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Ingrid Koeck nomeada CEO do grupo hoteleiro português com mais distinções Michelin

Ingrid Koeck nomeada CEO do grupo hoteleiro português com mais distinções Michelin

O grupo Torel Boutiques, um dos mais distintos grupos de hotelaria boutique de luxo em Portugal, nomeou Ingrid Koeck CEO do grupo. Uma figura incontornável na última década de um grupo que tem a sofisticação e a portugalidade no seu ADN. E muito foco nas pessoas, como Koeck faz questão de sublinhar na entrevista que deu ao Jornal Económico.
Fala português com fluência e, em momentos de maior entusiasmo, traz para a conversa algumas expressões em língua inglesa. Ingrid Koeck é dona de uma força vital. Não nos tenta convencer de nada, pois ela própria é a primeira “convertida”. Ao trabalho que faz, ao sentido de pertença, à relevância que dá ao humanismo – enquanto forma de estar, na vida pessoal e profissional.
Diz-nos o dicionário que humanismo é “a atitude que valoriza as potencialidades do ser humano e que tem no bem-estar das pessoas o seu interesse prioritário.” Para Ingrid, esta é a tónica de todos os projetos em que se envolve. Cresceu entre os hóspedes da avó, na Áustria, e acreditamos nós que o ato de receber lhe ficou gravado na memória – quando ainda nem sequer imaginava que viria a ser hotelier. O francês é outra das línguas que domina, mas queremos voltar um pouco atrás e saber que vivências trouxe consigo para Portugal, onde vive desde 2015.
Um cruzeiro no Nilo
Trabalhava como jornalista de viagens na Áustria quando, numa viagem ao Egito, a descer o Nilo, foi convidada pela editora de um diário austríaco para integrar a sua equipa. Surpreendeu-a que uma casual conversa em grupo se tivesse transformado numa nova etapa profissional, mas aceitou a proposta. Passou a escrever sobre uma série de áreas, da economia à política, passando pela hospitalidade. Também se aventurou pelas relações públicas e marketing antes de rumar às Nações Unidas. Nova Iorque, claro, sede da organização, mas também em missões em países como o Burundi, a Somália, a República Popular do Congo ou o Líbano na qualidade de Political Affairs Officer. Aprendeu a ter “sensibilidade para o Outro”. A valorizar a inteligência cultural. A ver na diferença potencial e identidade. A coordenação diplomática deu-lhe, também, uma visão do mundo mais vasta e a capacidade de gerir situações complexas em contextos de elevado stresse.
Diz ao JE que há uma expressão idiomática em português que lhe tira bem o retrato: “pôr as mãos na massa”. É uma fazedora. E percebeu que não era na ONU que mudaria o mundo. Seria a uma escala muito mais pequena que isso poderia acontecer. Regressou à Europa em 2014 e, no ano seguinte, percorria o Alentejo de carro em busca de um lugar especial. Para viver, sim, mas também para dar forma a um projeto de hotelaria. Singelo mas único e com sentido de lugar.
Outra expressão ocorre para definir um novo encontro que mudou os planos de Ingrid Koeck: os astros alinharam-se e… as coisas acontecem. Em 2016 conhece o fundador do Torel Palace, em Lisboa. Ingrid revê-se na ambição e conceito de João Pedro Tavares e assume a comunicação e marketing do hotel. Passa também a esculpir a identidade da marca e a orientar o seu posicionamento estratégico.
Ao fim de dez anos de “convicção e resiliência”, outra palavra que diz qualificá-la especialmente bem, Ingrid é nomeada CEO do grupo Torel Boutiques. Diz-nos que acompanhou e participou – “sempre com as mãos na massa” – em todas as etapas de crescimento do grupo. Da pioneira unidade hoteleira à expansão do portefólio para nove hotéis, incluindo o lançamento, este ano, da nova marca Coterie Collection. E se a autenticidade é algo que considera fundamental, as pessoas são igualmente imprescindíveis.
A importância das pessoas
“Quando falamos das pessoas, da equipa, importa dizer que comunicação, para mim, não é só para fora, mas também para dentro. A minha ideia de hospitalidade assenta profundamente na conexão entre pessoas. Mesmo com a tecnologia – que é essencial no back office para agilizar processos e nos libertar para darmos atenção ao cliente –, a verdadeira essência da hospitalidade são as pessoas”, realça a responsável.
Uma liderança criativa e pensamento estratégico dão frutos. “Até há dois anos tínhamos cinco hotéis. E, numa reunião da administração, decidimos que no ano seguinte havia margem para crescer um pouco.” A abordagem parece cautelosa. Com efeito, o que aconteceu de seguida não estava ainda nos planos do board. Mas o telemóvel não parou de tocar. “É como se tivéssemos passado alguma informação ao universo… Recebemos uma série de propostas”. Quem ligava dizia que queria fazer “um projeto Torel”. Deste lado, ficaram atentos às oportunidades.
