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Angola acelera fora do petróleo e o desafio está agora na vida das famílias

Angola acelera fora do petróleo e o desafio está agora na vida das famílias

Durante cinco anos seguidos, entre 2016 e 2020, a economia angolana encolheu. Em 2020, a contração atingiu 5,27%. Seis anos depois, o retrato é diferente: o PIB acelera, a inflação recuou para um dígito e o investimento estrangeiro fora do petróleo atingiu o valor mais alto desde 2008. Os indicadores reunidos pelo Governo na publicação “Angola em Números”, atualizada em outubro de 2026, apontam para uma recuperação que se alarga a diferentes áreas da produção. O teste decisivo continua na vida das famílias: o desemprego atinge 21,5% e quatro em cada cinco empregos são informais.
O produto interno bruto (PIB) cresceu 8,74% no segundo trimestre, em comparação com o mesmo período de 2025, depois de uma subida de 5,32% nos primeiros três meses. No conjunto do semestre, o avanço foi de 7,15%. São dados preliminares, sujeitos a revisão, mas representam uma aceleração significativa face ao crescimento de 3,13% registado no conjunto de 2025. Para uma economia que atravessou cinco anos consecutivos de contração, entre 2016 e 2020, a mudança tem particular significado.
A sequência de resultados positivos começou em 2021 e prosseguiu nos anos seguintes, embora com ritmos diferentes. O crescimento passou de 1,09% em 2021 para 3,56% em 2022, abrandou para 1,32% em 2023 e atingiu 4,95% em 2024. O desempenho do primeiro semestre de 2026 reforça essa trajectória, sem permitir ainda antecipar o resultado do ano. A consolidação da recuperação exige que a dinâmica se prolongue.
Motores fora do petróleo
O elemento mais relevante deste retrato é a evolução da atividade não petrolífera. Segundo os dados reunidos pelo Executivo, este sector cresceu 7,34% em 2025 e representa 81% do PIB. No segundo trimestre de 2026, avançou 9,24%, acima dos 5,64% registados no petróleo. A diferença sugere que a expansão está a encontrar motores para além da exploração de crude, embora o peso das restantes atividades no produto não permita concluir que a dependência petrolífera nas exportações ou nas receitas públicas esteja resolvida. O agregado não petrolífero inclui ainda atividades extrativas, como os diamantes.
Entre os sectores com maiores variações no segundo trimestre surgem os diamantes, com 16,5%, a informação e comunicação, com 14,3%, o alojamento e restauração, com 12,6%, e a indústria transformadora, com 12,2%. A agricultura é igualmente identificada entre os contributos importantes para o crescimento. O desafio é transformar estas taxas numa base produtiva mais ampla, capaz de criar emprego, abastecer o mercado interno e disputar clientes no exterior.
O petróleo continua a ter um papel central nesta transição. A produção média no primeiro semestre foi de 1,032 milhões de barris por dia, próxima da meta de 1,05 milhões inscrita no Orçamento Geral do Estado. A estabilidade da produção ajuda a dar previsibilidade às receitas e à entrada de divisas. Diversificar a economia exige reduzir a exposição aos ciclos do crude, aproveitando a capacidade de investimento do sector.
A descida da inflação constitui o outro grande sinal de mudança. Em setembro, a variação homóloga dos preços fixou-se em 8,43%, contra 18,16% um ano antes. O documento assinala que a taxa está abaixo dos 10% desde julho, situação que não se verificava há mais de uma década. Em julho de 2024, tinha atingido 31,09%. A desaceleração melhora a previsibilidade das decisões de consumo e investimento.
O FMI projecta uma inflação média anual de 10,6% em 2026 e de 10,2% em 2027. Sendo uma inflação média anual, estes valores não são diretamente comparáveis com a taxa homóloga de setembro.
A passagem para um dígito não significa, contudo, que os preços tenham descido. Significa que continuam a aumentar a um ritmo inferior. Para as famílias, o efeito depende também da evolução dos rendimentos e do custo dos bens essenciais. Na alimentação, a variação anual indicada é de 9,5%, acima da inflação global. A produção agrícola e a distribuição dos alimentos continuam centrais para que a melhoria chegue ao orçamento doméstico.
Menor peso da dívida
No financiamento, o crédito às atividades produtivas aumentou 29,1% em Agosto, face ao mesmo mês de 2025, com destaque para a indústria transformadora, a agricultura e as pescas. O crédito total ao sector não financeiro cresceu 11%, para 9,2 biliões de kwanzas, aproximadamente 9 mil milhões de euros, enquanto o dirigido ao sector privado subiu 11,7%. Empresas e particulares concentram 85% do crédito. Trata-se de variações nominais: a sua leitura deve ter em conta a evolução dos preços, para avaliar o aumento efetivo do financiamento.
O Banco Nacional de Angola reduziu a taxa diretora em um ponto percentual, para 14,75%, e o coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional para 16,5%, segundo a informação relativa a setembro. O movimento acompanha a desaceleração dos preços e pode favorecer o financiamento da economia. A taxa diretora não corresponde aos juros cobrados a cada cliente: o efeito dependerá das condições dos bancos, do risco dos projetos e da capacidade das empresas para pagar os empréstimos.
