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Anne Carson e o seu espanto permanente com a linguagem

Anne Carson e o seu espanto permanente com a linguagem

Na quinta-feira, 8 de outubro, a secretária permanente da Academia Sueca, Ingrid Carlberg, ligou à escritora laureada com o Nobel da Literatura de 2026. Por ocasião do anúncio, em Estocolmo, declarou que Anne Carson se mostrou “surpreendida”, mas “muito feliz” com a notícia. A conversa foi breve e o que retivemos da descrição do momento por Carlberg foi o facto de a autora se encontrar na Islândia a “ouvir o vento”. Mais importante, o que levou a academia do Nobel a distinguir a poeta, ensaísta e tradutora canadiana, de 76 anos? A 19ª mulher a ser distinguida com o mais importante prémio da literatura e a terceira escritora nascida no Canadá a receber o galardão, depois de Alice Munro, em 2013, e de Saul Bellow, em 1976.
A Academia distinguiu Anne Carson “pela sua obra arrojada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”. Há quem critique as escolhas dos jurados do Nobel por desdenharem uma literatura mais mainstream, i.e., que chega a um público mais alargado e transversal. Já os defensores dessa linha alegam que a missão da Academia consiste em dar visibilidade a tradições literárias menos conhecidas, encorajando os leitores a alargar os seus horizontes literários.
Foi o que aconteceu com a autora quando, ainda no liceu, um professor de latim – que aceitou ensinar-lhe grego antigo durante a hora de almoço – decidiu abraçar com paixão a literatura clássica e helénica, cuja influência perdura na sua obra.
O primeiro livro, Eros the Bittersweet (Eros, Amargo e Doce) nomeado um dos 100 melhores livros de não-ficção de todos os tempos pela Biblioteca Moderna, é uma das suas obras mais conhecidas. Curiosamente, esta meditação lírica sobre o amor na literatura e na filosofia da Grécia Antiga foi acolhida com inusitado entusiasmo por um público invulgarmente vasto, incluindo ensaístas, poetas e leitores em geral. Carson inspira-se na invenção por parte da poetisa Safo da palavra “agridoce” e discorre sobre a natureza conflituosa do amor romântico, que considera ser, ao mesmo tempo, “deprimente” e “um dos nossos maiores prazeres.”
A sua erudição será, talvez, a maior crítica que lhe apontam. Uma erudição intimidante, livros que exigem que o leitor conheça Eurípides para acompanhar a trama. Como muitas vezes acontece, a doutrina divide-se. Para os seus defensores, o humor de Anne Carson desarma tudo. Exemplos? Em “Norma Jeane Baker of Troy” (2019), Helena de Troia cruza-se com Marilyn Monroe. Em “Antigonick” (2012), propõe uma tradução singular da tragédia clássica de Sófocles, reinventando ritmos, imagens e vozes com humor, ao mesmo tempo que convoca a ousadia nos comentários intercalados ao longo do texto.
O espanto, a constante redescoberta da linguagem, é outro traço da escrita de Carson, autora amplamente premiada antes de ser nobelizada. Do Lannan Award, T. S. Eliot Prize ou Griffin Trust Award for Excellence in Poetry a uma bolsa Guggenheim e ao MacArthur Fellowship, somam-se o prémio Princesa das Astúrias das Letras, em 2020, e o National Book Critics Circle Award, em 2024. Ano em que revelou sofrer da doença de Parkinson.
Os numerosos prémios, porém, nunca engrossaram a nota biográfica que acompanha os seus livros: “Anne Carson nasceu no Canadá e ganha a vida dando aulas de grego antigo”.

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