Samotrácia em Lisboa pelas mãos de Sam Baron
O inesperado acontece quando somos arrebatados por algo. Pode ser uma fragrância, uma paisagem, um livro, uma pintura. Não acontece a todo o instante, claro. Menos ainda quando o arrebatamento envolve moldes antigos que deram vida a esculturas mas que, sem elas dentro, ficaram órfãos de sentido. Alinhados ordeiramente em estantes a perder de vista nos dois pisos cimeiros do ateliê da Réunion des Musées Nationaux (RMN), despertaram a curiosidade de Sam Baron, designer francês que vive e trabalha entre Portugal e França.
Foi naquela instituição pública francesa, dedicada à valorização e divulgação do património dos museus nacionais, que Baron descobriu a porosidade que queria explorar entre design e escultura. Entre o que vai ser descartado e o que ganha uma segunda vida. Assim começou a ganhar forma o projeto artístico que agora se espraia pela mezzanine do Bairro Alto Hotel e pela sua Galeria, na rua do Alecrim, em Lisboa.
Durante três anos, Sam Baron visitou regularmente o ateliê, conheceu os seus artesãos, estudou os arquivos e trabalhou com os departamentos de moldes em gesso e metal. Por diversas vezes expressa o seu assombro pela minúcia do trabalho desses artesãos, em tudo oposto ao frenesi do mundo digital, em que tudo é passado ainda no presente. A vertigem do scroll ali não entra. Antes prevalece um ritmo biológico natural, que também imprimiu à sua investigação.
E daqui nasceu uma série de esculturas – próximas da instalação artística – que propõem uma nova leitura de figuras e fragmentos da escultura clássica. “Rostos/Visages”, assim se intitula a exposição, mostra pela primeira vez o seu processo criativo escultórico. Ele que tem vindo a somar prémios e reconhecimento na área do design.
Que rostos são estes?
Baron não procura responder a esta pergunta. Nem a nenhuma outra em particular. O exercício é deixar a imaginação fluir. Em “Rostos”, as reproduções em gesso de obras históricas são retiradas, sem cerimónia, do seu contexto habitual. E antes de darmos mais pistas sobre esta desconstrução, partilhamos o espanto por aqui encontrarmos um elemento figurativo deveras familiar. Mas numa escala muito menor àquela que conhecemos. As asas da Vitória de Samotrácia, a bela e etérea escultura da deusa alada que é, também, uma das obras mais emblemáticas do Museu do Louvre, em Paris. Mesmo quem não se rende ao estilo helenístico, dificilmente lhe resiste. E mesmo que celebre uma batalha, é a riqueza plástica transmitida pela torção do corpo e pelo movimento das vestes que ficam gravados na memória.
Baron descobriu no ateliê da RMN três conjuntos de moldes em três escalas diferentes para esta deusa e escolheu um. Reinterpretou-o criando uma escultura que funciona em osmose com uma estrutura metálica por si desenhada e que, mais do que um simples suporte, é parte integrante da obra. Um processo que aplica às seis obras escultóricas que apresenta na Galeria do Bairro Alto Hotel, conferindo-lhes novas posições, equilíbrios e significados.
Uma exposição para ver e fruir esquecendo que, lá fora, a cidade palpita. Aqui, o tempo fica suspenso. Cortesia de Sam Baron, um dos mais estimulantes e criativos designers franceses, que vive e trabalha entre Portugal e França. Uma carreira marcada por colaborações com marcas internacionais como Maison Dior, Diptyque e De La Espada, e por uma década à frente da direção de design da Fabrica, o centro internacional de investigação criativa da Benetton, em Treviso, Itália. E pela presença em mostras organizadas pelo New Museum e o Cooper Hewitt, em Nova Iorque; Centre Pompidou e Grand Palais, em Paris; e Triennale di Milano.
Em “Rostos”, Baron faz aquilo que sempre tem feito: surpreender.
“Rostos/Visages”, de Sam Baron | Até 12 dezembro | Mezzanine e Galeria Bairro Alto Hotel, Lisboa
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