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Défice na balança de bens é o segundo pior desde 2010

Défice na balança de bens é o segundo pior desde 2010

Há muitos anos que Portugal recebe mais do que paga ao exterior, com a balança corrente e a de capital a ser positiva de forma quase ininterrupta desde 2012 (com uma exceção há três anos). No entanto, estes números vão camuflando, dentro da balança corrente, um défice na relação entre exportações e importações de bens. O desequilíbrio não é de hoje, mas voltou a ser elevado no ano passado, ascendendo a 9,6%, o segundo pior registo desde 2010 (quando tinha atingido 10,8%).
Em 2013, durante a intervenção da troika, este valor chegou a tocar na casa dos 4% e não passaria dos 5% até 2016. A partir daí, começou a escalar: de 2017 a 2021, ainda de forma ligeira, alcançando entre 6% e 7%, mas a guerra da Ucrânia e toda a conjuntura que se seguiu fizeram o valor disparar para 10,9% em 2022. Nos anos seguintes, houve uma progressiva correção — 9,3% em 2023 e 8,8% em 2024 — que poderia deixar antever uma continuidade da descida em 2025. Não aconteceu.
Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da AIMMAP (metalurgia e metalomecânica), afirma ao Jornal Económico que, tirando 2025, o percurso até “tem sido bom”, porque Portugal está “a exportar cada vez mais bens transacionáveis” — no ano passado, o país vendeu ao estrangeiro apenas mais 0,5% de bens, mas na última década o acréscimo é superior a 58%. O problema é que as importações aumentam muito mais: 3,9% no ano passado e 81% desde 2016.
O maior contributo para o desequilíbrio da balança de bens em 2025 veio dos produtos químicos, incluindo farmacêuticos, e dos equipamentos (ambos a contribuírem com mais de 7 mil milhões de euros para o défice), seguidos de produtos petrolíferos e do setor automóvel (ambos acima de 4 mil milhões). Em conjunto, representam 77% de todo o défice da balança de bens (que atingiu os 31,9 mil milhões no ano passado).
O caso agrícola
No entanto, há outras categorias do INE que, se forem agregadas, também deixam o agroalimentar no radar: em conjunto, os produtos de animais, vegetais e da vertente industrial colocam o setor na terceira posição.
“Há países europeus com maior aptidão agrícola do que Portugal”, reconhece o antigo ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral, recordando, desde logo, que há “uma balança negativa nos cereais desde tempos históricos”.
O economista sublinha que Portugal tem desenvolvido a capacidade de rega, acompanhada de “um forte investimento numa agricultura mais moderna” e “melhor organização da produção”, o que permitiu exportar “bastante mais” em vários tipos de produto, mas considera que é preciso não perder de vista “algum nível de autossuficiência agrícola” de Portugal e da Europa para prevenir “problemas alimentares”.
Deolinda Silva, diretora executiva do Portugal Foods, nota que o setor tem tido “um crescimento sustentado das exportações”, mas admite “uma fragilidade setorial”, porque “não há capacidade interna para alavancar produção que pudesse inverter totalmente esta situação”. Não são só os cereais: café, cacau, porco e vaca (nestes dois “há um trabalho que tem de ser feito”), ou os laticínios, que, para Diolinda Silva, não faz sentido: “Nós somos autosuficientes em leite, mas importamos uma loucura de queijo. E, provavelmente, não precisaríamos de importar”, considera. “Tem de haver um trabalho estrutural de substituição de importações por consumo nacional”.
A vertente industrial do setor, que a Portugal Foods representa, não é a mais crítica, tendo contribuído com 750 milhões para o défice. Para Deolinda Silva, seria importante, sobretudo, que “o setor cooperativo fosse dinamizado e otimizado” e que se agrupasse produção, para “criar escala”.
Valor acrescentado e fundos
Para Óscar Afonso, economista da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, esta é uma questão “estrutural” no país, que “decorre de termos uma especialização focada em atividades de baixo valor acrescentado, seja na agricultura, seja na indústria tradicional”. O economista sublinha “as poucas qualificações” da população ativa, apesar de os jovens “compararem bem no contexto europeu”. Só que “estão desempregados e acabam por emigrar”, afirma.
Manuel Caldeira Cabral discorda: “A especialização produtiva em Portugal e a especialização externa em Portugal tiveram uma alteração importante nestes últimos 10 anos, porque há setores como as indústrias química, farmacêutica e aeronáutica que ganharam peso no PIB”. Além disso, nota que “há atividades que incorporam muita inovação, que são muito valorizadas e usam mão de obra mais qualificada”, mas “nem sempre têm muito valor acrescentado”, que decorre da “diferença entre o que importamos para exportar e o que exportamos”.
E não seria expectável que os fundos europeus ajudassem a reverter a situação? “Claro que era”, responde Óscar Afonso. “E era expectável que tivessem patrocinado coesão territorial e coesão social. Não fazem nada disso”.
No mesmo sentido, Rafael Campos Pereira afirma que “a ideia dos fundos estruturais era exatamente essa”, mas que na última década “têm sido aproveitados para algum investimento público”, em substituição do Orçamento do Estado.
Problema é outro
Mas até que ponto esta é uma questão problemática? Caldeira Cabral, na verdade, considera que o défice nos bens é “uma falsa questão”, porque a balança corrente e de capitais é positiva. O economista ressalva ainda que o turismo “gera défice em todos os produtos necessários para alimentar essas pessoas”. Exemplo: bebidas importadas.
Para o antigo ministro da Economia, “o que é preocupante é um arrefecimento muito grande das exportações em geral nos últimos dois anos”, após uma década de crescimento acima do PIB. Para já, “é sustentável, porque temos as contas externas equilibradas, mas a prazo tenderá a gerar défices externos”, avisa.

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