Ciência: O que nos faz ter medo de cobras?
Cabeça triangular, corpo robusto, escamas salientes ou padrões visuais muito marcados.
Algumas características da morfologia das cobras parecem ser suficientes para despertar nos humanos uma resposta de medo, mesmo quando se trata de espécies inofensivas.
Esta é uma das conclusões de um estudo da Universidade de Aveiro (UA) que analisou as reações emocionais de 377 pessoas, em Portugal e no Brasil, perante imagens de 92 espécies de serpentes.
Os participantes de Portugal, país com reduzida biodiversidade de serpentes, e do Brasil, rico em diversidade destes animais, avaliaram imagens de dezenas de espécies, procurando perceber de que forma a aparência das cobras influencia emoções como medo, repulsa, beleza e excitação.
A escolha das serpentes como objeto de estudo não foi casual.
“Estes animais constituem um modelo particularmente interessante para investigar como ameaças recorrentes ao longo da história evolutiva podem ter contribuído para moldar mecanismos de perceção, respostas emocionais e comportamentos que observamos atualmente”, explicam os investigadores.
O medo, neste contexto, “desempenha uma função adaptativa fundamental, preparando o organismo para reagir a potenciais perigos e aumentando as suas possibilidades de sobrevivência”, esclarecem.
Esta perspetiva, salientam, pode ajudar a compreender não apenas o medo das cobras, mas também processos mais gerais envolvidos na forma como os seres humanos percebem e reagem ao ambiente.
O estudo identifica três grupos com respostas emocionais distintas e que se repetiram nos dois países. Um primeiro grupo, associado a níveis elevados de medo, incluía sobretudo víboras, boas e espécies que imitam características de serpentes potencialmente perigosas. Um segundo grupo, caracterizado por valência mais positiva, reunia sobretudo espécies inofensivas, como várias cobras das famílias Colubridae e Dipsadidae. Foi ainda identificado um grupo menor associado a níveis.
Assinado por Luiz Biondi, Fábio Silva e Sandra Soares, do Centro de Investigação William James da UA, e por Samuel Silva, do Instituto de Engenharia Eletrónica e Informática de Aveiro (IEETA), com a colaboração da Universidade de Brasília (Brasil), o estudo foi publicado pela The Royal Society.
Os resultados apontam para a existência de mecanismos de avaliação visual que parecem ser partilhados entre diferentes contextos culturais.
Entre as características associadas às espécies que provocaram mais medo destacou-se uma maior densidade de contornos e padrões visuais. Cabeças triangulares, escamas carenadas e corpos robustos também parecem funcionar como pistas visuais de perigo. Estas características podem influenciar a perceção de ameaça mesmo quando a espécie em causa não representa um perigo real para os seres humanos.
Ou seja, perante um estímulo potencialmente ameaçador, como uma cobra, o cérebro poderá privilegiar a avaliação de sinais de perigo em vez da identificação precisa do estímulo: “Isto parece perigoso?”. A investigação sugere que estas “regras” visuais poderão ter sido moldadas ao longo da evolução, favorecendo a perceção de potenciais ameaças em vez de uma identificação taxonómica rigorosa.
A experiência individual, contudo, também parece desempenhar um papel importante. Os participantes que referiram maior contacto com cobras, sobretudo em ambientes naturais, apresentaram níveis mais baixos de medo, medidos através do Snake Fear Questionnaire.
Os resultados mostram, assim, que a perceção humana das cobras resulta da interação entre características visuais muito salientes e diferenças individuais. A morfologia ajuda a estruturar a perceção de ameaça, enquanto a experiência e as predisposições de cada pessoa parecem influenciar a intensidade da resposta emocional.
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