Portugal entre os menos expostos à automação da IA, mas funções administrativas continuam em risco
A Inteligência Artificial está a transformar de forma acelerada o mercado de trabalho global, com impactos que já ultrapassam fases experimentais e começam a redefinir funções em larga escala. A conclusão é de um estudo recente da Coface, feito em parceria com o Observatório das Profissões Ameaçadas e Emergentes, e que revela que cerca de uma em cada oito profissões já ultrapassou o limiar crítico de automação, fixado nos 30% de tarefas automatizáveis.
Ao contrário de anteriores revoluções tecnológicas, que afetaram sobretudo trabalhos manuais e repetitivos, a atual vaga impulsionada pela inteligência artificial está a avançar sobre tarefas cognitivas, complexas e qualificadas. O estudo analisou 923 profissões de forma detalhada, decompondo cada função em tarefas específicas e avaliando a sua exposição ao desenvolvimento da IA. Os resultados indicam que, quando mais de 30% das tarefas de uma profissão podem ser automatizadas, torna-se inevitável uma transformação profunda da função, ainda que não implique necessariamente o seu desaparecimento.
Entre as áreas mais expostas encontram-se a engenharia, as tecnologias de informação, as finanças, o direito, as funções administrativas e algumas atividades criativas, onde mais de um quarto das tarefas poderá vir a ser automatizado. Em contraste, profissões ligadas a cuidados, restauração, transportes, manutenção e trabalhos manuais continuam relativamente protegidas, mantendo níveis de exposição inferiores a 10%.
Portugal apresenta um nível de risco ligeiramente abaixo da média europeia, refletindo a estrutura da sua economia, ainda fortemente assente em setores como o comércio, o turismo, os transportes, a construção e o imobiliário. Estas áreas, menos intensivas em conhecimento, são também menos vulneráveis às capacidades atuais da inteligência artificial. Ainda assim, o estudo alerta que o risco no país concentra-se sobretudo em funções administrativas, vendas, atendimento ao cliente e em algumas áreas técnicas e de engenharia, enquanto a menor presença de setores como as tecnologias de informação e serviços científicos contribui para atenuar a exposição global.
Para além do impacto direto no emprego, o relatório sublinha efeitos estruturais mais amplos, incluindo uma possível transferência de valor do trabalho para o capital, desafios acrescidos para os sistemas fiscais devido à redução de receitas e aumento da despesa social, uma reavaliação do papel das qualificações formais e o surgimento de novas vulnerabilidades geopolíticas associadas à concentração de ativos tecnológicos críticos.
A conclusão é clara: a inteligência artificial já está a alterar o núcleo das funções que sustentam o rendimento, a produtividade e a receita fiscal, tornando inevitável uma reconfiguração profunda dos equilíbrios económicos e laborais num futuro cada vez mais próximo.
Share this content:



Publicar comentário