Mais de um milhão de antiguidades já regressaram ao país de origem. Portugal devolveu ao México
Mais de 1,06 milhões de objetos culturais foram devolvidos aos seus países de origem entre 1950 e o final de 2025, segundo dados do Museum of Looted Antiquities (MOLA). O valor dos objetos para os quais foi possível determinar uma avaliação ultrapassa os 2 mil milhões de dólares (cerca de 1,7 mil milhões de euros), de acordo com a análise divulgada pelo Financial Times.
O MOLA, projeto do norte-americano Achilles Research Group, procura precisamente transformar milhares de casos dispersos numa imagem global das restituições. A plataforma reúne informação sobre peças saqueadas, traficadas, retiradas durante processos coloniais ou pertencentes a comunidades indígenas e acompanha, sempre que possível, o percurso dos objetos desde a sua origem até ao regresso.
O número impressiona, mas deve ser lido com alguma cautela. Segundo o MOLA, a sua base de dados ainda está em construção e os registos podem ser atualizados à medida que surgem novas informações. A definição utilizada é também mais abrangente do que a ideia tradicional de “antiguidade”, incluindo objetos culturais, arqueológicos e etnográficos com relevância patrimonial.
Entre os países que mais receberam património estão Egito, Itália e Arábia Saudita, todos com mais de 30 mil objetos contabilizados no período analisado. Do lado dos países que devolveram, os Estados Unidos lideram, com 81 museus responsáveis pelo regresso de cerca de 101 mil peças, segundo os dados do MOLA citados pelo Financial Times.
Uma parte extraordinariamente grande da contagem resulta de um único caso. Em 2012, foram devolvidas a Espanha cerca de 595 mil moedas provenientes do chamado “Black Swan”, um tesouro recuperado de um naufrágio do século XIX. O caso entrou na contabilização do MOLA, embora tenha características muito diferentes das restituições de peças arqueológicas roubadas individualmente.
A tendência de devolução também ganhou velocidade. De acordo com o MOLA, os processos de repatriamento começaram a aumentar a partir de meados da década de 1990 e aceleraram depois de 2020, aproximando-se dos 150 casos em 2024, último ano completo disponível na análise.
Há exemplos recentes que ajudam a perceber o que está por trás dos números. Em setembro, o Ministério Público de Manhattan anunciou a devolução à Grécia de 15 antiguidades avaliadas em quase 3 milhões de dólares (cerca de 2,6 milhões de euros). A operação fez parte de uma colaboração mais ampla entre as autoridades norte-americanas e gregas para recuperar património retirado ilegalmente do país.
Os Benin Bronzes são outro dos grandes símbolos desta mudança. Segundo o Financial Times, a plataforma Digital Benin já documentou mais de 5.300 objetos relacionados com o saque de Benin City pelas forças britânicas, em 1897. Cerca de 1.200 peças foram entretanto devolvidas à Nigéria por instituições de vários países.
E Portugal também aparece neste mapa. Em 2026, Portugal devolveu ao México três objetos arqueológicos pré-colombianos, naquela que foi apresentada como a primeira restituição portuguesa deste tipo ao país latino-americano. Entre as peças estavam uma figura feminina associada à cultura Shaft Tomb, um recipiente maia pintado e uma urna zapoteca. A informação foi divulgada pela Polícia Judiciária portuguesa e posteriormente destacada pelo próprio MOLA.
A questão está longe de ficar encerrada. A própria equipa do Digital Benin sublinha que continua a ser necessário investigar a origem das peças, perceber como foram adquiridas e reconstruir os percursos que as levaram até museus e coleções privadas. O milhão de objetos devolvidos é, por isso, menos um ponto final do que uma medida da dimensão de uma história que ainda está a ser escrita.
A arte, afinal, também deixa rasto. Às vezes, esse rasto atravessa continentes, guerras, impérios e gerações. E agora começa finalmente a ser contado.
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