Cinco livros sobre a Alemanha… à boleia da venda da TAP
Começamos por um diário. “Viagem de uma Alemanha à Outra”, de Günter Grass, é um diário escrito em tempos de reunificação alemã. No dia 1 de janeiro de 1990, Grass deu início a este ritual de escrita, que manteve durante 13 meses. Ao longo desse período ocorre a reunificação alemã, que se torna a sua principal preocupação. Nesse mesmo ano, Grass desenha, reflete, escreve, dialoga, lê, cozinha, faz jardinagem e viaja… viaja de uma Alemanha para a outra, da RFA para a RDA, da Alemanha de ontem para uma Alemanha renovada, com desvios momentâneos à sua Gdansk natal, à Dinamarca, a Portugal, a Praga e a Paris, onde escreveu “O Tambor” (D. Quixote).
E porque não recuperar um dos primeiros livros do britânico Ian McEwan, “O Inocente” (original de 1990)? Nos anos 1950, Leonard Marnham, de vinte e cinco anos, chega a uma Berlim dividida entre o Leste e o Oeste, para fazer parte de uma equipa de vigilância anglo-americana. Embora não passe de um peão numa trama internacional, Leonard usa o seu trabalho secreto para escapar das amarras do seu quotidiano banal. A promessa de uma nova vida começa a concretizar-se à medida que se torna uma peça-chave no jogo de espiões e, simultaneamente, conhece Maria, uma alemã bela e jovem, com quem descobre o amor e o sexo (Gradiva).
Agora, uma novidade: Weimar, de Katja Hoyer, de quem já tinha sido publicado em Portugal o interessante “Para Lá do Muro. Uma História da Alemanha de Leste”. Situada no coração da Alemanha, Weimar ocupa um lugar de destaque na história do país. Lar de algumas das maiores figuras do pensamento e da arte europeias, como Goethe, Schiller, Nietzsche e Liszt, berço da escola Bauhaus, deu o seu nome à República de Weimar e ao seu ambicioso regime democrático. Mas foi aí também que o fascismo se consolidou e o campo de concentração de Buchenwald foi construído. (Penguin).
“Alemanha Ensanguentada”, de Aquilino Ribeiro, é o retrato de um regresso. Dois anos depois de terminar a Primeira Guerra Mundial, Aquilino revisitou a Alemanha (país onde viveu por uns meses em 1912, em Berlim e em Parchin, e onde casou, em 1913, com Grete Tiedemann, de Meclemburgo, que havia conhecido na Sorbonne). No texto são visíveis as contradições e as hesitações num país saído há pouco de uma guerra, com difícil aceitação do acordado em Versalhes. E há ainda algo em que Aquilino era exímio: a capacidade de perscrutar o ser humano; um exercício de leitura de rostos, gestos e tempos (Bertrand).
Em 1932, Joseph Kessel atravessa o Reno: eleições cruciais colocam frente a frente duas Alemanhas. A velha Alemanha, personificada pelo venerável Hindenburg, e a nova, liderada por um quase desconhecido: Adolf Hitler. Desde o início, Kessel percebe o ódio que emerge como combustível eleitoral. Os oradores são de qualidade desigual, mas a sua retórica atinge o alvo em cheio. Kessel percorre uma Alemanha dividida, indo de um bairro operário – onde a violência entre comunistas e nazis começa a aflorar –, a uma noite de gala, com smokings e vestidos de noite. Infelizmente, o que lemos em “Reportages en Allemagne 1932-1945” não é mera coincidência com acontecimentos atuais (Arthaud).
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