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Quando um ‘pedaço’ da história do Mundial de Ralis passa a morar em Portugal

Quando um ‘pedaço’ da história do Mundial de Ralis passa a morar em Portugal

Há automóveis de competição que se compram. E há automóveis que, quando mudam de mãos, transportam consigo uma parte da história. O Peugeot 206 WRC de matrícula 206 NAP 75 pertence claramente à segunda categoria.A sua chegada ao espólio da Grossrent Historical Cars, fruto da aquisição realizada pelo piloto, empresário e colecionador leiriense José Grosso, merece ser vista muito para além do simples acrescentar de mais um automóvel a uma coleção. Estamos perante a preservação, em Portugal, de uma verdadeira peça do património do Campeonato do Mundo de Ralis.

Porque este 206 não é uma réplica. Não é uma reconstrução inspirada nos tempos gloriosos da Peugeot. Não é apenas um WRC igual aos que preencheram os sonhos de uma geração.Este esteve lá. Este carro conheceu o ambiente dos parques de assistência do Mundial, o rigor da Peugeot Sport, as estradas onde se decidiu o Campeonato do Mundo e, sobretudo, as mãos de alguns dos grandes nomes de uma era extraordinária dos ralis.
Gilles Panizzi. Harri Rovanperä. Timo Salonen. Ari Vatanen. Roman Kresta. Juuso Pykälistö. Cédric Robert.Só esta sucessão de nomes explica muito do valor histórico da unidade.Panizzi representa uma das ligações mais fortes entre o 206 WRC e o domínio da Peugeot no asfalto. Rovanperä pertence ao grupo dos grandes especialistas de uma época em que o Mundial reunia uma concentração impressionante de talento. E depois surgem dois Campeões do Mundo, Timo Salonen e Ari Vatanen, homens cujos nomes fazem parte dos capítulos maiores da história dos ralis.
É difícil olhar para um automóvel destes apenas como uma soma de metal, carbono, mecânica e tecnologia. Um carro de competição histórico é também feito das estradas que percorreu, das classificativas que terminou, das que não terminou, dos mecânicos que trabalharam noite dentro sobre ele, das notas cantadas dentro do habitáculo, das marcas de batalha acumuladas e dos pilotos que procuraram retirar dele aquele décimo de segundo que tantas vezes separa a excelência do resto.
E é precisamente por isso que esta aquisição tem significado. Portugal possui uma enorme cultura de ralis. Temos público, provas de referência mundial, pilotos, preparadores, colecionadores e uma ligação emocional ao desporto automóvel que atravessa várias gerações. Mas nem sempre conseguimos manter entre nós os automóveis que escreveram a história internacional da modalidade.Quando uma máquina desta importância passa a integrar permanentemente uma coleção portuguesa, o património automóvel nacional fica também mais rico.
José Grosso conhece essa dimensão melhor do que a maioria. Piloto, empresário e apaixonado pelo automóvel, tem vindo a construir através da Grossrent Historical Cars um espólio no qual o valor das máquinas não se mede apenas pela sua cotação de mercado, mas pela história que cada uma consegue contar. A esta paixão, adiciona a adrenalina que transporta para as muitas provas que tem disputado, ao longo de mais de três décadas no desporto automóvel em geral e nos ralis em particular.
E um Peugeot 206 WRC tem muitas histórias para contar. O modelo foi um dos símbolos máximos da viragem do milénio no Campeonato do Mundo. Pequeno, agressivo, tecnicamente sofisticado e tremendamente eficaz, transformou-se rapidamente numa referência. Com ele, a Peugeot regressou ao topo do Mundial e criou uma das imagens mais marcantes do WRC moderno.
Para quem viveu intensamente aqueles anos, basta ver a silhueta. Os guarda-lamas largos. A enorme asa traseira. As jantes brancas. O prata da carroçaria.O vermelho da Total. E aquele inevitável 206 desenhado em enormes caracteres sobre as laterais.Não é necessário sequer ouvir o motor. A memória faz o resto. Mas o exemplar que agora reside em Leiria acrescenta algo que nenhum automóvel meramente restaurado consegue reproduzir: proveniência.A matrícula 206 NAP 75 é uma espécie de impressão digital daquela máquina. É ela que permite seguir o seu caminho através dos arquivos, reconhecer fotografias de época e reconstruir as diferentes páginas de uma vida competitiva que passou pelo próprio Campeonato do Mundo.
Isso transforma completamente a relação com o objeto. Já não estamos diante de “um Peugeot 206 WRC”. Estamos diante daquele Peugeot 206 WRC. E esta distinção, no universo dos automóveis históricos de competição, vale quase tudo.Há ainda outra responsabilidade associada a uma aquisição desta natureza. Ter uma peça histórica significa tornar-se, de certa maneira, seu depositário temporário. As máquinas sobrevivem aos pilotos, aos proprietários e até às equipas que as criaram. Cada geração apenas as guarda durante algum tempo antes de as entregar à seguinte.É também aí que coleções como a Grossrent Historical Cars assumem verdadeira relevância.Preservar não significa necessariamente fechar um automóvel numa sala climatizada e impedir-lhe qualquer contacto com o mundo. Significa conservar a sua identidade, documentar a sua história, respeitar a sua especificação e permitir que as novas gerações percebam por que razão aquela máquina foi importante.Porque haverá crianças e jovens que olharão pela primeira vez para este Peugeot sem saber quem foi Panizzi. Outras talvez nunca tenham visto Ari Vatanen atacar uma classificativa.E algumas talvez nem sequer tenham nascido quando os World Rally Cars desta geração faziam das estradas portuguesas e europeias autênticos anfiteatros humanos.Será precisamente um automóvel como este que poderá despertar-lhes a curiosidade: “Quem guiou este carro?”, “Onde correu?”, “Porque é que tem aquela asa?”, “Como era o Mundial naquela altura?”. É assim que a história permanece viva.Por tudo isso, a chegada do 206 NAP 75 à Grossrent Historical Cars deve ser celebrada. Não apenas porque José Grosso acrescentou um automóvel excepcional à sua coleção. Mas por que Portugal ganhou mais uma peça da história mundial dos ralis para preservar, estudar, mostrar e ouvir.Num tempo em que tantas máquinas históricas desaparecem para coleções inacessíveis ou atravessam continentes atrás do próximo comprador, saber que um Peugeot 206 WRC com verdadeira vida no Campeonato do Mundo encontrou casa entre nós é uma excelente notícia.
E talvez haja uma forma muito simples de resumir tudo isto. Durante anos, este Peugeot pertenceu à história do Mundial. Agora, um pequeno pedaço dessa história pertence também a Portugal. Está em Leiria. Na invejável coleção de José Grosso.
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