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Angariação de fundos ganha associação própria em Portugal que quer chegar aos 100 membros, diz presidente da APF

Angariação de fundos ganha associação própria em Portugal que quer chegar aos 100 membros, diz presidente da APF

Esta sexta-feira, dia 6 de novembro, a Associação Portuguesa de Fundraising (APF) é apresentada oficialmente. Trata-se de uma associação que tem como missão valorizar e qualificar os profissionais de angariação de fundos em Portugal e promover boas práticas que reforcem a transparência, a confiança dos doadores e a sustentabilidade das organizações sociais.
Neste contexto Rui Silvestre, presidente da Associação Portuguesa de Fundraising, em entrevista ao Jornal Económico, defende a criação de códigos de ética e boas práticas e quer chegar rapidamente aos 100 associados. A nova associação quer reforçar transparência e profissionalizar angariação de fundos em Portugal.
Por que razão surge agora a Associação Portuguesa de Fundraising (APF), que lacunas pretende preencher, como quer valorizar a profissão e que impacto espera ter no setor?
A APF surge para contribuir para a valorização da atividade de angariação de fundos no nosso país e para a criação de um contexto mais favorável à profissão. A lacuna existente é precisamente a de não haver um órgão que represente os profissionais do setor em Portugal, aliás somos dos poucos países da UE nesta situação. Com esta representação, com esta voz, procuramos contribuir para a sustentabilidade das organizações do 3º setor, e essa é, na essência, a razão de ser da profissão e nossa missão. É aí que pretendemos fazer sentir o nosso impacto, na resiliência e sustentabilidade das organizações.
Qual é hoje o principal desafio das organizações portuguesas na angariação de fundos: captar novos doadores, fidelizar os existentes ou conseguir donativos de maior valor?
O setor é muito diverso e cada organização tem os seus desafios específicos. Teremos muitas organizações numa e noutra situação, ou até em ambas, dependendo do grau de maturidade com que abordam esta área. Mas no nosso entender, de uma forma geral, o principal desafio é que o setor perspetive a angariação de fundos como um eixo estratégico da sua inserção social e da sua sustentabilidade.

“A profissionalização da atividade é condição fundamental para a previsibilidade e regularidade das doações”

A APF vai captar doações só em Portugal ou também no estrangeiro? Há muitos doadores em Portugal? Existe em Portugal uma cultura de doação suficientemente desenvolvida? O que falta para que os donativos sejam mais regulares e previsíveis?
São questões muito diferentes. A doação faz parte da cultura portuguesa. Temos o exemplo das Misericórdias que são das instituições mais antigas do mundo e em cuja génese está a atitude filantrópica. De referir também que um inquérito de 2025 da Fundação La Caixa concluiu que os portugueses têm uma perceção desvalorizada da sua participação filantrópica, que é maior do que aquilo que referem. O que reforça a necessidade da ação dos fundraisers e da APF.  A profissionalização da atividade é condição fundamental para a previsibilidade e regularidade das doações.
Sobre a primeira questão a APF vai captar fundos para a sua atividade e naturalmente fá-lo-á em primeiro lugar no nosso país. Mas a angariação de fundos no estrangeiro é uma ação natural para muitas organizações quer pelo peso da comunidade emigrante nacional e a sua relação com o pais, quer pela comunidade estrangeira que reside ou tem investimentos em Portugal.
Qual é o nível de maturidade do fundraising em Portugal quando comparado com outros países europeus? Em que aspetos estamos mais atrasados?
O fundraising como atividade no nosso país não é muito diferente da generalidade dos outros setores. Temos muitos casos de sucesso e excelentes exemplos mas falta uma abordagem mais generalizada e transversal ao setor. Temos organizações com uma abordagem do fundraising perfeitamente estruturada e consolidada, ao nível do melhor que se faz no resto do mundo.  Temos profissionais reconhecidos internacionalmente. Infelizmente estes casos ainda não são os mais frequentes e esta abordagem não é tão adotada como achamos que pode ser e essa é também uma das razões da criação da APF.
Quais são os principais objetivos da Associação no primeiro ano de atividade? E que metas concretas estabeleceram para os primeiros anos?
Em primeiro lugar pretendemos associar o maior número possível de profissionais do setor. Procuramos dessa forma reunir representatividade e conhecimento. Isso é essencial para podermos orientar a nossa atividade futura. Em segundo, e porque queremos contribuir para a valorização, qualificação e credibilidade da profissão promoveremos, o Código de Ética e de Boas Práticas como instrumentos que pretendemos desenvolver a curto prazo. A representação internacional e a inclusão de Portugal nos estudos e projetos europeus e internacionais é outro dos nossos eixos de atuação.
Devo referir que a APF é, desde 2023, a responsável pela promoção da campanha Giving Tuesday em Portugal, uma campanha mundial de apelo à doação que acontece depois da Black Friday e da Cyber Monday. Continuaremos a desenvolver esta e outras campanhas que visem favorecer as doações e o apoio dos cidadãos às instituições em que se reveem.
Num outro eixo devo referir que recentemente foi publicado um novo Regime do Mecenato Cultural que representa uma grande melhoria dos benefícios atribuídos e das condições de acesso.  Vamos certamente advogar para que estas condições possam ser alargadas a outros setores como o social, educativo e cientifico, ambiental e desportivo.
A APF nasce com que dimensão em termos de associados? Qual é a meta de adesão de profissionais e organizações?
Estamos a arrancar agora. Temos encontrado um excelente acolhimento junto do setor e temos mais de 80 pessoas inscritas para o evento de apresentação, dia 6 de Novembro na Nova SBE em Carcavelos. Pretendemos chegar rapidamente aos 100 associados.

