Quem vai pagar a longevidade?
O desafio dos cuidados de longa duração em Portugal
Vivemos mais. Essa é uma das maiores conquistas das sociedades modernas. Mas a longevidade tem uma consequência que Portugal ainda hesita em discutir frontalmente: quem vai cuidar e quem vai pagar os cuidados quando viver mais significar também viver mais anos com dependência?
Nos últimos artigos escrevi sobre o desafio de Portugal estar preparado para envelhecer e sobre o custo invisível suportado pelos cuidadores informais. Há, porém, uma terceira questão inevitável: a sustentabilidade financeira e social dos cuidados de longa duração.
Não se trata de perguntar se Portugal vai ter de pagar mais. Vai. A verdadeira questão é saber como vamos pagar, quem vai suportar esse custo e que modelo de cuidados queremos financiar.
A longevidade tem um preço
Os números ajudam a compreender a dimensão do problema.
Segundo a OECD Economic Survey: Portugal 2026, a despesa pública portuguesa associada ao envelhecimento representava cerca de 23,5% do PIB em 2025 e poderá alcançar 27,3% em 2045. Ao mesmo tempo, o rácio de dependência das pessoas mais velhas, considerando a população entre os 20 e os 64 anos, poderá passar de 43,1 para 68,6 entre 2025 e 2050.
Mas talvez o dado mais revelador esteja noutro lugar.
Portugal dedica aos cuidados de longa duração uma proporção relativamente reduzida da sua riqueza. A OCDE estima uma despesa pública próxima de 0,5% do PIB em 2025, projetando-a para cerca de 0,9% em 2050. A própria organização considera a despesa portuguesa nesta área entre as mais baixas dos países da OCDE.
Em contraste, a média dos países da OCDE já rondava 1,8% do PIB em 2023, considerando as componentes de saúde e apoio social dos cuidados de longa duração. E a pressão continuará a aumentar: a OCDE projeta que a despesa pública média nesta área poderá atingir 2,8% do PIB em 2050.
Estes números dizem-nos algo fundamental: Portugal envelhece rapidamente, mas ainda não construiu um sistema de cuidados proporcional ao envelhecimento da sua população. E quando o Estado não paga, a necessidade não desaparece. Alguém paga.
O custo que não aparece no Orçamento
Durante décadas, grande parte do sistema português de cuidados assentou num pressuposto silencioso: a família cuidaria. E cuidou.
Foram sobretudo familiares — muitas vezes mulheres — que asseguraram alimentação, higiene, acompanhamento, medicação, transporte, vigilância e apoio emocional a pessoas dependentes. Este trabalho tem enorme valor económico, embora uma parte substancial nunca apareça nas contas públicas.
É precisamente por isso que uma despesa pública reduzida em cuidados de longa duração não significa necessariamente que o país esteja a gastar pouco. Pode significar apenas que transferiu uma parte do custo para dentro das famílias.
A OCDE reconhece esta realidade no caso português, assinalando a histórica dependência dos cuidados informais e o peso significativo suportado diretamente pelas pessoas e pelas famílias. Nos casos de necessidades severas de cuidados, os encargos suportados pelo próprio podem, em determinadas circunstâncias analisadas pela organização, atingir valores extremamente elevados relativamente ao rendimento disponível.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas económica e se torna também bioética.
Até onde é legítimo pressupor que uma família conseguirá cuidar? Que acontece quando os filhos vivem longe, quando ambos trabalham, quando o cuidador também envelhece ou quando uma pessoa necessita de assistência permanente?
O direito à longevidade não pode transformar-se numa obrigação familiar de suportar, quase isoladamente, as consequências da dependência.
O hospital não pode ser a resposta social do último recurso
Existe ainda um custo menos evidente.
Quando não há uma resposta adequada em casa, na comunidade ou numa estrutura de cuidados de longa duração, a pressão acaba frequentemente por chegar ao sistema de saúde. Uma pessoa pode deixar de necessitar predominantemente de cuidados hospitalares agudos e continuar, no entanto, a precisar de apoio para viver com segurança. Se essa resposta não existir, todo o sistema sofre.
