“Queremos as trotinetes removidas até ao final de janeiro”, afirma Gonçalo Reis que garante que não haverá indemnizações
O vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Gonçalo Reis, em entrevista ao Jornal Económico, justificou a decisão de suspender o sistema de trotinetes partilhadas na capital com a desorganização do espaço público, o aumento dos acidentes e os riscos para os peões, em particular para pessoas com mobilidade reduzida, idosos e crianças. A autarquia pretende concluir a retirada dos veículos até ao final de janeiro e garante que não haverá lugar a indemnizações aos operadores.
A proposta será submetida a uma reunião extraordinária da Câmara Municipal de Lisboa, marcada para 21 de outubro. A intenção do executivo é aprovar a resolução unilateral, por razões de interesse público, dos acordos de colaboração atualmente em vigor com os três operadores de trotinetes partilhadas: Lime, Bolt e Bird.
A decisão prevê a suspensão das operações e a interdição da circulação e do estacionamento destes veículos na capital. Depois da aprovação, os operadores serão formalmente notificados e terão um período de audiência prévia de dez dias para se pronunciarem.
Segundo o calendário traçado por Gonçalo Reis, a notificação definitiva deverá ocorrer em novembro, seguindo-se um prazo de 60 dias para a remoção dos veículos. “O nosso plano é que as trotinetes sejam removidas até ao final do mês de janeiro”, adiantou.
“Vamos obrigar os operadores a removerem as trotinetes partilhadas num prazo de 60 dias. Como esta proposta vai à reunião de Câmara no dia 21, os operadores terão depois de ser formalmente notificados. Segue-se um período de audiência prévia de 10 dias para se pronunciarem. Assim, a notificação definitiva deverá acontecer em novembro e, a partir daí, terão 60 dias para proceder à remoção. O nosso plano é que as trotinetes sejam retiradas até ao final de janeiro”, afirmou Gonçalo Reis
“Vamos resolver unilateralmente os acordos do que respeita às trotinetes, mas manter em relação às bicicletas partilhadas”, explicou.
Questionado sobre a possibilidade de a resolução dos acordos obrigar a autarquia a compensar financeiramente as empresas, o vice-presidente foi perentório: “Nada, nada, não há indemnização nenhuma, não há pagamento nenhum”.
O responsável afirmou ainda que espera uma colaboração dos operadores na execução da decisão. A autarquia reuniu-se com as três empresas na manhã de quinta-feira, numa reunião que Gonçalo Reis descreveu como “bastante amigável”.
“Quis ser muito frontal, quis-lhes passar exatamente a nossa decisão e a nossa mensagem, ou seja, suspensão, não vai haver, tem que deixar de haver trotinetes”, relatou, acrescentando que pediu a colaboração das empresas para concretizar as orientações municipais.
O autarca lembrou que “chegou a haver 15 mil trotinetes partilhadas em Lisboa. Foram reduzidas para cinco mil, mas é um stock enorme”, sublinha o Vice-Presidente da Câmara na entrevista, defendendo que estes veículos estavam a causar “muita desordem no espaço público” e a funcionar, na prática, como “obstáculos para quem anda a pé”.
Gonçalo Reis explicou ao Jornal Económico que a decisão, anunciada na quinta-feira pelo presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, resulta também das queixas de cidadãos sobre trotinetes mal estacionadas e dos riscos associados à sua utilização. Segundo os dados apresentados pelo vice-presidente, a Polícia Municipal e a Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) removem cerca de 1.200 trotinetes mal estacionadas por mês, na sequência de pedidos dos munícipes, o equivalente a 40 remoções por dia.
“Os cidadãos pedem, telefonam, queixam-se e todos os meses nós fazemos 40 remoções de trotinetes mal estacionadas por dia. Isto era insustentável”, afirmou.
A evolução dos acidentes foi outro dos argumentos invocados pela autarquia. De acordo com os dados do INEM citados por Gonçalo Reis, os acidentes com trotinetes em Lisboa que levaram ao transporte das vítimas para o hospital aumentaram de 184, em 2023, para 267, em 2025. Já os acidentes com risco iminente de vida duplicaram no mesmo período, passando de 12 para 24.
O vice-presidente destacou ainda os acidentes envolvendo crianças, apesar de estas estarem proibidas de utilizar trotinetes partilhadas. “As crianças estão proibidas de andar em trotinetes partilhadas, mas a prática é que, mesmo assim, andam. Nós não podemos ignorar”, sublinhou.
“Havia trotinetes a mais, as trotinetes estavam a desorganizar o espaço público, eram um obstáculo para o peão e para a circulação normal e estavam a causar um número de acidentes grave, crescente e que nós não podemos ignorar”, resumiu Gonçalo Reis, justificando assim a decisão de suspender o sistema.
Na justificação da medida, Gonçalo Reis referiu também decisões tomadas noutras cidades europeias. Paris e Madrid já suspenderam ou cancelaram os sistemas de trotinetes partilhadas, enquanto Bruxelas decidiu avançar com o cancelamento, com efeitos a partir de janeiro de 2027.
“Estamos alinhados com as melhores práticas europeias”, afirmou, embora tenha sublinhado que a decisão de Lisboa não resulta apenas de acompanhar uma tendência internacional. “Nós não fazemos por ser uma tendência europeia, nós fazemos pela nossa convicção.”
O vice-presidente enquadrou a medida numa estratégia mais ampla de ordenamento da cidade e de reforço da autoridade municipal. “Nós temos que organizar a cidade” e “temos que exercer a autoridade”, defendeu, apontando a segurança e a qualidade do espaço público como prioridades do executivo.
A Câmara pretende, desta forma, eliminar os problemas associados à operação das trotinetes partilhadas, sem fechar a porta ao desenvolvimento de alternativas de mobilidade suave que considere compatíveis com uma circulação mais segura e organizada em Lisboa.
Câmara quer continuar a apostar nas bicicletas partilhadas
Gonçalo Reis fez questão de distinguir a suspensão das trotinetes partilhadas da política municipal de mobilidade suave, garantindo que a decisão não significa um recuo no apoio aos modos de transporte alternativos ao automóvel.
“Estamos a favor da mobilidade suave, nomeadamente das bicicletas”, afirmou, indicando que a Câmara pretende continuar a trabalhar com os mesmos operadores no desenvolvimento de soluções de bicicletas partilhadas.
Os acordos de colaboração com esses operadores, atualmente em vigor, abrangem tanto trotinetes como bicicletas, mas o responsável ressalvou que ainda não existem compromissos ou números definidos para uma eventual expansão da oferta de bicicletas.
“Estamos dispostos, temos toda a disponibilidade, estamos abertos a trabalhar com os operadores em termos de incrementar, de maneira regulada, organizada, previsível, as soluções de mobilidade suave no que respeita a bicicletas partilhadas”, declarou.
A autarquia pretende, assim, manter a cooperação com as empresas nesta área, mas sob um modelo que permita maior organização e previsibilidade na utilização do espaço público.
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