“A angariação de fundos contribui decisivamente para a resiliência e sustentabilidade das organizações sem fins lucrativos”

Muitas organizações sociais continuam fortemente dependentes de subsídios públicos, donativos pontuais e financiamento europeu. Pode o fundraising ajudar a diversificar estas fontes de receita e a reduzir essa dependência?
A angariação de fundos contribui decisivamente para a resiliência e sustentabilidade das organizações sem fins lucrativos. Não será o fator exclusivo, mas é um pilar fundamental. Algumas das organizações mais exemplares no nosso país desenvolveram o modelo muito virtuoso de três fontes de receitas: o apoio público, o apoio privado (filantropia), e as receitas próprias. Esta diversidade de fontes é essencial para a independência das organizações e a sua sustentabilidade.
Quantos profissionais e organizações trabalham atualmente na área da angariação de fundos em Portugal? Existe alguma estimativa da dimensão económica do setor?
No seu todo, a economia social representava em Portugal, de acordo com a Conta Satélite da Economia Social, dados do INE, em 2020, mais de 73.000 organizações, 3,2% do PIB e cerca de 6% do emprego remunerado, entre 240.000 e 300.000 postos de trabalho remunerado. Não temos dados específicos sobre os profissionais da área de fundraising. Esta é também uma das razões para a criação da APF pois queremos contribuir para conhecer melhor este setor, as suas características, os seus desafios e o impacto gerado. A consolidação desta profissão, contribuirá para o desenvolvimento da filantropia e necessariamente para o desenvolvimento do terceiro setor.

“Apesar das dificuldades que cada família pode sentir, o setor não lucrativo é um importante pilar da vida da maior parte das pessoas”

