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Fintar o Diabo com elegância açucarada

Fintar o Diabo com elegância açucarada

Em 1587, aparecia em Frankfurt um pequeno livro. Contava a “verdadeira história” do Dr. Faustus, um estudioso que vendeu a sua alma ao diabo. Este prometeu servir Faustus, responder a todas as suas perguntas e nunca mentir. Como contrapartida, Faustus renunciaria a Deus e cederia o seu corpo e alma ao diabo passados 24 anos.
Faustus desfrutou de vastas riquezas e prazeres proibidos, viajou pelo universo e aprendeu os segredos do cosmos. No final, o diabo recebeu o que lhe era devido. Desde então, Fausto tem fascinado a imaginação ocidental. E tornou-se uma história contada e recontada – primeiro em teatros de marionetes, depois em tragédias, poemas, ballets, óperas, sinfonias, romances e filmes.
O Fausto de Gounod, ópera em 5 atos
O jovem Charles Gounod deixou-se enfeitiçar pelo Fausto de Goethe aos 20 anos. Desde que fora hóspede na Villa Médicis que a tradução francesa não mais o abandonou. Mais tarde, o Fausto de Hector Berlioz convencia de vez o jovem Gounod da necessidade de pôr em cena um Fausto seu.
E assim fez, com libreto de Jules Barbier e Michel Carré. Ainda que afastada do espírito goethiano – este é um Fausto sonhador e aburguesado -, sofreu diversas afinações para se libertar do rótulo de “ópera complexa”, acabando por conhecer, logo no séc. XIX, um enorme sucesso de público em diversos teatros europeus. Entrados no século XX, manteve uma presença respeitável no repertório.
Foi a ópera escolhida para inaugurar o Metropolian de Nova Iorque em 1883 e, por cá, no São Carlos, teve um sucesso assinalável, ao ponto de Eça de Queirós fazer referências a trechos do Fausto de Gounod como recurso literário.
Detratores e apreciadores convergirão, pelo menos, sobre este aspeto: o Fausto de representa historicamente uma importante emancipação da ópera lírica francesa dos modelos italianos e germânicos.
O Scala de Milão não apresenta Fausto desde 2010. Esta nova produção, sob a direção artística de Joahannes Erath, que aqui se estreia nestas funções, leva a palco Marina Rebeka (Margarida) e Alex Esposito (Mefistófoles), a par de Vittorio Grigolo no papel de Fausto, que intercala com Julien Dran, numa coprodução com duas instituições espanholas, o Palau de les Arts, de Valencia, e o Teatro Real, de Madrid e a Staatsoper, de Berlim. A direção musical é de Daniele Rustioni, maestro principal na Opéra de Lyon, num regresso muito anisado ao La Scala.

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