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Cervejeiros de Portugal pedem mais atenção do Estado ao setor: “Não pedimos dinheiro, mas sim reconhecimento”

Cervejeiros de Portugal pedem mais atenção do Estado ao setor: “Não pedimos dinheiro, mas sim reconhecimento”

Quando se sentam numa esplanada para beber uma cerveja, os portugueses e os turistas têm, na maioria das vezes, duas marcas à escolha. No entanto, e apesar da perceção generalizada, o mercado cervejeiro português não se resume a essas duas opções. Atualmente, existem 100 cervejeiras no país, espalhadas de Norte a Sul, e dessa centena, 19 pertencem à Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja (APCV) que representa 99,5% da produção de cerveja em Portugal.
Criada em 1984, a associação é, desde abril deste ano, presidida por Rui Lopes Ferreira numa liderança rotativa a cada três anos entre as maiores cervejeiras. A associação engloba diferentes realidades empresariais, dos maiores grupos, como a Central de Cervejas, a Super Bock Group e a espanhola Damm às artesanais Musa, Dois Corvos e Nortada, entre outras.
Ao Jornal Económico(JE), o gestor que também é CEO do grupo Super Bock, admite que o setor “está bem mas enfrenta muitos desafios”, sobretudo os que têm a ver com a imprevisibilidade regulatória e fiscal. Relembra: “nos últimos trinta anos existiram cerca de 1500 alterações ao IRC o que torna muito difícil às empresas fazerem o seu planeamento”. E reforça a sua ideia: “em termos práticos, não pedimos dinheiro ao Estado português, pedimos o reconhecimento que nos parece deficitário para o papel que a indústria cervejeira tem para a economia nacional”. Segundo a associação, a industria cervejeira contribuiu atualmente com 2,5% para o Produto Interno Bruto português representando atualmente cerca de 7,3 mil milhões de euros de impacto económico global.
Mudança na forma de beber cerveja
Mas há mais desafios significativos, acrescenta. “Adaptarmo-nos às novas necessidades do mercado e do consumo”, sobretudo pela transformação que decorre no consumo de cerveja. Hoje, os mesmos que pedem a tal cerveja nas esplanadas e restaurantes em Portugal estão cada vez mais a pedi-la sem álcool. Dados da associação indicam que no primeiro trimestre deste ano, o consumo de a cerveja sem álcool cresceu 12% em vendas, em linha com o resto da União Europeia, que desde 2020 vê este segmento crescer 38%.
Talvez esta seja uma forma das empresas cervejeiras contornarem outros dos maiores problemas do seu presente e futuro: o menor consumo de álcool pelos mais jovens. Segundo o estudo, “Ale Yeah! Brewing the future of beer through consumer voices” da Worldpanel by Numerator, que o JE noticiou no passado mês de junho, os portugueses com menos de 35 anos (e mais de 18) apresentam uma das intenções mais fortes na Europa ocidental de reduzir o consumo de álcool. Se 16% da população total portuguesa planeia cortar no álcool, a percentagem sobe para 20% entre os jovens. “Há preocupações da população em matéria de bem-estar o que está a conduzir a indústria a alargar a sua oferta”, diz Rui Lopes Ferreira. À pergunta se o mercado português não está atrasado em relação a outros onde já se comercializam vários tipos de cerveja funcional, com proteína ou sem glúten, Lopes Ferreira admite que há mercados mais avançados, mas reforça que é mais “percepção” do que realidade. “São produtos com muita inovação e que requerem muito investimento. Mas o setor está a fazer experiências e estamos permanentemente a monotorizar o mercado. O portefólio da cerveja sem álcool tem hoje uma dezena de referências em Portugal, e não era assim”, reforça.
Por enquanto, a indústria cervejeira tem conseguido manter o crescimento em Portugal. Para este ano, prevê crescer 1% (o ano passado foi de 0,8%), em contraciclo com o resto da Europa, que viu diminuir o consumo em 3,2%.  Para o futuro, a pressão aumenta e pede uma reação imperial de um setor que já vê a espuma da mudança.

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