mundo, com sede em Bruxelas, sublinha a mesma ideia. “Os robôs humanoides vão captar atenção; a IA física especializada vai captar valor”, lê-se no documento, que utiliza o termo IA física como conceito abrangente para máquinas, dos braços robóticos aos carros autónomos, capazes de perceber, decidir e agir no mundo real. A revolução humanoide está, assim, apenas a começar. Dos corredores das fábricas às cozinhas das casas, passando por hotéis, supermercados e escolas, a visão da Agibot é de uma presença cada vez maior de máquinas capazes não apenas de obedecer, mas de aprender. E Portugal terá um papel relevante nessa transformação.
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