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Em três anos, a América do Sul passou da esquerda para a direita

Em três anos, a América do Sul passou da esquerda para a direita

A mancha política da América do Sul, também conhecido como o ‘jardim dos Estados Unidos’, pintava a maioria dos países da região – a saber: Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname – com as cores políticas dos partidos da esquerda, umas mais moderadas que outras, mas assumidamente de esquerda. O ano era o de 2023 – mas bastaram apenas três anos para que o mapa político da região mudasse radicalmente, de uma forma que ninguém na altura conseguiu prever.
Em 2023, daqueles doze Estados, apenas o Equador, o Uruguai e o Paraguai vogavam nas águas da direita, alinhada principalmente com os Estados Unidos (não importando se são os democratas ou os republicanos que por lá mandam) e estando disponíveis para auxiliar no que pudessem para mudar tão esquerdista estado de coisas. Vale a pena lembrar que Donald Trump regressou ao poder em 2022 – e já traria no seu pensamento a nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS) dos Estados Unidos, que publicou a 5 de dezembro de 2025 e que fez regressar a América do Sul à condição colonial, ou muito próximo disso.
 
Brasil muda de lado
Três anos volvidos, o resultado de 2023 (9-3 para a esquerda) está exatamente no oposto: mantém-se o ‘score’ (9-3), mas desta vez para a esquerda. É um resultado em antecipação: na verdade ele está em 8-4, mas já ninguém acredita – com certeza nem o próprio – que Lula da Silva consiga vencer Flávio Bolsonaro, o que retirará mais um país à esquerda e somará mais à direita. À esquerda, restam apenas o Paraguai, o Suriname e a Guiana).
A posição do Brasil é, aliás, importante, dada a sua capacidade de influência – que de algum modo reparte com a Argentina, país com que mantém dificuldades diplomáticas históricas – que costuma pesar na região. Nomeadamente através do auxílio (social, mas também económico) a outras esquerdas reginais. Ora, esse auxílio está prestes a desaparecer.
Flávio Bolsorano vai assim juntar-se ao grupo formado por Javier Milei (Argentina), José Antonio Kast (Chile), Abelardo de la Espriella (Colômbia), Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña (Paraguai), Keiko Fujimori (Peru), Delcy Rodríguez (Venezuela, uma espécie de protetorado dos Estados Unidos) e Rodrigo Paz Pereira (Bolívia).
A chamada ‘Onda Rosa’ da década de 2000 – que teve uma espécie de segunda vaga entre 2018 e 2022 – desapareceu na voragem da economia real: segundo os analistas, a população da América do Sul viveu com muita insatisfação o período pós-pandemia, marcado por uma inflação galopante, a que se juntou uma forte crise de segurança (patrocinada pelo narcotráfico). O desemprego (e a enorme precariedade do emprego), responsável pelas longas, violentas e inconsequentes filas de andrajosos sul-americanos a tentarem entrar no ‘el dorado’ da América do Norte, foi a melhor publicidade para a direita regional. Que se consolidou com a chegada de Javier Milei ao poder na Argentina em novembro de 2023, com um discurso disruptivo – revolucionário na sua essência – mas que tem conseguido dar provas de uma eficácia que tem escapado às propostas da esquerda.
 
A China mais longe
O país que mais motivos tem para se mostrar incomodado com esta alteração profunda da política regional é a China. O Império do Meio chegou a ser, no final das duas primeiras décadas do presente milénio, o mais importante parceiro comercial de quase todos os países da América do Sul. Era uma situação que os Estados Unidos não podiam tolerar e a NSS veio de algum modo recolocar as coisas no seu devido lugar (na ótica dos Estados Unidos).
A intervenção militar na Venezuela (em janeiro deste ano) e as ameaças aos regimes de Cuba e do Panamá (este por causa da crescente importância da China na gestão dos portos do país) serviram de exemplo aos ‘mal-comportados’ e foram um excelente ‘combustível’ para o crescimento das direitas. O apoio declarado (descarado, segundo alguns) a Milei e a Flávio Bolsonaro por parte de Donald Trump fez o resto. O ‘recado’ é claro: votem como deve ser, ou sofram as consequências.
 
O estranho caso do Uruguai ou o regresso dos Tupamaro
Contra os ventos que sopram por toda a América do Sul, o uruguaio Yamandú Orsi, líder da coligação de centro-esquerda Frente Ampla e considerado o herdeiro político de José ‘Pepe’ Mujica, venceu a segunda volta das eleições presidenciais realizadas a 24 de novembro de 2024 com cerca de 49,8% dos votos. Sucedeu ao governo de centro-direita liderado por Luis Lacalle Pou e promete apoiar as micro e pequenas empresas, atrair investimento estrangeiro e garantir que a riqueza gerada se traduza em melhores salários e pensões. O combate ao narcotráfico também está entre as medidas principais destes discípulo de ‘Pepe’ Mujica, que liderou o país entre 2010 e 2015 e ficou conhecido como o presidente mais pobre do mundo. Na juventude, durante as décadas de 1960 e 1970, foi um dos líderes dos Tupamaros, célebre grupo de guerrilha urbana de esquerda.
Foi baleado várias vezes e passou 14 anos na prisão durante a ditadura militar uruguaia, a maior parte do tempo em isolamento total. Foi libertado em 1985 com o regresso da democracia.

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