Quem matou a Gazela?
Há uma diferença entre uma notícia e a história que decidimos contar com ela.
A Gazela 2 fechou na Rua de Entreparedes porque o edifício foi vendido para dar lugar a um hotel. É verdade.
Também é verdade que a Cervejaria Gazela não fechou. Aquela unidade reabriu quatro dias depois, a poucos metros, na Rua de Alexandre Herculano. A casa original continua aberta.
Parece uma minudência. Não é.
Porque, algures entre estes factos, é possível construir uma terceira frase: “mais uma casa histórica do Porto fechou para dar lugar ao turismo”.
E essa frase já não descreve apenas aquilo que aconteceu. Explica-o. É assim que uma notícia se transforma numa narrativa.
Preocupa-me uma cidade onde os residentes deixam de conseguir viver, a descaracterização dos centros urbanos, a perda de comércio tradicional e a transformação de bairros em espaços monofuncionais.
Trabalho há quase dez anos no turismo. Isso não me obriga a achar que quanto mais turismo, melhor. Talvez me obrigue ao contrário: a levar os seus limites mais a sério. Mas levar um problema a sério implica resistir à tentação de escolher primeiro o culpado e organizar depois os factos à sua volta.
A crise da habitação não é uma crise do turismo. É uma crise urbana.
É uma crise de oferta, construção e licenciamento; de salários, imóveis vazios, mobilidade, ordenamento e concentração geográfica da procura. E, em determinados bairros e cidades, é também agravada pelo alojamento de curta duração e por outros usos que retiram casas ao mercado residencial.
É por isso que vejo com interesse a proposta europeia para a habitação. A Comissão identifica a insuficiência de oferta como o problema estrutural, admitindo simultaneamente que determinados usos não permanentes podem agravar a pressão em mercados locais específicos.
Em vez de partir para a proibição, propõe um princípio elementar: demonstrar primeiro que existe impacto. Uma autoridade deverá provar um efeito adverso significativo sobre a habitação durante pelo menos três anos, considerar se medidas menos restritivas produziriam o mesmo resultado e garantir que qualquer intervenção é necessária, proporcional e territorialmente dirigida.
Não é uma absolvição do alojamento local. Também não é a sua condenação. É diagnóstico.
Não “como reduzimos o turismo?”, mas “o que está a tornar a habitação inacessível aqui?” Porque “aqui” interessa.
A pressão habitacional da Baixa de Lisboa não é a de Bragança. A Ribeira não é Campanhã. Uma rua pode estar saturada de visitantes e outra, a poucos quilómetros, precisar de investimento, comércio, atividade económica e gente. Uma cidade é um organismo territorial, não uma média.
E há outra dimensão da crise habitacional de que falamos pouco: queremos cada vez mais viver nos mesmos sítios. A centralização não se faz apenas de empregos ou sedes de empresas. Faz-se de universidades, hospitais, transportes, restaurantes, teatros, concertos, amigos, encontros, anonimato, possibilidade. Faz-se, numa palavra, de vida.
Se concentrarmos progressivamente as razões pelas quais alguém quer viver numa cidade em Lisboa e no Porto, concentraremos também aí a procura de habitação. E, se aquilo que estamos a tentar resolver é como fazer caber o país inteiro em Lisboa e no Porto, então estamos a resolver o problema errado.
Não há política habitacional suficientemente inteligente se continuarmos a produzir lugares onde toda a gente quer estar e outros de onde todos sentem que têm de sair. É por isso que me interessa a ideia de cidade multifuncional.
Uma cidade exclusivamente turística deixa de ser uma cidade. Mas também não se torna mais viva por ser exclusivamente residencial. Precisa de quem mora, trabalha, estuda, investe e visita; de habitação, comércio, escritórios, cultura, hotéis e alojamento local.
O objetivo da regulação não deveria ser escolher qual destas funções merece existir. Deveria ser impedir que uma delas expulse todas as outras. E aqui há uma assimetria no debate que merece reflexão.
Criámos para o alojamento local instrumentos de contenção territorial, rácios e a possibilidade de impedir novos registos em determinadas zonas. A hotelaria é, naturalmente, regulada, licenciada e sujeita ao ordenamento urbano. Mas não a discutimos da mesma forma.
Isto não significa que devamos começar a proibir hotéis. Significa que, se nos preocupa a pressão da economia turística sobre um território, devemos olhar para o território inteiro, não apenas para a categoria jurídica que aprendemos a discutir.
Os números ajudam a perceber porquê.
Em 2018, o Porto tinha cerca de 235 mil residentes. Em 2025, mais de 273 mil. A hotelaria passou de cerca de 90 hotéis e 12.500 camas para cerca de 190 hotéis e mais de 21 mil camas. O alojamento local também cresceu significativamente. Entretanto, entre 2011 e 2021, o parque de alojamentos familiares clássicos cresceu apenas cerca de 2,4%.
Nenhum destes números absolve o alojamento local onde este exerce pressão. Nem transforma os hotéis no novo culpado. Tornam mais difícil contar a história da cidade através de uma única variável, sobretudo quando uma delas ocupa quase todo o debate público e outras quase nunca entram nele.
Não quero menos regulação. Quero melhor regulação. Mais granular, mais territorial, mais exigente com os dados e suficientemente honesta para admitir que uma cidade é feita de causas concorrentes, não de um único bicho-papão.
É aqui que volto à Gazela.
A casa de Entreparedes que agora fechou, abriu em 2018. Por coincidência, o mesmo ano em que comecei a trabalhar neste setor. Abriu porque a pequena casa original já não conseguia responder à procura crescente. Oito anos depois, sai daquele edifício para entrar um hotel e reaparece na rua ao lado. Como diz um amigo meu: gentrification-on-gentrification violence.
Quanto à Gazela, não morreu. Mudou-se para a rua ao lado. Talvez valha a pena verificar isso antes de começarmos a caçar o leão.
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