“Escolhemos com muito cuidado. O nosso crescimento é seletivo.” Mas não se coíbe de dizer que isso se deve, também, ao crescimento do turismo em Portugal. E nós aproveitámos essa onda”, frisa Ingrid, para quem o país tem um enorme potencial ainda por explorar. Na condição de os projetos se enquadrarem no ADN do Torel Boutiques: sofisticação, atenção às pessoas e portugalidade. São expressões da nova CEO, antes de sublinhar que “somos muito claros em relação à nossa estratégia. Queremos que o nosso portefólio cresça de uma maneira responsável, com estabilidade financeira e em lugares que fazem sentido para nós e com projetos que são o nosso ADN.”
A mulher que desempenhou um papel central no desenvolvimento da marca não esconde o seu entusiasmo quando falamos da nova marca do grupo, criada para afirmar um novo território na hotelaria de luxo – a Coterie Collection –, cruzando a escala boutique com uma forte componente cultural e criativa.
A estreia aconteceu no Porto, com o LENSCAPE Coterie, um projeto que coloca o design, a fotografia e a curadoria local no centro da experiência do hóspede. No fundo, é um hotel pensado como uma viagem visual, que envolve parceiros e artistas locais, entre designers e fotógrafos. A delicadeza dos ambientes criados pelo Studio Christian Haas, designer alemão sediado no Porto, que convidou os fotógrafos Luís Espinheira e Inês Silva Sá para, através de imagens originais, levarem os hóspedes não apenas a ver, mas a compreender, sentir e conectar-se emocionalmente com o lugar, à boleia de nomes como Desejo, Saudade, Sonho ou Viagem, que aludem ao sentimento que cada imagem desperta nos 39 quartos, suítes e studios – “em breve serão 52 no total”, apressa-se Ingrid a esclarecer, com um sorriso rasgado.
Este novo cinco estrelas nas margens do Douro e da Ponte D. Luís I, e encostado à Muralha Fernandina, inaugura uma nova marca e uma nova era para o Grupo Torel. “Crescemos muito e temos mais projetos no pipeline. O objetivo é continuar a crescer. Há projetos que estão a ser estudados, mas que ainda não podemos revelar.” Apontam para 2028 e, em termos geográficos, Ingrid revela que será “mais a Norte”. Por ora, o foco é na consolidação, porque nos últimos 18 meses aconteceu tudo “muito rápido”.
Hoje, o Grupo Torel tem nove hotéis em cinco destinos portugueses: Lisboa, Porto, Guimarães, Açores (ilha Terceira) e Douro, a que se veio juntar o primeiro projeto no âmbito da Coterie Collection, no Porto. O investimento nas cinco novas unidades, diz-nos a CEO, rondou os 4,5 milhões de euros, valor que também abarca a expansão do Torel Palace Porto, que duplicou o número de quartos e suítes, mantendo a inspiração original: nomes maiores da literatura portuguesa. Por isso, não estranhe quando se deparar com a suite David Mourão Ferreira ou o quarto Eça de Queiroz.
Consolidar para crescer
As prioridades para 2026 e 2027 passam por reforçar o posicionamento do grupo Torel Boutiques e da Coterie Collection enquanto marcas de referência e inovadoras no segmento da hotelaria boutique de luxo em Portugal. Com 354 quartos e cerca de 370 colaboradores, o grupo Torel Boutiques e a Coterie Collection entram agora numa fase centrada na consolidação e no crescimento sustentável. A evolução da faturação já aponta nesse sentido – 17 milhões de euros (2023), 20 milhões de euros (2024) e 23 milhões de euros (2025), sendo a estimativa para o ano em curso de cerca de 30 milhões de euros. E o olhar estratégico de Ingrid Koeck funciona como lente fotográfica do projeto. “Quem vier para Portugal pode ficar em lugares diferentes sempre com o Torel. E partir à descoberta” do país, “que é muito mais do que Lisboa e Porto.”
Isto porque há sempre um novo motivo para nos apaixonarmos por Portugal. É o que transmite ao JE. E tudo em Ingrid vibra com essas ‘notas musicais’: a contínua descoberta do país que é a sua casa há mais de uma década, a vontade de arriscar – que trouxe diversos prémios para o grupo – e de nunca abdicar da qualidade. “Nós somos um produto de alta qualidade. E eu acredito que essa também deve ser a estratégia de Portugal. O turismo tem de crescer com qualidade.” Um requisito que o “seus” hotéis levam muito a sério e que as distinções Michelin atestam. Seis Chaves Michelin e três restaurantes distinguidos com a famosa estrela, idealizados pelo chef-estrela Vítor Matos, a quem se deve a genialidade criativa dos projetos Blind (Porto) e 2Monkeys (Lisboa).
A pergunta apenas aguardava o momento certo para ser feita. Atualmente, o Torel Boutiques é o grupo hoteleiro com o maior número de distinções – chaves e estrelas – do Guia Michelin em Portugal. Que impacto tem este reconhecimento? “É uma responsabilidade enorme. Mas eu gosto do que faço. E espero continuar a fazer isto durante muitos mais anos.” Breve pausa. Um sorriso. O olhar de Ingrid percorre o terraço e as sombras das árvores frondosas do Torel Palace Lisboa, onde decorreu a conversa. “Eu cresci com o Torel. E estou aqui com o coração e o meu know-how.” Sem nunca esquecer aquilo que, na sua opinião, é “uma definição de sucesso”. Saiu-lhe em inglês, mas sintetiza o santo graal desta mulher fazedora: “To have your identity on it.”

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