Jet lag? Apanhar sol à hora errada pode piorar tudo. Há uma aplicação que quer acabar com o sofrimento
Chega de férias, mas o seu corpo ainda está a trabalhar no horário de casa. São nove da manhã no destino, mas os seus olhos insistem que são três da madrugada. E, quando finalmente consegue adormecer, é precisamente a hora de sair para conhecer a cidade. O jet lag tem destas partidas — e a solução pode não passar por tomar um café, apanhar sol ou tentar aguentar-se acordado até à noite.
Dois especialistas em sono e ritmos circadianos da Universidade Flinders, na Austrália, desenvolveram uma aplicação para ajudar os viajantes a adaptar o relógio biológico ao fuso horário de destino. Chama-se The Jetlag Fix e está disponível para dispositivos iOS e Android, tendo sido desenvolvida em parceria com a Circadian Health Innovations.
A aplicação cria um plano personalizado para cada viagem, tendo em conta os voos, os horários habituais de sono e a duração de descanso preferida pelo viajante. A partir desses dados, um modelo computacional baseado na ciência do sono calcula quando é melhor procurar luz, quando convém evitá-la e a que horas tentar dormir.
O objetivo é acelerar a adaptação ao novo horário e reduzir os efeitos da mudança de fuso antes, durante e depois da viagem.
Nem sempre o sol é nosso amigo
Um dos aspetos mais curiosos da aplicação é contrariar um conselho frequentemente repetido: procurar luz natural de manhã para ajudar o organismo a adaptar-se ao novo horário.
Segundo Sean Cain, professor e investigador da Universidade Flinders, a luz é o sinal mais forte para reajustar o relógio biológico. Mas há um problema: apanhar luz à hora errada pode agravar o jet lag, mesmo que se trate de luz solar.
O investigador dá um exemplo concreto. Depois de um voo típico de Londres para Sydney, com chegada durante a manhã, a exposição à luz natural logo após aterrar pode dificultar a adaptação ao horário australiano.
A explicação está no funcionamento do relógio circadiano, o sistema interno que regula, entre outras funções, o sono e a vigília ao longo de um ciclo de aproximadamente 24 horas. A luz ajuda a acertá-lo, mas o efeito depende do momento em que ocorre e da direção em que o organismo precisa de ajustar o seu horário.
Por isso, o que funciona para um passageiro pode não resultar para outro. E o conselho certo para uma rota pode ser contraproducente noutra.
Andrew Phillips, também professor e especialista em ritmos circadianos, considera que os conselhos genéricos sobre jet lag podem ser tão úteis como prejudiciais. A aplicação procura substituir essas recomendações universais por um plano calculado para cada viajante e itinerário.
Uma pontuação para medir o sofrimento
A ferramenta não se limita a dizer quando dormir ou procurar luz. O modelo atribui a cada viagem uma classificação do impacto biológico, numa escala de zero a 100, permitindo antecipar o grau de dificuldade esperado na adaptação ao novo fuso horário.
A aplicação apresenta ainda o chamado Jetlag Pain Score, uma pontuação destinada a comparar o impacto das diferentes viagens, e estima quanto o plano proposto poderá reduzir esse desconforto e antecipar a adaptação ao horário local.
A ideia é ajudar os passageiros a perceber que nem todas as ligações aéreas são iguais. Mesmo em percursos semelhantes, a hora de partida, a hora de chegada e os voos de ligação podem alterar significativamente o impacto da viagem no relógio biológico.
Além disso, os utilizadores podem acompanhar, em tempo real, a forma como o organismo se vai adaptando ao novo fuso horário ao longo da deslocação.
Não é só uma questão de dormir pouco
O jet lag resulta de dois problemas distintos, explicam os investigadores. O primeiro é o desfasamento do relógio circadiano em relação à hora do destino, que precisa de ser corrigido gradualmente. O segundo é a fadiga acumulada devido à falta de sono antes, durante e depois dos voos.
A aplicação procura atuar sobre ambos, combinando recomendações para a adaptação biológica com orientações relacionadas com o descanso.
Os investigadores defendem que esta abordagem personalizada poderá ajudar os viajantes a escolher itinerários menos penalizadores, sobretudo em rotas populares de e para a Austrália.
A promessa é ambiciosa: transformar o combate ao jet lag num plano individual, em vez de deixar cada passageiro entregue a conselhos contraditórios e à esperança de conseguir dormir no avião.
Há, contudo, uma ressalva importante. A informação divulgada pela Universidade Flinders é um comunicado de imprensa e o trabalho não foi sujeito a revisão por pares, pelo que os resultados e a eficácia da aplicação devem ser interpretados com essa limitação em conta.
Até porque, se o relógio biológico não obedece ao relógio do telemóvel, talvez faça sentido que seja uma aplicação a tentar pôr os dois de acordo.
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