O contexto económico, o custo de vida e a pressão sobre os orçamentos familiares estão a alterar a disponibilidade dos portugueses para fazer donativos?
Aparentemente seria de esperar isso, mas os dados e noticias disponíveis contrariam essa lógica. Por exemplo sabemos que a consignação do 1% do IRS atribuiu em 2025 cerca de 77 milhões de euros a 5.000 organizações e tem registado um crescimento continuo. Por outro lado, os donativos nas campanhas do Banco Alimentar, por exemplo, também crescem em anos de difícil contexto económico (este ano em Maio aumentou 2,5% face ao ano anterior).
Apesar das dificuldades que cada família pode sentir, o setor não lucrativo é um importante pilar da vida da maior parte das pessoas. Desde as creches aos lares, dos hospitais aos museus ou universidades, dos bancos alimentares à assistência às pessoas em condição de sem abrigo, este setor é essencial à nossa vida em comum. E todos sentimos esse apoio diariamente nas nossas vidas e por isso, mesmo em tempo de crise, o cuidar do outro ou contribuir para o bem comum é uma parte da vida de todos.  Volto à referência ao estudo da Fundação La Caixa – cerca de 43% dos inquiridos afirmou estar envolvido em atividades de voluntariado.
A confiança é determinante para a decisão de doar. Que mecanismos devem existir para garantir que os donativos são efetivamente aplicados nas finalidades anunciadas?
A legislação já prevê os mecanismos de transparência e reporte formais para a generalidade das organizações, desde Associações às Fundações. Mas como refere, a confiança é essencial e as organizações que melhor comunicam e promovem a alocação das verbas às finalidades são também mais eficazes no esforço de captação de recursos. Do lado da APF compete-nos promover os códigos de ética e de boas práticas. Os órgãos públicos responsáveis e os de fiscalização interna das organizações devem também fazer o seu trabalho.
Como deve ser comunicada a utilização dos fundos aos doadores? Considera que as organizações portuguesas são suficientemente transparentes quanto aos custos administrativos e à percentagem dos donativos que chega diretamente aos beneficiários?
Como referi, temos dos melhores exemplos que gostaríamos que fossem mais generalizados. As organizações têm a obrigação legal de publicar e dar a conhecer as suas contas e a forma como aplicam os fundos angariados. Os que melhor o fazem são mais eficazes na capacidade de angariar e fidelizar doadores.
Como estão a mudar as plataformas digitais, os pagamentos eletrónicos e as redes sociais a forma como as organizações angariam fundos?
São plataformas que facilitam a comunicação e o contacto entre as organizações e os doadores. As organizações mais eficazes têm estes mecanismos muito bem desenvolvidos. A nível mundial temos assistido a um grande investimento também nesta área pois globaliza-se o mercado-alvo para muitas organizações. Mas também para as organizações mais locais são importantes ferramentas de comunicação do trabalho que é desenvolvido e por isso um grande facilitador na promoção do impacto o que favorece depois a capacidade de angariação. Traz uma grande exigência na capacidade de comunicar e utilizar estes novos media.
O crowdfunding e as campanhas associadas a acontecimentos de grande visibilidade permitem angariar verbas rapidamente, mas nem sempre garantem continuidade. Como podem as organizações transformar donativos pontuais em relações duradouras?
Como todas as relações duradoras, implicam conhecimento e compromisso, implicam envolver o doador na vida da organização, implica um sentimento de pertença e contributo efetivo na missão em questão.

“Vamos procurar agregar o máximo possível de profissionais, criar os códigos de ética e manuais de boas práticas, promover parcerias para o desenvolvimento de conhecimento e promover formação especifica sobre o setor”

Que iniciativas concretas vai a APF lançar após a apresentação oficial de 6 de novembro?
Como já referi antes, vamos procurar agregar o máximo possível de profissionais, criar os códigos de ética e manuais de boas práticas, promover parcerias para o desenvolvimento de conhecimento e promover formação especifica sobre o setor. Vamos dar a conhecer os casos de sucesso, promover os melhores exemplos e continuar a organizar outros eventos dinamizadores do setor.
No imediato vamos concretizar a campanha Giving Tuesday 2026 já no final do mês e promover os contactos para alargar o novo Regime do Mecenato Cultural aos outros setores da economia social.
Para terminar gostava de enfatizar que o fundraising (ou angariação de fundos) é, mais do que um simples ato, uma abordagem estrutural e fundamental na forma de entender a missão de uma organização, a sua estratégia e a forma como se apresenta à comunidade. É um processo profissional, matricial e transversal a toda a organização. Tem impacto testado e provado na sustentabilidade das organizações, mas também, e sobretudo, no reconhecimento do papel de cada organização no tecido social, seja local, nacional ou internacional.
O processo é aplicável a todas as organizações ajustando-se necessariamente à escala de cada uma. Sendo as organizações sem fins lucrativos dedicadas sobretudo a fins de utilidade pública, a promoção e desenvolvimento da atividade de fundraising é também um ato de promoção da coesão social.

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