Minerais críticos: a Europa pode trocar dependência da China pela dos EUA
Há matérias-primas que deixaram de ser apenas matérias-primas. Lítio, grafite, cobalto, níquel, cobre e terras raras passaram a estar no centro de uma disputa que cruza indústria, tecnologia, defesa e segurança económica. São necessários para fabricar baterias, motores elétricos, turbinas, equipamentos eletrónicos, semicondutores e sistemas militares. Controlar o seu fornecimento significa, cada vez mais, controlar uma parte das tecnologias que vão definir a próxima década.
É neste contexto que o Financial Times lança um alerta particularmente incómodo para Bruxelas: a União Europeia está a ficar para trás dos Estados Unidos na corrida para garantir minerais críticos, enquanto a China mantém uma posição dominante em vários pontos da cadeia global.
O problema europeu não é a ausência de estratégia. Bruxelas reconheceu há muito a dimensão do risco. O Critical Raw Materials Act estabeleceu para 2030 metas concretas para reforçar a capacidade europeia ao longo de toda a cadeia: a União deverá conseguir extrair pelo menos 10% das suas necessidades anuais de matérias-primas estratégicas, assegurar 40% através do processamento realizado no território europeu e obter 25% a partir da reciclagem. A legislação pretende ainda limitar a dependência de um único país terceiro a 65% das necessidades europeias de cada matéria-prima estratégica.
O problema está agora em transformar estas metas em capacidade industrial. A questão, porém, é maior do que a comparação entre Washington e Bruxelas. O que está em causa é a capacidade europeia para transformar uma consciência tardia do problema numa verdadeira política industrial.
Porque a Europa já percebeu que existe um problema. O que ainda não demonstrou é que consegue resolvê-lo à velocidade exigida pela geopolítica.
A nova corrida estratégica
A dependência europeia não nasceu ontem. Durante anos, a indústria europeia beneficiou de matérias-primas relativamente baratas provenientes de mercados externos, enquanto grande parte da transformação industrial se concentrou na Ásia.
A China foi mais longe. Construiu ao longo de décadas capacidade de extração, refinação, processamento e fabrico de componentes. Nas terras raras, por exemplo, a vantagem chinesa não está apenas nas jazidas: está sobretudo no domínio das fases de transformação que permitem converter o minério em materiais utilizados pela indústria.
É essa posição que torna tão difícil substituir Pequim. Abrir uma mina fora da China é apenas o primeiro passo. É preciso depois transportar, separar, refinar, transformar e incorporar esses materiais em produtos industriais. Cada uma dessas etapas exige capital, conhecimento técnico, energia, infraestruturas e mercados. É por isso que a verdadeira disputa não é simplesmente por minerais. É pelo controlo das cadeias de valor.
Os EUA mudaram de velocidade
A diferença entre Estados Unidos e União Europeia torna-se evidente quando se olha para a intervenção do Estado.
Segundo o Financial Times, desde 2022 os EUA mobilizaram cerca de 40 mil milhões de dólares para projetos relacionados com minerais críticos. Washington tem também adquirido participações em empresas, oferecido garantias e utilizado a política externa para assegurar acesso a matérias-primas e capacidade de processamento.
A UE, por contraste, comprometeu cerca de 6 mil milhões de euros em 2026 e selecionou projetos estratégicos para beneficiar de procedimentos de licenciamento mais rápidos. Não é apenas uma diferença de escala. É uma diferença de abordagem.
Washington está a tratar determinadas matérias-primas como ativos estratégicos. O Estado aceita assumir riscos que um investidor privado poderia considerar excessivos e intervém diretamente para tentar criar uma cadeia de abastecimento nacional.
O caso da MP Materials é revelador. O Pentágono investiu centenas de milhões de dólares na empresa americana de terras raras e associou o financiamento a mecanismos destinados a assegurar a produção futura. É uma política industrial assumida.
Na Europa, a resposta tem sido mais fragmentada: legislação, objetivos para 2030, projetos estratégicos, financiamento comunitário e tentativa de acelerar licenças. Nada disso é irrelevante. Mas pode não ser suficiente.
O problema europeu não é falta de planos
A União Europeia aprovou o Critical Raw Materials Act precisamente para diminuir esta vulnerabilidade. A legislação estabeleceu objetivos para aumentar a produção europeia, diversificar fornecedores e reforçar a reciclagem.
O princípio é simples: reduzir a exposição a um único fornecedor e criar capacidade dentro da própria União. O problema surge quando se passa do papel para a fábrica.
Projetos mineiros demoram anos. Refinarias exigem investimentos avultados. Instalações de processamento precisam de energia competitiva e tecnologia. E, numa Europa onde a abertura de uma mina pode desencadear anos de contestação ambiental e processos administrativos, a diferença de velocidade face a outras potências torna-se um problema económico.
O Tribunal de Contas Europeu já chamou a atenção para esta dificuldade, alertando para os riscos de vários projetos europeus não conseguirem contribuir para as metas fixadas para 2030. A Europa pode ter uma estratégia correta e, ainda assim, chegar tarde.
