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O que é que o Alkantara tem a ver com este mundo?

O que é que o Alkantara tem a ver com este mundo?

Não é por mera preguiça intelectual que escolhemos a expressão ‘desassossego’ para falar no Alkantara Festival, agora que se aproxima mais uma edição. E que, como sempre, se vai espalhar por vários espaços de Lisboa, de 13 a 29 de novembro. Desassossego porque a inquietação e o sobressalto são o combustível do Alkantara. Mas os projetos que sobem ao palco não querem lamber feridas e inquietar porque sim. Querem surpreender, questionar o público e propor outras formas de ver o mundo. Com matizes, muitas matizes. Umas vezes com humor, outras com soda cáustica, outras ainda pela força ou fragilidade de quem está em cena.
Mas, afinal, o que é que este festival tem a ver com este mundo? Primeiro, o contexto, em pinceladas acres. “Vivemos num mundo muito diverso e complexo, em que, contrariamente às promessas de progresso, vemos o agravamento de desigualdades e da violência. A crise climática, as guerras, os genocídios e a ascensão da extrema-direita tornam difícil olhar para o futuro com otimismo e confiança, sobretudo quando a informação e o conhecimento que temos podia evitar muito do que está a acontecer.” Eis as primeiras achas. A fogueira, claro, continua a arder. “A tecnologia transformou rapidamente a forma como trabalhamos, como nos relacionamos com os nossos corpos e emoções e como acedemos ao conhecimento. É neste mundo que fazemos o Alkantara. Um festival em que criamos espaços para nos encontrarmos, partilharmos tempo e atenção e conhecermos experiências de outras pessoas, por vezes diferentes, por vezes próximas das nossas.” As palavras, o olhar, é de David Cabecinha, codiretor artístico do Alkantara.
Premissa fundamental é os espetáculos que integram a programação do festival irem além do desassossego. A ideia é servirem de bússola para descobrir “o que ainda nos move, nos surpreende e nos dá prazer”, frisa David. E nutrir o desejo. E inflamar a curiosidade. E “sentir e pensar criticamente em conjunto, sem termos de chegar às mesmas conclusões”, acrescenta. No fundo, preservar um espaço aberto à exploração que não cede à mimese impulsiva nem à reverência cega, dizemos nós.
Fins e recomeços
A edição de 2026 é marcada por fins e recomeços. “Interessa-nos perguntar o que queremos mudar e o que queremos preservar. É por isso que no Alkantara Festival se encontram muitas danças, de muitos sítios”, explica David Cabecinha. Danças que estavam à beira do desaparecimento, como a polka chinata. Danças que se podem reinventar e reinterpretar, como o dancehall da Jamaica, o kuduro de Angola, o dembow dominicano ou o chaabi marroquino. “E danças que guardam memórias e abrem possibilidades de imaginar outros futuros”, realça.
E histórias que são espelhos-reflexo-de-vulnerabilidade. Dos contextos de guerra às experiências de diáspora e de desconforto. Mas não só. Os confrontos com a violência masculina também marcam presença. E com força. Estamos a pensar no trabalho de Carolina Bianchi, na performance “The Brotherhood”, por exemplo. O que o cardápio do Alkantara propõe é diversidade, pluralismo de olhares. “Propostas muito diferentes entre si, que podem comover-nos, desafiar-nos ou fazer-nos rir, e que deixam espaço para que possamos pensar e discutir coletivamente”, detalha David Cabecinha.
A curiosidade que move a dupla de diretores artísticos – Carla Nobre Sousa é a outra parte desta ‘cabeça’ – na construção do programa é também aquela que, diz David, esperam “despertar em quem vem ao festival.” E também a circulação de obras e a cooperação, nacional e internacional, centrais no trabalho do Alkantara. David confirma. “Permite-nos acompanhar artistas, apresentar propostas internacionais em Lisboa e apoiar projetos que se desenvolvem a partir daqui. Cooperar é partilhar recursos e responsabilidades, mas também acompanhar artistas ao longo do tempo.” Um exemplo desta forma de trabalhar é a parceria que o Alkantara Festival tem com a Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Salavisa European Dance Award.
Olhar o mundo de frente
É neste contexto que o Alkantra traz, novamente, a Lisboa, Dorothée Munyaneza, que abriu o festival no ano passado. E que apresenta o trabalho de Idio Chichava. “Para o público, são oportunidades de acompanhar percursos artísticos e de descobrir outras práticas”, salienta. Esta será a face mais óbvia de uma parceria, mas a menos visível também aqui está incluída – as condições de cada pessoa para circular. “Os recursos e a liberdade de movimento dependem muito do lugar a partir do qual se trabalha. Queremos que a cooperação ajude a contrariar essas desigualdades”.
Antes de nos despedirmos desta conversa, pedimos a David Cabecinha para destacar dois projetos na edição deste ano. Escolheu três, “porque mostram forças diferentes que atravessam esta edição.”
O festival começa com uma despedida e com uma pergunta: o que fica de um percurso artístico? “Menos, de Cão Solteiro & André Godinho”, marca a despedida de uma companhia com 29 anos de trabalho e uma linguagem muito singular. “The Brotherhood”, de Carolina Bianchi, “é uma peça que exige disponibilidade para o desconforto, num festival onde também queremos criar condições para olhar de frente a brutalidade e a violência que preferíamos que não existissem”, afirma David, antes de destacar a forma como a encenadora e performer brasileira usa o teatro para “nos confrontar com os pactos de masculinidade e as cumplicidades que podem sustentar a violência.” E a forma como desfere murros no estômago, envolvendo o público nas “contradições entre admiração, desejo e repulsa.”
A terceira escolha? “Dzudza”, de Idio Chichava, uma peça vibrante que traz a energia das ruas e de um mercado nos arredores de Maputo. Em cena, doze intérpretes dançam e cantam, numa celebração da força do coletivo. “Interessa-nos essa capacidade de se sustentarem e de continuarem a dançar em conjunto”, realça David Cabecinha. Sentir no coletivo, por vezes, passa por dançar o agora sem nunca olhar para trás.
Consulte aqui a programação completa do Alkantara Festival.

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