Título mundial deixou Iúri Leitão com “sentido do dever cumprido”
“Começar a qualificação olímpica o mais alto possível é sempre muito bom. Nós sabíamos que era importante começar bem”, observou o vianense de 28 anos, em entrevista à agência Lusa.
Três anos depois de se ter sagrado campeão mundial de omnium pela primeira vez, Leitão voltou a conquistar o ouro na disciplina, nos Mundiais que decorreram em Xangai e que marcaram o início da qualificação olímpica no ciclismo de pista para Los Angeles2028.
“Dá-nos uma margem de respirar mais tarde, caso seja necessário, ou até de dar oportunidade a outros atletas de competir a mais alto nível. E sair com um ouro e com uma prata das duas modalidades olímpicas logo na primeira oportunidade, e ainda por cima na prova que mais pontos dá, é uma boa situação para nós, deixa-nos confortáveis, relaxados e com o sentido do dever cumprido”, destacou.
Vice-campeão olímpico do omnium em Paris2024, o primeiro português a conquistar duas medalhas na mesma edição dos Jogos Olímpicos – alcançou o ouro no madison com Rui Oliveira – rejeitou que o seu título mundial seja um aviso à concorrência para daqui a dois anos.
“Se formos ver, quem esteve no pódio foram atletas que estiveram na disputa dos Jogos de Paris. […] São atletas que estão ao mais alto nível, já estavam e continuam a estar. E assim como é um lembrete para eles de que eu continuo bem, também é um lembrete para mim de que a concorrência não para de evoluir”, contrapôs.
O corredor da Caja Rural tem dificuldade em comparar os dois títulos conquistados no omnium em Mundiais, lembrando que o primeiro chegou quando estava “a começar a ter melhores resultados”.
“Já tinha sido campeão da Europa duas vezes. Estava pela segunda vez a competir num omnium num Campeonato do Mundo, mas pela primeira vez com mais ambição – ainda que [na primeira] tivesse ficado às portas do pódio. Mas, exatamente por isso, é que eu estava também com uma expectativa de que pudesse fazer um bom lugar”, recorda.
Para Leitão, “foi muito especial” conseguir a sua primeira camisola arco-íris no ciclo olímpico posterior à desilusão que foi Portugal não se qualificar para Tóquio2020 “por um lugar”.
“E, no único Campeonato do Mundo que havia naquele ciclo olímpico, foi extremamente especial começar logo [com] o meu primeiro título e quase que garantir a qualificação, porque a quantidade de pontos que amealhámos nesse dia quase que garantiu a nossa presença, pelo menos na prova do omnium”, pontuou.
Três anos depois, voltou a ser campeão, após não ter conseguido estar na melhor forma nas duas edições passadas – falhou mesmo a de 2024.
“Começamos, às vezes, a pensar que pode ser que nunca mais volte a acontecer esse momento. E foi muito bom realizar que ainda conseguimos estar no topo do mundo”, avaliou.
O olímpico português emocionou-se quando conquistou o ouro em Xangai, explicando que continua a ser um orgulho representar Portugal e revelando que a sua participação chegou a estar em dúvida.
“Depois da viagem, logo no primeiro treino, senti dificuldades físicas, musculares. Tive alguns dias sem poder treinar”, confessou.
Houve algumas dúvidas sobre se poderia competir e toda a equipa “esteve cinco estrelas” a apoiá-lo.
“Desde os meus colegas, que psicologicamente se mantiveram do meu lado e ajudaram-me a estar forte e de cabeça fria, como todo o resto do staff, especialmente os terapeutas e o nosso médico, que fizeram de tudo para que eu pudesse recuperar-me e que estivesse tranquilo até o dia da competição”, contou à Lusa.
Para o vianense, competir “foi um alívio”, ainda que houvesse “algumas dúvidas” da sua parte de que pudesse não estar bem por não ter podido treinar alguns dias.
“Mas, no final, conseguir levar o título foi um alívio de stress. Ainda por cima, o dia do omnium foi um dia muito longo. Estivemos quase 12 horas dentro da pista. Fez-se muito stressante o dia, porque começámos logo na liderança. Era algo que se calhar não era o cenário mais perfeito, ter logo um alvo nas costas”, concedeu.
Quando iniciou a corrida por pontos, Leitão sabia que “estava muito justo”.
“Tinha seis pontos para o segundo, 12 para o terceiro e 14 para o quarto. São margens muito pequenas numa prova em que se ganha 30, 40, 50 pontos, às vezes até mais. Havia muita tensão durante todo o dia para que as coisas corressem bem. Mas muito mais da minha parte do que da parte do selecionador ou dos mecânicos ou do médico. Ninguém estava tão preocupado como eu estava”, reconheceu.
Conquistar o ouro supôs um alívio para Leitão, que ainda se sagrou vice-campeão no madison ao lado de Ivo Oliveira.
“Disse ao Ivo que se não tivéssemos nenhum tipo de azar, se taticamente estivéssemos bem, havia uma possibilidade de fazermos medalha, ainda que as outras seleções fossem muito fortes. E foi isso que aconteceu. Mas sem dúvida nenhuma, os dinamarqueses apresentaram-se mais fortes do que toda a gente”, admitiu.
Lasse Norman Leth e Carl-Frederik Bévort estiveram “muito superiores” e taticamente “muito bem”.
“Se tivesse sido outra seleção a ganhar, seria injusto. E, nós, dentro daquilo que foi a nossa capacidade, fizemos de tudo, técnica e taticamente, para conseguir o melhor resultado possível. E acho que fomos uns justos segundos classificados. A prata assentou-nos muito bem”, concluiu.
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