A dependência pode mudar de nome
Há um paradoxo nesta corrida. A União Europeia quer reduzir a dependência da China. Mas, se os Estados Unidos avançarem mais depressa e passarem a controlar uma parte crescente dos projetos, das empresas e dos fornecimentos alternativos, Bruxelas poderá simplesmente trocar uma dependência por outra.
É precisamente uma das questões levantadas pelo Financial Times. Empresas apoiadas por capital norte-americano estão a avançar sobre ativos europeus ligados às terras raras, incluindo através da aquisição da britânica Less Common Metals e de uma participação na francesa Carester.
A questão estratégica deixa então de ser apenas: “Como reduzir a dependência da China?” Passa a ser: “Quem controlará as cadeias alternativas?”
Porque uma Europa que importa minério chinês está dependente da China. Mas uma Europa que importa materiais processados de empresas controladas por interesses americanos também não alcançou verdadeira autonomia estratégica.
A Europa tem uma mina dentro de casa
Há, contudo, uma parte da equação que costuma receber menos atenção: a reciclagem.
Uma análise publicada pela “Reuters” a 24 de agosto identifica uma contradição europeia particularmente forte. A União procura novas fontes de matérias-primas críticas enquanto continua a recuperar apenas uma pequena parcela dos materiais que já estão incorporados nos equipamentos eletrónicos descartados. A agência chama a atenção para o potencial dos resíduos eletrónicos como fonte de matérias-primas estratégicas.
Isto altera a própria definição de segurança de abastecimento. Um telemóvel, um computador, uma bateria ou um equipamento elétrico que chega ao fim da sua vida útil não é necessariamente lixo. Pode ser uma reserva de materiais que já foram extraídos, transportados e transformados.
O problema é que os sistemas atuais nem sempre estão preparados para recuperá-los de forma eficiente.
A Reuters salienta que a solução exige mais do que simplesmente aumentar as taxas de reciclagem: implica repensar a forma como os equipamentos são concebidos, utilizados, desmontados e recuperados.
É aqui que a economia circular deixa de ser apenas uma política ambiental. Passa a ser política industrial.
Cada quantidade de material recuperada a partir de resíduos é uma quantidade que pode deixar de ser importada. Cada componente reutilizado prolonga a vida de recursos que já estão dentro da economia. E cada nova tecnologia de recuperação pode diminuir a pressão sobre minas e fornecedores externos. A Europa precisa, portanto, de duas estratégias simultâneas: extrair melhor e desperdiçar menos.
Portugal está dentro desta disputa. Não está à margem desta transformação.
O país possui recursos de lítio que despertaram o interesse europeu e tem projetos que foram incluídos na estratégia comunitária para matérias-primas críticas. Mas o debate em torno da mineração mostra também a dificuldade de conciliar segurança de abastecimento, desenvolvimento económico e proteção ambiental.
A questão portuguesa não deveria ser apenas quanto minério pode ser extraído. Deveria ser quanto valor pode ficar no país.
Se a Europa quer deixar de ser apenas compradora de matérias-primas, Portugal terá de decidir se quer limitar-se a fornecer recursos ou se pretende participar nas fases de maior valor acrescentado: processamento, tecnologia, reciclagem e desenvolvimento industrial. É aí que se joga uma parte importante da oportunidade.
A corrida não se ganha apenas numa mina
O erro seria pensar que a resposta europeia consiste simplesmente em abrir mais minas. A verdadeira autonomia exige uma cadeia completa: recursos, financiamento, processamento, energia, tecnologia, logística, indústria e reciclagem. É precisamente nessa cadeia que a Europa enfrenta os seus maiores obstáculos.
Os Estados Unidos estão a mobilizar capital e a assumir riscos. A China chega a esta nova fase com décadas de vantagem industrial. A Europa tem conhecimento, mercado e capacidade tecnológica, mas continua a ter dificuldade em transformar esses ativos numa política industrial suficientemente rápida.
E o relógio não está parado. Quanto mais tarde forem construídas as alternativas, maior será a probabilidade de os investimentos e as tecnologias decisivas ficarem concentrados noutras potências.
A questão já não é saber se a Europa reconheceu o problema. Reconheceu. Também já não é saber se existe uma estratégia. Existe. A questão é se a Europa consegue executar essa estratégia antes que os outros ocupem os espaços que pretende recuperar.
O Financial Times chamou a atenção para o atraso europeu face aos EUA e à China. A “Reuters” acrescenta outra peça ao puzzle: uma parte dos recursos que a Europa procura no exterior pode já estar dentro das suas fronteiras, escondida nos resíduos eletrónicos que não consegue recuperar.
No fundo, a corrida aos minerais críticos não é apenas uma corrida às minas. É uma corrida ao controlo das cadeias de valor. E, nessa corrida, a Europa já começou alguns metros atrás da linha de partida.
Share this content:


Publicar comentário