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Para além do petróleo: o desafio de transformar a diplomacia angolana em poder económico

Para além do petróleo: o desafio de transformar a diplomacia angolana em poder económico

Na economia internacional, os países não competem apenas pelos mercados. Competem pela capacidade de atrair capital, dominar tecnologias, garantir acesso a cadeias de abastecimento e converter relações políticas em vantagens económicas duradouras. É neste terreno que a diplomacia contemporânea se torna também um instrumento de desenvolvimento. Para Angola, o desafio consiste em passar da afirmação diplomática à produção de resultados económicos mensuráveis.
Durante décadas, o petróleo conferiu a Angola relevância nos mercados energéticos e nas relações com importantes actores internacionais. Contudo, a dependência das receitas petrolíferas expõe a economia às oscilações dos preços internacionais e limita a previsibilidade do financiamento do desenvolvimento. Diversificar tornou-se, por isso, uma necessidade estrutural. Mas diversificar não significa apenas produzir mais fora do sector petrolífero. Significa criar sectores competitivos, capazes de gerar emprego, exportações, conhecimento e receitas sustentáveis.
É aqui que a política externa pode assumir uma função mais ambiciosa.
A diplomacia económica não deve limitar-se à assinatura de memorandos, à realização de visitas oficiais ou à participação em fóruns internacionais. Esses instrumentos são importantes, mas o seu valor depende daquilo que produzem depois das cerimónias. Quantos projectos de investimento avançam? Quantas empresas nacionais entram em novas cadeias de fornecimento? Que tecnologias são transferidas? Que produtos angolanos conquistam mercados externos? Quantos empregos qualificados são criados?
Estas perguntas permitem distinguir visibilidade diplomática de eficácia económica.
Angola dispõe de oportunidades em áreas como a agricultura, a agro-indústria, a logística, a mineração, a energia, o turismo e os serviços. O país possui recursos naturais, acesso ao Atlântico e uma posição geográfica que pode facilitar ligações entre mercados da África Austral e os circuitos internacionais de comércio. Todavia, estas vantagens não se transformam automaticamente em competitividade. Exigem infra-estruturas, financiamento, previsibilidade regulatória, qualificação profissional e capacidade de execução.
O Corredor do Lobito ilustra esta diferença. A sua importância não deve ser medida apenas pelo volume de mercadorias transportadas, mas também pela capacidade de estimular actividades económicas ao longo do percurso, integrar empresas angolanas nas cadeias logísticas e industriais e facilitar o acesso de produtores nacionais a mercados regionais. Uma infra-estrutura estratégica torna-se um instrumento de desenvolvimento quando gera valor para além da sua função de trânsito.
A relação com Portugal oferece outra oportunidade. A proximidade linguística, os vínculos empresariais e a experiência acumulada entre os dois mercados podem facilitar parcerias nos sectores agro-industrial, energético, tecnológico, turístico e logístico. Porém, uma relação económica madura não deve assentar apenas na exportação de bens e serviços portugueses para Angola. Deve também criar condições para empresas angolanas investirem, exportarem e participarem em projectos conjuntos, com benefícios recíprocos.
O mesmo princípio deve orientar a diversificação dos parceiros internacionais. China, União Europeia, Estados Unidos, Brasil, Índia e outros actores podem contribuir para diferentes objectivos económicos. A questão não consiste em escolher um parceiro exclusivo, mas em evitar dependências excessivas e negociar cada parceria de acordo com prioridades nacionais claras. Diversificar parceiros sem diversificar capacidades produtivas pode apenas substituir uma dependência por várias outras.
Para produzir resultados, Angola precisa de aproximar a diplomacia das instituições responsáveis pelo investimento, comércio e desenvolvimento empresarial. As missões diplomáticas devem dispor de prioridades sectoriais, informação sobre oportunidades concretas e mecanismos de acompanhamento dos contactos estabelecidos. A Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações, as instituições económicas, as associações empresariais e as representações diplomáticas devem trabalhar com objectivos articulados, sem duplicação de esforços.
Esta articulação exige também critérios de avaliação. O desempenho económico da diplomacia deve ser acompanhado através de indicadores como o investimento efectivamente executado, o crescimento das exportações não petrolíferas, a entrada de empresas angolanas em novos mercados, a criação de emprego qualificado e a transferência de competências. Não basta contabilizar reuniões ou acordos assinados; é necessário verificar os resultados alcançados.
Naturalmente, a diplomacia não consegue corrigir, por si só, os obstáculos internos ao investimento. A burocracia, as dificuldades de financiamento, os custos logísticos e a imprevisibilidade na aplicação das regras podem comprometer oportunidades negociadas no exterior. A credibilidade internacional de um país constrói-se tanto nas suas embaixadas como no funcionamento quotidiano das suas instituições.
A grande questão, portanto, não é saber se Angola tem relações internacionais relevantes. É saber se consegue mobilizá-las para transformar a estrutura da sua economia.
Num sistema internacional marcado pela competição por mercados, tecnologia e recursos estratégicos, a política externa deve funcionar como uma extensão da estratégia de desenvolvimento nacional. Isso exige coordenação institucional, prioridades realistas, capacidade negocial e avaliação permanente dos resultados.
A diplomacia angolana será economicamente estratégica quando cada parceria internacional contribuir para aumentar a capacidade produtiva do país. Para além do petróleo, o verdadeiro indicador de sucesso não será apenas o número de investidores recebidos ou de acordos celebrados, mas a capacidade de transformar essas relações em empresas competitivas, exportações diversificadas, emprego qualificado e maior autonomia económica.

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