A mornidão na Índia
Fora das cidades imensas de respiração poluída, o ar da Índia pode ser doce, húmido, morno, com a consistência de um corpo quase líquido, que envolve primeiro a pele e só depois se deixa respirar. Esta mornidão diminui as diferenças entre os corpos, aproxima-os, o que há entre eles é já também corpo, e os cheiros mostram-no. A distância entre as coisas, o aqui e o ali, ganha outro significado. Já não é preciso refúgio.
Os cães sabem. Estão por toda a parte, como se os lugares fossem deles e nós chegássemos depois. Encontramo-los nas bermas das ruas, nas sombras, nas covas nos areais. São rafeiros, marcados por cicatrizes, por uma dureza visível de vida. Às vezes são meia dúzia e simplesmente estão. Aqui, parece inconcebível vedar-lhes o acesso ao espaço público. A terra é deles e há que contar com esse facto.
Também os corvos surgem por toda a parte, instalados nos lugares mais improváveis com a naturalidade de quem reparte o mundo com igual direito. E a vegetação cerca as casas, até quase as engolir. Raízes que não se ficam pelo chão, ramos e folhas largas avançam, como se a matéria vegetal tivesse a última palavra.
Na costa de Kerala, o sol põe-se no mar, sangrando primeiro, um derrame no céu, mas não chega inteiro ao horizonte: desvanece-se antes, como uma lua cheia vermelha, e quando a linha o alcança, já não está lá.
De costa a costa, a mesma sensação persiste. “The River”, novela belíssima de Rumer Godden (adaptada para cinema por Jean Renoir), fala desta mornidão. A história passa-se antes da partição da Índia, na parte leste de Bengala (hoje Bangladesh). Ali a vida não promete senão a intensidade sensível de um corpo entre outros corpos, animais, vegetais, minerais. A mesma mornidão — no ar, na pele, nos gestos, no rio, no chão — define a própria vida. E quando desaparece, leva-a consigo.
Aqui, não se vive contra a natureza e os outros que a habitam. Não há como. Dizer que é dos trópicos é pouco. Para a tradição tamil, na costa onde o sol nasce, não faz sentido separar a paisagem de quem a habita: a poesia clássica é uma geografia que não separa afectos e territórios. O sol nunca se alcança, mas aqui não se guarda na distância. Ele é companhia. Contemplar tem isso de estar junto com um templo. E nesta tradição, o corpo é o templo. É a mornidão do corpo que define a vida, como dizia Godden.
Mesmo quando não tocamos directamente nas coisas, há sempre uma humidade intermédia que toca por nós. Nunca se está inteiramente separado, tudo é companhia. Esta não é uma terra solitária.
Este texto integra a série intitulada “Caderno de viagem“, publicada quinzenalmente no Jornal Económico.
Share this content:



Publicar comentário