A Arte da Guerra e o mundo em mudança
Portugal poderá chegar a 2036 num mundo muito diferente. A ordem internacional construída após 1945 está em transformação, os Estados Unidos redefinem o seu papel, a China afirma-se como potência global e a Europa enfrenta o desafio de encontrar uma posição comum num cenário geopolítico cada vez mais instável.
Na conferência dos 10 anos do Jornal Económico, Francisco Seixas da Costa, embaixador e consultor, e Jorge Silva Carvalho, analista de estratégia, segurança e defesa, alertaram para uma década marcada pela incerteza. Seixas da Costa considera que o mundo atravessa o “fim do direito internacional tal como o concebemos ou a sua reinvenção”, enquanto Silva Carvalho questiona a capacidade dos 27 Estados-membros para alcançar consensos sobre segurança e política externa.
A Europa beneficiou durante décadas da proteção norte-americana, de relações económicas e energéticas privilegiadas e avançou entretanto num processo de desindustrialização. Esse modelo está hoje em causa. “Estamos num processo de transição à escala global em que nós não estamos a conduzir, pelo contrário, estamos a ser conduzidos”, afirmou Seixas da Costa.
A mudança estende-se às Nações Unidas, cuja estrutura de poder já não corresponde à realidade do século XXI, e à própria natureza da guerra. A Ucrânia tornou-se um laboratório militar, com drones, IA, guerra híbrida, ataques digitais e desinformação a ganhar peso.
Para Silva Carvalho, o conflito está também a dar tempo à Europa para reforçar a indústria de defesa, a logística e as capacidades militares. O desafio até 2036 será saber se a Europa aproveitará esse tempo para assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança, num mundo em que os equilíbrios geopolíticos serão cada vez mais disputados e em que novas ameaças poderão surgir a um ritmo difícil de antecipar.
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