Também o investimento direto estrangeiro fora do petróleo apresenta uma evolução expressiva. Em 2025, aumentou 171%, para 959,4 milhões de dólares, o valor mais elevado desde 2008, segundo o documento. No primeiro semestre de 2026, somou 667,7 milhões. A série revela, porém, oscilações importantes: 648 milhões em 2018, 113 milhões em 2020 e 124 milhões em 2023. O salto de 2025 e o resultado semestral de 2026 são sinais favoráveis; a continuidade das entradas e os projetos concretizados permitirão avaliar a consistência da mudança.
O IDE total atingiu 2,9 mil milhões de dólares no semestre, mais 12% em termos homólogos. O capital pode trazer tecnologia e alargar a produção. O seu impacto será maior com ligações às empresas locais, à formação dos trabalhadores e às cadeias de fornecimento.
Na frente financeira, o Governo apresenta reservas internacionais líquidas de 16,2 mil milhões de dólares, equivalentes a cerca de oito meses de importações. O documento refere igualmente que a Moody’s alterou, em setembro, a perspectiva do rating B3 de estável para positiva. A alteração sinaliza uma avaliação mais favorável da trajetória do risco, sem corresponder a uma subida da notação.
Quanto à dívida pública, o Executivo aponta para um rácio de 51,2% do PIB em junho de 2026, face a 55,5% em 2024 e 115,9% em 2020. A redução coloca o indicador abaixo do limite legal de 60% referido na publicação. Para avaliar a margem financeira efetivamente disponível, é necessário conhecer também o montante dos juros, os vencimentos e a composição cambial da dívida. Um rácio mais baixo não esclarece, isoladamente, quanto resta no orçamento para saúde, educação ou infraestruturas.
A gestão dos prazos é uma das prioridades para os próximos anos. A Estratégia de Endividamento de Médio Prazo 2026–2028 prevê manter o rácio abaixo de 60% do PIB e alongar a maturidade média da dívida para um intervalo entre 7,8 e nove anos. Distribuir os reembolsos por mais tempo pode aliviar a pressão de refinanciamento e tornar a gestão orçamental mais previsível, dependendo também do custo das novas operações.
Emprego e Estado digital
No emprego, a descida da taxa de desemprego de 28,8% para 21,5%, entre os segundos trimestres de 2025 e 2026, exige uma leitura prudente. O próprio documento informa que o inquérito passou a basear-se na nova divisão político-administrativa a partir do terceiro trimestre de 2025, circunstância que recomenda verificar a comparabilidade da série. Além disso, os 21,5% ficam acima dos 20,1% indicados para o último trimestre de 2025. O país conta com 10,2 milhões de empregados e uma taxa de emprego de 44,2%. A informalidade chega a 80,1%, revelando a dimensão do desafio de criar trabalho com rendimentos estáveis e proteção social.
A modernização do Estado acrescenta outra dimensão a este retrato. No GovTech Maturity Index do Banco Mundial, relativo a 2025, Angola obteve 0,593 pontos, numa escala de zero a um. Ficou ligeiramente acima da média mundial, de 0,589, e acima da média da África Subsariana, de 0,425. Face aos 0,447 pontos de 2022, a subida foi de cerca de 33%, passando o país do Grupo C para o Grupo B de maturidade digital.
Os melhores resultados surgem nos serviços públicos digitais, com 0,765 pontos, e nos sistemas centrais do Estado, com 0,695, ambos acima das respetivas médias mundiais. A participação digital dos cidadãos apresenta maior margem de progressão: regista 0,333 pontos, contra 0,474 à escala mundial. A dimensão dos facilitadores institucionais, com 0,579, também fica abaixo da média mundial de 0,607.
A Agenda de Transição Digital da Administração Pública 2027, coordenada pelo Instituto de Modernização Administrativa, reúne plataformas como o portal SEPE, para serviços não presenciais, o SIGFE, para as finanças públicas e salários, e o sistema de gestão de recursos humanos. Inclui também candidaturas online aos concursos da função pública, serviços tributários digitais e contratação pública eletrónica.
O significado económico desta transformação dependerá da utilização efetiva das plataformas: menos deslocações e esperas, maior previsibilidade nos procedimentos e menores custos para cidadãos e empresas. O índice avalia a maturidade digital do Estado; o benefício para a população dependerá da acessibilidade e do funcionamento regular dos serviços.
As previsões citadas apontam para crescimento em 2026, mas divergem na intensidade: 4,4% para o FMI, 4,5% para o Banco Mundial, 5,7% para o Governo e 6,15% para o banco central. O FMI reviu a estimativa de 2,3% para 4,4% e o Banco Mundial de 2,4% para 4,5%, segundo a publicação. O Executivo atribui os progressos às reformas conduzidas por João Lourenço e coordenadas, na área económica, por José de Lima Massano. Os indicadores apresentados sustentam um retrato de aceleração. A prova decisiva será a capacidade de manter esse impulso e convertê-lo em empregos formais, rendimentos mais fortes e melhores serviços públicos. É aí que o crescimento poderá passar mais diretamente das estatísticas para a vida dos angolanos.

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