A vacinação não tem idade
A campanha de vacinação contra a gripe e a Covid-19, que agora decorre, constitui um importante momento de sensibilização e proteção da população, particularmente das pessoas mais vulneráveis. Portugal tem uma longa e reconhecida tradição de vacinação, sustentada no sucesso do Programa Nacional de Vacinação (PNV) e na confiança que este conquistou junto da população. Esta é uma base sólida sobre a qual podemos continuar a evoluir.
Num país cada vez mais envelhecido e com elevada prevalência de doenças crónicas, importa reforçar uma visão da vacinação ao longo de toda a vida. O PNV já contempla a vacinação na idade adulta, nomeadamente contra o tétano e a difteria, existindo também outras estratégias e recomendações vacinais complementares. Contudo, a visibilidade e mobilização conseguidas pelas campanhas sazonais contra a gripe e a Covid-19 poderiam servir de exemplo para uma comunicação mais abrangente sobre outras vacinas relevantes nesta fase da vida, como as dirigidas à doença pneumocócica, ao vírus sincicial respiratório e ao herpes zoster. Ampliar esta abordagem permitiria aproveitar uma das grandes conquistas da saúde pública portuguesa para responder a novas necessidades de prevenção.
A experiência clínica mostra-nos que as doenças infeciosas podem ter consequências particularmente relevantes nas pessoas mais velhas. Mesmo infeções habitualmente consideradas pouco graves podem desencadear descompensações de doenças crónicas, perda de capacidade funcional, hospitalizações e, em situações mais graves, aumentar o risco de dependência, institucionalização e mortalidade. Por vezes, ultrapassada a fase aguda, a pessoa não recupera o nível de autonomia que tinha anteriormente. Prevenir estas doenças é, por isso, muito mais do que evitar episódios de infeção: é também preservar funcionalidade, independência e qualidade de vida, dimensões fundamentais de um envelhecimento saudável.
O herpes zoster, habitualmente conhecido como zona, é um exemplo particularmente expressivo. Resulta da reativação do vírus da varicela, que permanece no organismo após a infeção inicial, tornando-se mais frequente com o avançar da idade e em pessoas com alterações da resposta imunitária. Uma das suas complicações mais incapacitantes é a nevralgia pós-herpética, caracterizada por dor persistente após a resolução das lesões cutâneas. Esta dor pode prolongar-se durante meses, por vezes anos, comprometendo o sono, o estado de ânimo, a realização das atividades quotidianas e a participação social. A prevenção de uma doença com este potencial impacto assume, por isso, particular importância nas pessoas mais velhas e naquelas com maior vulnerabilidade clínica. Neste contexto, a eficácia da vacina recombinante contra o herpes zoster merece destaque.
Um estudo publicado em 2016, no New England Journal of Medicine, envolvendo adultos com 70 ou mais anos, demonstrou uma eficácia próxima de 90% na prevenção da doença, com resultados semelhantes nos participantes com 80 ou mais anos. Trata-se de um resultado particularmente expressivo, sobretudo considerando a imunossenescência, ou seja, as alterações da resposta imunitária associadas ao envelhecimento. Mais recentemente, dados de seguimento até 11 anos após a vacinação, confirmaram a persistência de uma proteção clínica elevada. Esta combinação de eficácia e duração da proteção constitui um argumento científico relevante a favor da vacinação, sobretudo numa população em que as complicações podem ter consequências tão significativas.
Em 2026, o Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna publicou na Acta Médica Portuguesa recomendações que salientam a importância da vacinação na promoção do envelhecimento saudável, incluindo a vacinação contra o herpes zoster a partir dos 50 anos e em adultos mais jovens com risco elevado. Contudo, a existência de vacinas eficazes e de recomendações científicas claras não é, por si só, suficiente para garantir o seu impacto na saúde da população. A recomendação médica é fundamental, mas a adesão à vacinação depende também da acessibilidade. O custo de algumas vacinas pode constituir uma barreira importante, sobretudo para pessoas com menores recursos económicos. Esta questão assume particular relevância quando as dificuldades de acesso afetam indivíduos com maior risco de doença e complicações. É o caso da vacina recombinante contra o herpes zoster, que não está incluída no PNV nem beneficia atualmente de comparticipação, ao contrário da anterior vacina viva atenuada, entretanto descontinuada.
Facilitar o acesso à vacinação é, assim, não apenas uma questão de equidade, mas também de efetividade das estratégias preventivas. Além do benefício individual, a prevenção deve também ser valorizada numa lógica de organização e sustentabilidade dos cuidados de saúde. Evitar a zona e as suas complicações pode contribuir para reduzir os custos associados ao tratamento, às hospitalizações, à utilização de recursos de saúde e às consequências sociais da perda de autonomia ou do absentismo laboral. O projeto +Prevenção mostrou que, em 2023, os cuidados preventivos representavam 2,3% da despesa corrente em saúde em Portugal, face a uma média europeia de 3,7%. Reforçar o investimento em intervenções preventivas de eficácia demonstrada constitui, assim, uma oportunidade para melhorar os resultados em saúde e promover uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis.
Neste âmbito, a experiência de outros países europeus pode contribuir para esta reflexão. Observa-se uma tendência crescente para integrar a vacinação contra o herpes zoster nas estratégias de prevenção do adulto, através de recomendações adaptadas à idade e ao risco clínico, acompanhadas de diferentes mecanismos de financiamento.
A análise destas experiências poderá contribuir para identificar soluções adequadas à realidade portuguesa, conciliando benefício clínico, equidade no acesso e sustentabilidade dos recursos disponíveis. Reconhecendo que os recursos do SNS são limitados e que as decisões de financiamento exigem uma avaliação criteriosa das prioridades, parece pertinente estudar modelos que permitam alargar progressivamente o acesso à vacinação contra o herpes zoster, nomeadamente através da sua inclusão no PNV para grupos prioritários e da eventual comparticipação para outros grupos com indicação clínica. A avaliação económica destas opções deverá considerar não apenas o custo da vacinação, mas também os custos assistenciais e sociais potencialmente evitáveis.
O sucesso do PNV e a evidência científica disponível oferecem uma base sólida para continuar a desenvolver a vacinação ao longo da vida. A experiência europeia pode contribuir para encontrar soluções equilibradas, num diálogo construtivo entre profissionais de saúde, sociedades científicas e responsáveis pelas políticas de saúde. Porque investir em prevenção é, acima de tudo, investir na autonomia, na qualidade de vida e na oportunidade de envelhecer com saúde.
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