Por isso, falar de cuidados de longa duração não significa apenas discutir lares ou camas. Significa construir uma verdadeira continuidade entre saúde, apoio social, reabilitação, domicílio, comunidade e respostas residenciais quando necessárias.
Portugal dispõe da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, que representou uma evolução importante nesta área. A própria OCDE reconhece os esforços para aumentar a oferta formal de cuidados através da RNCCI, embora identifique ainda disparidades regionais e limitações na cobertura.
O próximo passo terá de ser mais ambicioso.
Precisamos de um novo contrato social para cuidar
A discussão sobre a longevidade não pode resumir-se a abrir mais camas. Portugal necessita de definir um verdadeiro modelo nacional para os cuidados de longa duração, assente em cinco princípios.
Primeiro, cuidar no domicílio e na comunidade sempre que clinicamente adequado e desejado pela pessoa. A institucionalização não deve ser a consequência automática da dependência.
Segundo, integrar efetivamente saúde e área social. Uma pessoa não deixa de ter necessidades sociais quando entra no SNS, nem deixa de ter necessidades de saúde quando regressa a casa.
Terceiro, reconhecer e apoiar os cuidadores informais sem transformar esse apoio numa desculpa para substituir serviços públicos e comunitários por trabalho familiar não remunerado.
Quarto, criar mecanismos de financiamento previsíveis, transparentes e socialmente justos, protegendo particularmente as pessoas com menores rendimentos e maiores níveis de dependência.
Quinto, investir nos profissionais. Nenhum sistema de cuidados de longa duração funciona sem pessoas qualificadas para cuidar. A própria OCDE identifica o reforço da força de trabalho, a produtividade e a antecipação da procura como prioridades para a sustentabilidade futura destes sistemas.
Há ainda uma sexta dimensão que atravessa todas as anteriores: prevenir dependência evitável.
Investir no envelhecimento saudável, na prevenção, na reabilitação, na autonomia funcional e nos cuidados de proximidade não é apenas uma decisão humana. É também uma decisão economicamente racional. A OCDE tem vindo a demonstrar a importância económica de políticas que promovam o envelhecimento saudável e os cuidados comunitários.
A pergunta errada é quanto custa cuidar
Nas próximas décadas teremos menos trabalhadores por cada pessoa idosa, maior prevalência de situações de dependência e famílias potencialmente mais pequenas e geograficamente dispersas. Ignorar esta realidade não permitirá poupar dinheiro.
Apenas fará com que paguemos de outra forma: através de famílias exaustas, cuidadores que abandonam o mercado de trabalho, desigualdades no acesso, pessoas idosas desprotegidas e recursos de saúde utilizados para responder a problemas que deveriam encontrar solução noutros níveis do sistema.
Por isso, talvez seja necessário inverter a pergunta. Em vez de perguntarmos quanto custa criar um verdadeiro sistema de cuidados de longa duração, deveríamos começar por perguntar: quanto custará a Portugal não o criar?
A longevidade não pode ser considerada um sucesso apenas porque acrescentámos anos à vida. O verdadeiro progresso mede-se pela capacidade de garantir que esses anos são vividos com autonomia, proteção, dignidade e qualidade de vida. E essa escolha terá um preço.
Mas uma sociedade revela os seus valores não apenas na forma como distribui a riqueza que produz. Revela-os também na forma como decide cuidar de quem já não consegue cuidar sozinho.
Referências utilizadas
Blavet, T., Lorenzoni, L., & Rapp, T. (2026). Future long-term care expenditure trajectories across OECD countries. OECD Health Working Papers. OECD Publishing; European Commission. (2024). The 2024 Ageing Report: Economic and Budgetary Projections for the EU Member States (2022–2070). Publications Office of the European Union; OECD. (2025). Health at a Glance 2025: OECD Indicators. OECD Publishing; OECD. (2025). The Economic Benefit of Promoting Healthy Ageing and Community Care. OECD Health Policy Studies. OECD Publishing; OECD. (2026). OECD Economic Surveys: Portugal 2026. OECD Publishing
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