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João Pedro Taborda: “Europa deve ser seletiva: cooperar em quê e com quem?”

João Pedro Taborda: “Europa deve ser seletiva: cooperar em quê e com quem?”

O EuroAmericas Forum 2026, que se realiza nos dias 2 e 3 de novembro em Carcavelos, vai debater os desafios mais prementes da nunca antes tão complicada geopolítica internacional, onde a Europa deverá ter um papel que não parece estar ainda totalmente definido. Um dos intervenientes mais aguardados é João Pedro Taborda, vice-presidente para Assuntos Governamentais na Europa da Embraer e membro do Conselho da Diáspora Portuguesa. Que concedeu uma entrevista ao JE em que deixa precisas mensagens sobre a pressão para reforçar a autonomia estratégica europeia.
 
“Pode a Europa ser estrategicamente autónoma sem se tornar economicamente isolada?” é o mote da sua intervenção. Como é que a Europa vai ser estrategicamente autónoma se está no seio da NATO?
Os temas da Defesa estão no centro desta discussão, mas alargaria o âmbito da vossa pergunta ao que é a defesa da soberania, incluindo a defesa de interesses da sociedade no seu todo. Ser autónomo à conta do isolamento traz riscos, e não me parece que a Europa queira ir nessa direção. Vemos países europeus no nível bilateral, e a União Europeia estão a promover várias aproximações com blocos e países fora da Europa.
Construir autonomia significa implementar a estratégia que gera vantagens competitivas em cima de uma soberania sólida. Desde assegurar-se a alimentação de uma população até às tecnologias que a protege, passando pela infraestrutura que suporta sua mobilidade, a que fornece a energia ou a que assegura que os seus cidadãos comuniquem entre si.
A NATO é uma aliança onde os países se sentam à mesa há quase 80 anos e onde alinham o melhor da sua informação para definir prioridades e operar de forma coordenada. Um princípio válido para muitas coisas, e para o que a Europa está a tentar fazer.
Como união de países, a Europa deve acelerar a definição das suas prioridades como o está a fazer, e implementar as ações que decorrem, incluindo com instituições de países terceiros. Seja no desenvolvimento e retenção de talento, comércio em geral, defesa, tecnologia de duplo-uso, ou recursos naturais estratégicos.
 
Como é que a Europa ganha autonomia estratégica se não tem autonomia tecnológica?
Nunca de um dia para o outro, apesar do maior alinhamento e coordenação que existe hoje. A Europa deve ser seletiva nas parcerias que lhe interessam, sem se contrariar nos valores onde apoia o papel que quer ter no Mundo, mas sendo concreta no ‘cooperar em quê e com quem?’. E sempre flexível para antecipar e agir em função das mudanças no cenário geopolítico.
Os últimos anos trouxeram muitas surpresas, quase todas delas com novos desafios. Empresas, nações e alianças precisam dessa flexibilidade para tomarem as melhores decisões. E este não é apenas um trabalho dos Estados. As empresas querem fazer avançar o seu negócio e devem desenvolver o seu próprio trabalho de diplomacia económica, entendendo os cenários e trabalhando com os decisores e formadores de opinião que as possam apoio. Dentro e fora da Europa.
 
A NATO tem uma agenda que implica um alinhamento entre a Europa e os EUA. Entre outras coisas, os EUA exigem que a Europa continue a abastecer-se no mercado norte-americano de armamento. Sendo assim, como é que a Europa ganha autonomia industrial, como diz que quer?
A Europa, as suas nações e organizações – de novo, as empresas incluídas – devem trabalhar para comprar o que entendem ser o melhor para elas, colocando os critérios que considerem o propósito de uma organização e a sua reputação, ambas críticas à sua operação. E isto é válido também no momento de escolherem os seus fornecedores, seja eles europeus ou não.
O tema da autonomia pode alterar o peso desses critérios. Por exemplo, e para uma multinacional com uma cadeia de fornecedores onde tenha visto organizações isoladas e sem as poder abastecer durante a pandemia ou no resultado dos conflitos armados mais recentes, pode decidir que, apesar de ‘melhor e/ou mais barato’ aquele fornecedor traz riscos e que é melhor escolher outro. Pagar a diferença se for o caso, mas ficar mais sossegado.
Seja em que setor, grandes investimentos públicos tendem a ser complexos. Seja pelo montante de dinheiro de contribuinte envolvido, seja também pela intervenção dos Governos das entidades vendedoras que muitas vezes acontece. A decisão é sempre difícil e pode não agradar a todos, mas prioridades claras ajudam sempre a terem-se critérios robustos para decidir. Como exemplo, se um dos critérios de escolha for a forma como o vencedor traz consigo um elemento de partilha de conhecimento, ou de cooperação em investigação e desenvolvimento tecnológico.
 
Acredita que a indústria europeia pode atingir essa autonomia. Conhece casos concretos de empresas europeias que, no último ano, tenha conseguido encaixar-se em cadeias de fornecimento internacionais da indústria do armamento? Há exemplo de empresas portuguesas que já o tenham conseguido?
Sim. A indústria europeia deve continuar a fazer o seu caminho no mesmo princípio. Quem é o cliente, o fornecedor ou o parceiro que é melhor para avançar o meu negócio, mesmo que estejam fora do mapa da Europa.
Quanto mais estratégico aquilo que se vende, mais importante é para uma empresa pensar no perpetuar da atividade e pensar na sua própria atuação diplomática junto dos decisores e formadores de opinião. Por exemplo, na aeronáutica, uma relação cliente/fornecedor pode ultrapassar as quatro décadas e as empresas têm de demonstrar aos seus clientes, por vezes governos, que estão para ficar por muitos anos. Informar quem precisa ser informado é um trabalho grande que leva o seu tempo e que sempre testa a paciência estratégica de quem vende.
Nos exemplos, temos visto e não duvido que vamos continuar a ver investimentos importantes em Portugal nas duas últimas décadas, e que colocam o país no mapa global dos negócios de alta tecnologia. As exportações têm aumentado, e vemos o setor público mais alinhado com o setor privado, a viajar e a promover as capacidades do país nessas empresas de base tecnológica. Existem hoje clusters maiores e mais organizados, e também por aí têm surgido exemplos de empresas a exportar mais, e mais tecnologia.

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