Ucrânia: Trump anuncia um cessar-fogo que nenhum dos beligerantes confirma
Donald Trump anunciou este domingo, 11 de outubro, um cessar-fogo apenas para o setor energético entre a Ucrânia e a Rússia, aparentemente sem consultar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Numa publicação nas redes sociais, o presidente dos Estados Unidos afirmou que os dois lados tinham chegado a um acordo. “Com efeitos imediatos, há um cessar-fogo energético na guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Ambas as partes concordaram. Não o quebrem!”, escreveu.
Zelenskyy disse estar surpreendido com o anúncio, mas que concordaria com ele se Vladimir Putin fizesse o mesmo. “Se o presidente Trump negociou com Putin, por favor, diga-nos quando começa o cessar-fogo. Estamos prontos e aceitá-lo-emos”, disse o presidente ucraniano ao site norte-americano ‘Axios’. No dia anterior, Zelensky já tinha rejeitou a exigência de Trump de que Kiev parasse de bombardear refinarias de petróleo russas. Zelensky afirmou que só acabaria com esses ataques quando Moscovo fizesse o mesmo. Qualquer acordo para colocar um fim aos ataques de drones de longo alcance da Ucrânia contra alvos no interior do território russo teria de ser “recíproco”, afirmou, e suportado por “garantias reais”.
Esta primeira recusa deu-se no mesmo dia em que Trump afirmou, numa daquelas suas apressadas declarações a meio de duas caminhadas – e tendo como companhia o antigo pugilista Mike Tyson – que estava na hora de Zelensky deixar a presidência da Ucrânia, uma vez tinha tido a oportunidade de conseguir a paz e nunca o fez.
Do seu lado, Moscovo nada disse sobre o assunto – pelo menos nas horas seguintes ao anúncio de Trump – e, no terreno, era impossível encontrar indícios de alguma acalmia nos campos de batalha. Drones russos sobrevoaram o país “durante todo o dia” de domingo, disse Zelensky, tendo ocorrido diversos ataques, entre eles um “contra as nossas infraestruturas energéticas”. O presidente ucraniano afirmou que os russos atingiram o complexo termelétrico nº 5 na cidade de Kharkiv, no leste do país – o mais recente de mais de 200 ataques realizados esta semana contra instalações de geração e transmissão de energia elétrica na Ucrânia. E acrescentou que houve outros 17 ataques a instalações de gás e petróleo. Nos dois dias do fim-de-semana morreram pelo menos duas dezenas de ucranianos, na sequência dos ataques russos.
O único comentário vindo da Rússia foi, segundo o jornal ucraniano ‘Kiev Indpendent’, de um membro da Comissão de Energia da Duma (parlamento russo), que afirmou não ter informações sobre o cessar-fogo energético com a Ucrânia e que as declarações de Trump eram uma forma de estar tentando influenciar os preços do petróleo. “Todos sabemos que Trump costuma dizer coisas para impedir a alta dos preços do petróleo”, disse Igor Ananskikh, primeiro vice-presidente da comissão em declarações o jornal russo ‘Ostorozhno Novosti’.
Diesel mais importante que sanções
Todo este cenário ocorreu depois de, na sexta-feira anterior, Trump ter anunciado o levantamento das sanções às exportações russas de diesel. A medida, disse, reduziria os preços globais e domésticos dos combustíveis – o que, a suceder, acontecerá menos de um mês antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Furioso, Zelensky chamou a decisão de “fraca” e disse que ela geraria “milhões” em receitas para Putin, permitindo que guerra contra a Ucrânia fosse travada “ainda com ainda mais intensidade”. Foi nessa altura que Trump exigiu – ou sugeriu, ou referiu, ou outra coisa qualquer – a saída de Zelensky. O presidente ucraniano respondeu-lhe dizendo que cabia aos ucranianos escolherem “um ou outro líder”. No passado, Zelensky chegou a ponderar organizar eleições – que estão suspensas por força do estado de emergência – mas somente se Putin concordasse com um cessar-fogo “total” de 60 dias.
Horas depois. A imprensa norte-americana indicava que Trrump poderia optar por interromper a venda de armas à Ucrânia (nomeadamente via União Europeia) para pressionar Kiev a cessar os ataques aéreos de longo alcance contra as infraestruturas energéticas russas. Segundo o ‘The New York Times’, a Casa Branca testou a possibilidade de oferecer ao Kremlin elevados incentivos económicos em troca de um cessar-fogo – deixando de impedir que a Rússia tenha acesso a ativos soberanos congelados no exterior do seu território.
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