O Chega já não basta? A hora da verdade
A cavalgada histórica do partido de Chega tem sido o marco mais relevante da democracia portuguesa na última década, influenciando os discursos, a agenda mediática e as relações entre os vários partidos em competição. Porém, depois de sete anos de fartura e de justificado êxtase nas suas fileiras, aproxima-se um momento de clarificação e de escolha de um rumo.
O Chega soube capitalizar, no momento certo, uma insatisfação eleitoral que começava a ganhar expressão face ao excesso de imigração, à depauperação dos serviços públicos, ao aumento da insegurança, à instabilidade laboral, ao preço da habitação e dos bens essenciais e à falta de responsibilização das elites nacionais e supranacionais tecnocráticas. Aos motivos de ordem material, somavam-se os apelos à continuidade identitária face à fragmentação cultural e a defesa das referências morais, sociais e familiares tradicionais, tão contestadas pela ofensiva cultural da esquerda progressista identitária, cosmopolita, igualitarista, feminista e multiculturalista.
Pela sua habilidade em saciar o mercado eleitoral num momento de crise do centrão, e por falta de concorrência neste vácuo, o Chega colheu os frutos num terreno que não era cultivado há quase meio século, depois do longo período de servidão à terminologia e objectivos da esquerda. Porém, o partido cresceu não só por atrair os eleitores que projectaram nele a representação da tendência identitária patriótica e populista, mas também todo um conjunto de eleitores que se identificaram com o estilo de contestação ao sistema, com propostas de intervencionismo estatal, além de todo um leque de agentes que se atraíram racionalmente pela mera oportunidade de alcançar cargos políticos.
Toda esta amálgama pode converter-se agora no maior embaraço do partido. Considerando que a falta de consistência ideológica tem sido a estratégia de crescimento até aqui, posições mais assertivas quanto à economia, à moral, aos interesses geoestratégicos ou à identidade nacional ameaçarão esvaziar ligeiramente o balão que se insuflou neste percurso. Claro que quem se aproximou por mero oportunismo político também terá flexibilidade de princípios e não se demoverá. O mesmo talvez não se possa esperar daqueles que se enamoraram pelo Chega por ideais mais puristas de reforma profunda do sistema ou de resistência cultural aos sinais de declínio civilizacional.
Com 60 deputados, amplo tempo de antena, e com protagonismo enquanto líder da oposição, é chegada a hora da verdade: as sondagens muito favoráveis ao partido levarão Ventura a avançar um projecto para o país ou, pelo contrário, seduzido pela aproximação ao poder, irá moderar-se e abdicar de algumas bandeiras que mobilizaram o seu eleitorado?
Alguns sinais mostram a hipótese da moderação como mais provável. Desde logo, Ventura tende a demarcar-se dos seus homólogos europeus quando as situações lhe soam eleitoralmente penalizadoras. Ainda que a partilha de uma mesma matriz nacional-conservadora e populista não implique consensos absolutos ou seguidismo, a solidariedade institucional entre forças políticas da mesma família deveria, pelo menos, aconselhar maior prudência discursiva, para não passar a imagem de líder vacilante. Um segundo exemplo revelador é a existência de um “governo sombra” completamente hibernado, passando a imagem de omissão e de falta de autonomia para arriscar propostas concretas, inclusive em sectores tão urgentes como a educação, a saúde, a habitação e o apoio à família.
Por último, veja-se a postura de consensualismo performativo que Ventura usou para apaziguar jornalistas num invulgar formato estreado na CNN no final de Outubro. Adoptou um discurso redondo e de cedência ao centro, nomeadamente ao mostrar-se mais favorável à assimilação cultural dos imigrantes e também ao afirmar que Flávio Bolsonaro não deveria ter saído do Brasil após as eleições para que pudesse enfrentar a justiça (à semelhança do que fez com Marine Le Pen no passado). Não é fácil saber se Ventura aprecia ser agradável, se apresenta sinais de cansaço, ou se escolheu aproximar-se de um discurso mais moderado para preparar o caminho para o poder. Poderá ser uma mistura destes três e, pela experiência que lhe conhecemos, será sobretudo a terceira, a habilidade para se ajustar ao poder.
Num cenário de reajuste do Chega ao centro, aumentará, logicamente, a procura por projectos políticos que absorvam os temas negligenciados. A afirmação de outras correntes da direita identitária, que têm vindo a ganhar expressão em vários países europeus, poderá passar pela exploração de quatro domínios: um discurso coerente em favor da remigração, assente em critérios etnoculturais e na rejeição da imigração como resposta ao declínio demográfico; a revalorização do conservadorismo dos costumes, focado na estabilidade dos vínculos sociais e na defesa da família tradicional; a afirmação de uma direita de princípios menos centrada no culto da personalidade, mais centrada na consistência doutrinária e no primado das instituições; e o avanço de propostas de políticas públicas que respondam a questões como, a crise habitacional, a deterioração do desempenho escolar, a sustentabilidade das pensões e a quebra da natalidade.
Há muito terreno por desbravar à direita do Chega, porém, conquistar voz nesse espaço exigirá convicções firmes, coragem para romper com o conformismo, capacidade de mobilização colectiva e, acima de tudo, uma liderança agregadora que saiba colocar o projecto acima das ambições pessoais. É essa maturidade política que poderá firmar uma alternativa credível, de matriz inequivocamente nativista.
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