Quando o sonho se partiu a 300 metros da chegada: a lenda do RAC 1998: “Trata de arrancarlo, Carlos!
Há 28 anos, num outono inglês de 1998, o mundo dos ralis testemunhou um dos seus mais cruéis e inesquecíveis dramas. Foi no dia 23 de novembro, e o RAC Rally prometia ser o palco de uma consagração. Não apenas para Richard Burns, o herói local que dominou as o cronómetro nas classificativas, mas para uma dupla que tinha o terceiro título mundial de Ralis ao seu alcance: Carlos Sainz e Luis Moya.
O peso da glória à vistaA bordo do seu Toyota Corolla WRC, “El Matador” e o seu fiel navegador, Luis Moya precisavam apenas de um quarto lugar para selar a coroa, e seguiam confortavelmente na terceira posição. A tensão era palpável, mas a confiança de que o objetivo estava prestes a ser alcançado era geral. A festa, essa, já se preparava.
Os 300 metros mais longínquos da história do WRCMas o destino, caprichoso e impiedoso, tinha outros planos. A meros 300 metros do final da derradeira classificativa, com a meta quase visível, o impensável aconteceu. O motor do Corolla WRC engasgou-se, uma biela entregou a alma ao Criador. O sonho desfez-se em fumo, literalmente, com chamas a irromper sob o carro.
“Trata de arrancarlo, Carlos! Trata de arrancarlo!… Trata de arrancarlo, por Díos!” – ecoavam os gritos desesperados de Luis Moya, a sua voz carregada de angústia e incredulidade. Impotente, o madrileno nada podia fazer. O motor tinha dado as últimas. A frustração de Moya explodiu num gesto icónico e eterno: o capacete atirado contra o óculo traseiro, estilhaçando o vidro em mil pedaços – uma imagem que se gravou para sempre na memória coletiva dos amantes dos ralis: “O motor rebentou a 500 metros do fim da última classificativa”, recordaria Sainz, incrédulo. “Não houve aviso nenhum. Absolutamente nada.”
Um título roubado e um campeão inesperadoEnquanto o Ford de Bruno Thiry passava pelo Toyota imobilizado, o campeonato mudava de mãos da forma mais dramática. Tommi Mäkinen, que já se preparava para rumar à Finlândia após um abandono precoce no seu Mitsubishi Lancer, recebeu o telefonema mais improvável: era o campeão mundial. Uma ironia cruel do desporto que só os ralis podem proporcionar.
“Foi o pior dia da minha vida”, confessou Luís Moya anos mais tarde. “O Carlos sabia que o motor estava partido, mas pensava que desse para chegar ao fim… Perder da forma como perdemos, não o desejo a ninguém!” O choque era palpável, não só para a dupla, mas para a equipa da Toyota e para os mais próximos. “Não sabíamos o que se passava. Escutávamos os gritos pelo ‘walkie talkie’, mas nem de longe podíamos imaginar que o carro tinha parado!” – recordou Juanjo Lacalle, manager e amigo de Sainz.
O eco de uma lenda inesquecívelEste episódio, um autêntico drama inglês, transcendeu o desporto, tornando-se uma lição de resiliência e a prova da imprevisibilidade que tanto apaixona nos ralis. Vinte e oito anos depois, os 300 metros finais do RAC de 1998 ainda ressoam, um eco saudosista de um momento que, pela sua brutalidade e pela paixão que evoca, se tornou eterno na história do desporto automóvel.
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