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Europa quer carros elétricos, mas sem ficar refém das minas

Europa quer carros elétricos, mas sem ficar refém das minas

A Europa quer trocar petróleo por eletrões. O problema é que a mudança pode criar uma nova dependência: a dos metais necessários para fabricar as baterias dos veículos elétricos.
Níquel, lítio, cobalto e outros materiais críticos estão no centro da corrida à eletrificação, mas a produção e transformação destes recursos está concentrada em poucos países, deixando a União Europeia exposta a perturbações nas cadeias de abastecimento, oscilações de preços e riscos geopolíticos.

É neste contexto que surge o apelo de 40 organizações à União Europeia para que a redução da procura de matérias-primas passe a ocupar um lugar central na estratégia de segurança de recursos. A proposta é que Bruxelas não se limite a procurar novas fontes de abastecimento, mas procure também reduzir a quantidade de metais necessária para fabricar baterias e eletrificar o transporte rodoviário.
A resposta, segundo uma nova investigação do Öko-Institut, não passa apenas por garantir mais minas, diversificar fornecedores ou criar reservas estratégicas. Passa também por uma solução aparentemente mais simples: reduzir a quantidade de matérias-primas de que a Europa precisa.
O estudo, que analisa 30 trabalhos de investigação, conclui que existe um potencial significativo para diminuir a procura de metais utilizados nas baterias sem comprometer os objetivos europeus de descarbonização dos transportes. Os autores consideram que uma trajetória menos dependente da mineração é já tecnicamente possível e economicamente credível.
Reciclar pode poupar o equivalente a seis minas
Uma das oportunidades mais imediatas está na reciclagem. Segundo a análise do Öko-Institut, a reciclagem de baterias poderia permitir à Europa poupar 250 mil toneladas de níquel até 2040.
Para se perceber a dimensão do número, essa quantidade corresponde aproximadamente à produção anual de seis minas de níquel de dimensão média à escala mundial, de acordo com a comparação apresentada no estudo com dados da Benchmark Minerals relativos a 2022.
A reciclagem não elimina, naturalmente, a necessidade de matérias-primas virgens. Mas permite recuperar materiais já extraídos e utilizados, reduzindo a pressão sobre novas operações mineiras e sobre as importações. E esta é apenas uma das possibilidades identificadas.
Carros mais pequenos também contam
O tamanho dos automóveis é outra variável com impacto direto na quantidade de materiais necessários. Baterias maiores significam, em regra, maior utilização de matérias-primas. Por isso, a redução da dimensão dos veículos poderá ter um efeito relevante na procura de metais, sobretudo num mercado europeu onde a tendência tem sido para automóveis cada vez maiores e mais pesados.
O estudo aponta ainda para ganhos associados à eficiência energética dos veículos, à utilização de químicas de baterias que recorram a menos matérias-primas críticas e à substituição de determinados materiais por alternativas.
Mas há uma dimensão que vai além do próprio automóvel: quantos quilómetros são realmente feitos de carro e quantas dessas deslocações poderiam ser realizadas de outra forma?
Transportes públicos mais acessíveis e fiáveis, mobilidade urbana mais eficiente e uma menor necessidade de deslocações de automóvel poderiam reduzir a dimensão da frota necessária e, consequentemente, a quantidade de baterias a produzir.
As contas não se somam
O estudo estima diferentes potenciais de redução da procura de metais através de várias medidas. A reciclagem, a redução da dimensão dos veículos, a eficiência energética e a mudança modal ou redução das deslocações podem representar reduções relevantes face a cenários de continuidade das tendências atuais.
Os dados apresentados pelo Öko-Institut apontam para potenciais máximos de redução que variam consoante a medida. A reciclagem poderá representar uma redução de 22% em 2040, enquanto a mudança modal e a redução das deslocações poderão chegar a 21% em 2050. A redução da dimensão dos veículos surge com um potencial de 19%, e a eficiência energética poderá atingir 23%, de acordo com os estudos analisados.
O documento apresenta ainda diferentes cenários e percentagens para as várias medidas, mas há um detalhe importante: os diferentes valores não podem ser simplesmente somados.
As estimativas resultam de estudos diferentes, com pressupostos diferentes, e algumas das medidas sobrepõem-se. Ainda assim, a conclusão central mantém-se: existe uma margem considerável para reduzir a necessidade de metais sem esperar apenas pelo aumento da oferta.
A Europa já tem onde mexer
A investigação identifica mais de 20 pontos de intervenção nas políticas europeias que poderiam ser utilizados para reduzir a procura de matérias-primas. Entre eles estão o Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas, a legislação sobre baterias e economia circular, as regras de desempenho dos veículos, a rotulagem de eficiência energética, os planos nacionais de clima e os instrumentos de financiamento da União Europeia.
O calendário também já está, em grande medida, desenhado. O estudo identifica oportunidades de intervenção entre 2027 e 2030, incluindo a revisão de metas de incorporação de materiais reciclados, o alargamento dos materiais abrangidos, a definição de metas de capacidade de reciclagem e a revisão da lista europeia de matérias-primas estratégicas e críticas.
A proposta passa ainda por orientar os projetos estratégicos europeus para a circularidade e a substituição de materiais, em vez de concentrar a política de matérias-primas apenas no aumento da oferta.
A ideia é introduzir critérios de eficiência não apenas na energia consumida pelos automóveis, mas também na quantidade de materiais necessários para os produzir. O estudo defende que a eficiência energética e material deve ser integrada nos requisitos aplicáveis aos veículos, incluindo normas de desempenho em matéria de emissões de CO₂ e sistemas de classificação de eficiência energética.
O próximo passo seria, por exemplo, orientar fundos públicos e compras públicas para veículos mais pequenos, leves e eficientes e reforçar os objetivos de incorporação de materiais reciclados.
Mais transportes públicos, menos dependência do carro
A redução da procura não passa apenas por fabricar baterias diferentes ou automóveis mais pequenos. O Öko-Institut aponta também para a necessidade de investir em transportes públicos limpos, acessíveis e resilientes, bem como na revisão dos Planos de Mobilidade Urbana Sustentável.
A lógica é simples: se uma viagem puder ser feita de forma eficiente sem recorrer ao automóvel, deixa de ser necessário fabricar um automóvel — e a bateria, e os metais que essa bateria exige — para realizar essa deslocação.
Por isso, o estudo identifica também instrumentos como o Regulamento RTE-T, os planos nacionais de clima e o comércio europeu de licenças de emissão como potenciais pontos de intervenção.
 
Cinco mudanças para uma Europa menos dependente

 

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