Sarah Rumeau: “nos ralis, com trabalho, somos capazes de fazer as mesmas coisas”
Sarah Rumeau já não lhe interessa somente vencer a taça feminina. Quer aprender, evoluir porque nos ralis o talento e o trabalho não têm género.
Sarah Rumeau quebrou uma barreira de 40 anos no Campeonato Francês de Ralis de Terra e conquistou, com Julie Amblard, um título histórico para uma dupla feminina. Ao volante do Škoda Fabia RS Rally2 das Iron Dames, a piloto francesa, que marcou presença no Rali 6 Cidades Norte de Portugal, fala das vitórias que marcaram a sua progressão, da exigência de competir ao mais alto nível e da sua visão sobre a presença feminina num desporto ainda dominado pelos homens.
AutoSport: Conquistaste duas vitórias muito importantes. O que significam para ti esses triunfos e o que sentiste ao alcançá-los?SR: “Sinceramente, são sempre o culminar de um trabalho, porque tudo isto exige muito investimento. É muito bom, vivemos para isto, mas é verdade que, quando temos uma recompensa no final, é realmente magnífico. São emoções que gostaríamos de viver todos os fins de semana. Aliás, acho que também é por isso que todos praticamos desportos como os ralis, ou outros desportos que podemos considerar bastante extremos: são uma montanha-russa de emoções. Por vezes corre bem, outras vezes não. O desporto com tanto em jogo é um pouco assim.Foram momentos muito especiais, que também vieram assinalar a nossa progressão. Comecei em 2021, sem experiência, por isso conseguir isto na categoria principal é muito gratificante.”
AutoSport: Muito gratificante…SR: “Sim, podemos dizer o que quisermos, mas, quando ganhamos, seja em que desporto for, sentimos algo de especial. Estou contente por ter podido viver isso este ano. Além disso, com tudo isto, conseguimos conquistar o título, o que é maravilhoso para uma dupla feminina, porque foi a primeira vez que aconteceu no mundo.Estou mesmo muito, muito feliz por partilhar isto com a minha copiloto, a Julie, que tem uma grande parte do mérito, com a minha equipa e com os meus parceiros. Na verdade, são sempre vitórias coletivas.”
AutoSport: E neste desporto isso é ainda mais especial, porque se perde mais vezes do que se ganha. É ainda mais difícil: só há um lugar que dá direito à vitória.SR: “Sim, sem dúvida. É verdade que é um desporto um pouco ‘ingrato’, entre aspas, no sentido em que, por vezes, um simples furo pode mudar o rumo de uma prova ou de um campeonato. É uma espécie de montanha-russa e acho que também é isso que nos dá tanta adrenalina.”
AutoSport: Temos de falar também da presença feminina, porque este ainda é um desporto muito ligado aos homens. Quando uma mulher consegue chegar onde chegaste e vencer, isso ganha uma importância acrescida no teu percurso? É uma das suas dimensões mais importantes?SR: “Não sei bem o que responder, porque entrei nos ralis com a ideia de que somos todos capazes de fazer as mesmas coisas. Em desportos como o boxe ou modalidades de força, existe uma diferença fisiológica. Mas aqui, para rodar o volante, temos ajudas. Quero dizer, já não são os carros de antigamente: existe direção assistida. Por isso, se treinarmos, somos realmente capazes de fazer as mesmas coisas.É isso que é interessante: pensar que temos um carro nas mãos, uma ferramenta que precisamos de explorar ao máximo, e que competimos numa classificação mista. Não existe uma vantagem particular para um ou para outro.Acho que dizer que há classificações femininas acaba por ser, de certa forma, pejorativo. Penso que, com trabalho, todos somos capazes de alcançar coisas boas. Por vezes, também é preciso dar tempo ao tempo, porque pôr tudo isto em prática demora.Sei que sou uma eterna impaciente e, por vezes, é preciso deixar que a experiência faça o seu trabalho. É preciso esperar um pouco até conseguirmos um resultado que recompense esse esforço.”
AutoSport: Achas que já não precisamos de uma taça feminina, que devemos juntar todos os concorrentes e depois ver quem é o melhor? Consideras que essa é a melhor opção?SR: “Para ser sincera, quando comecei nos ralis, em 2021, conquistei logo o título feminino. Isso também me permitiu ter alguma visibilidade, à minha escala. Havia várias outras concorrentes e fiquei contente por chegar e ganhar logo, sem conhecer muito bem os ralis.Mas, passado um ano, já não queria pensar nisso, por assim dizer, porque queria algo que me puxasse para cima. Podemos dizer o que quisermos, mas, quanto mais elevado é o nível, mais aprendemos.Não estou a dizer que é bom ou que é mau. Digo apenas que, se estivermos constantemente a falar dessa diferença, ela vai continuar a existir. É um pouco assim que penso.Quanto mais exigentes forem os campeonatos e quanto maior for a concorrência, mais progredimos. Nem sempre é fácil aceitar isso, porque, por vezes, não ficamos satisfeitos com o resultado. Mas acho que é preciso esperar um pouco e trabalhar, trabalhar ao máximo, para um dia lá chegar.”
FOTOS @World
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